Durante mais de meio século, a Lua esteve suficientemente perto para dominar o céu noturno, mas suficientemente longe para parecer intocável.
A Artemis II alterou essa perceção. A primeira missão lunar tripulada da NASA desde o programa Apollo não aterrou na Lua, mas conseguiu algo igualmente importante: demonstrou, perante o mundo e com quatro pessoas a bordo de uma nave totalmente nova, que toda a sequência de operações continua a funcionar.
O lançamento, a viagem pelo espaço profundo, a passagem pela Lua e o regresso intenso e violento através da atmosfera terrestre, que terminou com uma ameragem no Pacífico e uma receção entusiástica em Houston, marcaram esta missão histórica.
A tripulação também fez história: era composta pelo comandante Reid Wiseman, pelo piloto Victor Glover, pela especialista de missão Christina Koch e pelo astronauta da Agência Espacial Canadiana Jeremy Hansen.
A equipa da Artemis integrou a primeira mulher, a primeira pessoa racializada e o primeiro cidadão não norte-americano a viajar até à Lua.
A volta da Artemis II que ultrapassou a Apollo
O perfil de voo da Artemis II foi concebido para ser ambicioso, mas prático: contornar a Lua, testar a fundo a Orion no espaço profundo e regressar a casa.
Ao longo da missão, os astronautas viajaram mais longe no espaço do que os exploradores lunares de há décadas, estabelecendo um novo recorde de distância que ultrapassou o da Apollo 13.
No ponto mais afastado da Terra, a Orion encontrava-se a 406 771 quilómetros do planeta. Essa distância é importante porque revela a trajetória da missão e a confiança da NASA nos sistemas e na navegação da nave.
A missão proporcionou imagens capazes de tornar a experiência dos voos espaciais novamente palpável, incluindo vistas do lado oculto da Lua «nunca antes testemunhadas por olhos humanos».
Os astronautas captaram ainda uma impressionante fotografia do «ocaso da Terra», com o planeta a desaparecer atrás do horizonte cinzento lunar, evocando a lendária imagem do nascer da Terra obtida pela Apollo 8.
Como se o espaço também gostasse de se exibir quando recebe visitantes humanos, a paisagem cósmica observada pela Artemis II incluiu ainda um eclipse solar total.
Uma experiência profundamente emotiva
Uma missão pode ser tecnicamente irrepreensível e, ainda assim, parecer desprovida de emoção. Não foi o caso da Artemis II. Os astronautas falaram abertamente sobre a emoção do que viram e sobre o esforço necessário para lá chegar.
«Isto não foi fácil», disse Wiseman à multidão em Houston. «Antes do lançamento, parece que estamos perante o maior sonho do mundo.»
«E, quando estamos lá fora, só queremos regressar às nossas famílias e aos nossos amigos. Ser humano é algo especial, e estar no planeta Terra também é algo especial.»
«Ainda não assimilei o que acabámos de fazer e tenho receio até de começar a tentar», acrescentou Glover.
Um bote salva-vidas suspenso no universo
Hansen desviou a atenção das quatro pessoas em palco para todos os que construíram a missão e para todos os que a acompanhavam.
«Quando olham para aqui, não estão a olhar para nós. Somos um espelho que vos reflete. E, se gostam do que veem, basta olharem um pouco mais fundo. São vocês», afirmou.
Koch descreveu a vista de uma forma que soou menos a conferência de imprensa e mais a alguém a tentar explicar uma emoção inesperada.
«Sinceramente, o que me impressionou não foi necessariamente apenas a Terra, mas toda a escuridão à sua volta. A Terra era apenas este bote salva-vidas, suspenso tranquilamente no universo», disse.
Entretanto, as instalações sanitárias espaciais continuam a ser um problema. A Artemis II «teve de lidar com um problema mais mundano: uma sanita espacial avariada», e a NASA afirmou que o projeto será corrigido antes de missões mais longas.
O espetáculo continua
A missão terminou à maneira tradicional: uma reentrada luminosa como fogo, paraquedas e uma ameragem.
A tripulação seguiu depois para Houston e aterrou no aeródromo de Ellington, perto do Centro Espacial Johnson, onde foi recebida num hangar cheio de familiares e funcionários da NASA.
O administrador da NASA, Jared Isaacman, apresentou os astronautas perante uma ovação de pé. A data trouxe também uma ligação à história espacial: regressaram à base da NASA em Houston no 56.º aniversário do lançamento da Apollo 13, missão para sempre associada à frase «Houston, tivemos um problema».
Isaacman aproveitou o simbolismo: «A longa espera acabou. Após um breve intervalo de 53 anos, o espetáculo continua», declarou.
O significado da missão Artemis II
A Artemis II não foi uma missão para «tocar na Lua». Foi uma missão destinada a «provar que conseguimos chegar lá e regressar, repetidamente».
Validou a Orion com pessoas a bordo, e não apenas com manequins de teste e sensores. Validou também operações de longa distância, comunicações, navegação e recuperação, numa altura em que a NASA procura passar de missões heroicas isoladas para um ritmo sustentável.
Demonstrou ainda algo menos técnico: em 2026, continua a ser possível colocar uma tripulação no espaço profundo e fazer com que o mundo sinta a experiência.
Muitas tripulações da era Apollo eram conhecidas pela postura estritamente profissional em público. A Artemis II foi diferente: mais aberta, mais pessoal e, nas palavras de Isaacman, composta por «comunicadores maravilhosos, quase poetas».
O que se segue
O sucesso da missão volta imediatamente as atenções para os próximos voos. A NASA já prepara a Artemis III para o ano seguinte, prevista como uma missão de treino de acoplagem mais próxima da Terra, que abrirá caminho ao objetivo posterior de uma aterragem tripulada perto do polo sul lunar com a Artemis IV, em 2028.
A NASA disse também que anunciará em breve a tripulação da Artemis III. Continua a haver muita incerteza: os prazos dos equipamentos, o financiamento, a política e a realidade de que a exploração espacial envolve sempre riscos.
Amit Kshatriya, administrador associado da NASA, resumiu essa tensão de forma direta: «Sabem o que está em jogo», afirmou, acrescentando que explorar exige encontrar «o equilíbrio certo entre ficar paralisado por isso e ser capaz de o gerir».
Mas a Artemis II alterou a perspetiva emocional. Não se limitou a prometer um regresso à Lua: concretizou-o. E, após 53 anos de espera, essa realização teve a força de uma prova.
Crédito da imagem: NASA






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