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Répteil de 230 milhões de anos com bico de papagaio identificado no Brasil

Pessoa com luvas a limpar crânio animal fóssil no local de escavação arqueológica.
Neste artigo
  1. Um crânio altera a contagem
  2. Um bico com dentes
  3. Mecanismo para comer plantas em Isodapedon varzealis
  4. Um padrão mandibular invulgar
  5. Preparação cuidadosa do fóssil
  6. Os fósseis ajudam a datar rochas
  7. Brasil e Escócia
  8. Vida antes dos dinossauros
  9. A raridade mantém as dúvidas
  10. O que o fóssil revela

Cientistas identificaram um réptil com 230 milhões de anos, dotado de um bico afiado semelhante ao de um papagaio, que cortava e processava plantas com uma precisão invulgar.

A descoberta acrescenta um novo tipo de herbívoro a uma paisagem pré-histórica já diversificada, pouco antes de os dinossauros passarem a dominar a vida terrestre.

Um crânio altera a contagem

Um crânio fóssil encontrado no sul do Brasil conservava os maxilares do animal e revelou um bico cortante associado a dentes de moagem muito compactos.

Ao analisar estas características, Jeung Hee Schiefelbein, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), demonstrou que o exemplar pertencia a uma espécie até então desconhecida.

As fileiras dentárias distintas e as proporções dos maxilares diferenciavam-no de outros parentes já conhecidos, incluindo os encontrados nas mesmas camadas rochosas.

Esta separação anatómica inequívoca levanta novas questões sobre quantos répteis herbívoros diferentes viviam no mesmo ambiente e de que forma repartiam os recursos.

Um bico com dentes

Baptizado de Isodapedon varzealis, o réptil teria provavelmente cerca de 1,5 metros de comprimento e deslocava-se rente ao solo sobre quatro membros robustos.

O bico frontal, sem dentes, cortava primeiro as plantas, enquanto as fileiras de dentes fundidos esmagavam o alimento mais atrás na boca.

Sulcos finos nos ossos dianteiros terão provavelmente alojado queratina, o material resistente que actualmente reforça os bicos das aves.

A combinação entre corte e trituração indica um animal adaptado a vegetação resistente, e não à captura de presas rápidas.

Mecanismo para comer plantas em Isodapedon varzealis

Na mandíbula superior, a maxila - um osso craniano portador de dentes - apresentava duas superfícies de moagem equivalentes, em vez de apenas uma.

Cada lado possuía três fileiras longitudinais de dentes, criando uma disposição equilibrada nas duas metades, rara entre os parentes próximos.

A maioria dos animais aparentados apresenta um lado mais largo, pelo que esta configuração simétrica representava mais do que uma variação individual comum.

As diferenças na alimentação poderão ter permitido que vários herbívoros ocupassem a mesma paisagem sem explorarem as plantas da mesma maneira no dia-a-dia.

Um padrão mandibular invulgar

Sob essa mandíbula superior, o dentário - o principal osso da mandíbula inferior - possuía a sua própria plataforma incomum. Esta característica forneceu uma pista sobre a mordida.

Pequenos dentes estavam muito juntos nessa plataforma, ajudando a lâmina inferior a encaixar no sulco superior enquanto o animal mastigava.

Outras espécies brasileiras tinham plataformas mais largas, não possuíam dentes ou exibiam sulcos adicionais, resultando num padrão de mordida diferente ao longo da boca.

Estes contrastes deram ao fóssil uma identidade clara, embora os cientistas dispusessem apenas de parte do crânio e de ossos incompletos.

Preparação cuidadosa do fóssil

Os fósseis frágeis raramente revelam depressa os seus pormenores, e este crânio exigiu meses de preparação paciente antes de poder ser interpretado com clareza pelos cientistas.

Os técnicos removeram o sedimento lentamente, pois um único movimento apressado poderia partir as zonas com dentes necessárias para identificar a espécie, destruindo simultaneamente as provas.

“A região dos dentes, que é muito importante para os rincossauros, contém as características necessárias para a identificação ao nível da espécie”, afirmou Schiefelbein.

Este trabalho demorado transformou os ossos enterrados em evidência legível, sobretudo nas zonas em que a mecânica da mordida, e não apenas o contorno, continha o sinal distintivo da espécie.

Os fósseis ajudam a datar rochas

Para além de nomear um animal, a descoberta ajuda os paleontólogos a alinhar camadas rochosas no sul do Brasil, onde são escassas as datações directas das rochas.

Este método chama-se bioestratigrafia: compara rochas através dos fósseis, e os rincossauros constituem marcadores especialmente úteis entre afloramentos dispersos.

Quando os mesmos padrões mandibulares surgem em locais diferentes, os investigadores podem comparar estratos da bacia que não possuem cinza vulcânica datável.

No caso de Isodapedon, este trabalho continua a ser prudente, pois vários fragmentos semelhantes das colecções brasileiras ainda necessitam de um estudo mais completo antes de as designações serem definidas.

Brasil e Escócia

As análises da árvore evolutiva colocaram o novo réptil mais perto de formas escocesas do que das espécies sul-americanas conhecidas nos testes da equipa.

Características partilhadas dos maxilares ligaram o Brasil, a Argentina, a Escócia e possivelmente o Zimbabué numa narrativa mais ampla de herbívoros do Triássico Superior em terras antigas.

Nessa época, os continentes formavam a Pangeia, um único supercontinente, pelo que animais aparentados podiam dispersar-se mais facilmente por territórios ligados ao longo de muitas gerações.

Esta ligação torna o fóssil brasileiro parte de um padrão maior do que uma descoberta local num único jazigo.

Vida antes dos dinossauros

Nesse período de forte tensão ecológica, os primeiros dinossauros já existiam no Brasil, mas ainda não dominavam os ecossistemas.

Os grandes herbívoros incluíam rincossauros e parentes dos mamíferos, enquanto pequenos parentes dos primeiros dinossauros circulavam pelas mesmas teias alimentares.

O stress climático durante o Episódio Pluvial Carniano, um intervalo mais húmido no Triássico Superior, remodelou muitos ecossistemas terrestres e marinhos.

Neste contexto de mudança, diferentes herbívoros poderão ter sobrevivido ao dividirem os recursos alimentares de forma mais minuciosa do que os seus rivais.

A raridade mantém as dúvidas

Mesmo após a designação formal, o registo fóssil continua a deixar lacunas sobre a distribuição deste animal ao longo do tempo.

Alguns maxilares isolados de outros locais brasileiros parecem semelhantes, mas fragmentos fósseis podem induzir em erro até investigadores prudentes.

A idade, o desgaste e o crescimento podem modificar as fileiras dentárias, fazendo com que animais jovens pareçam espécies distintas nas colecções sem qualquer aviso.

Crânios mais completos permitirão testar se esses fragmentos pertencem a Isodapedon ou a outro ramo oculto dentro do grupo.

O que o fóssil revela

Um crânio com bico, fileiras dentárias equilibradas e uma preparação meticulosa transformam um único fóssil frágil num retrato mais nítido e detalhado da vida no Triássico.

Descobertas futuras poderão revelar quantas estratégias herbívoras ocuparam o sul do Brasil antes de os dinossauros se tornarem os herbívoros dominantes ao longo de milhões de anos.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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