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B-52 e mísseis balísticos intercontinentais: a nova postura nuclear dos Estados Unidos

Homem em roupa militar segura tablet com mapa, com avião e pessoas no pátio de aeroporto militar ao fundo.
Neste artigo
  1. Da dissuasão discreta à demonstração visível de força
  2. O que significa «recarregar» os mísseis balísticos intercontinentais no terreno
  3. Viver com uma postura nuclear mais agressiva
  4. Quando a dissuasão começa a ser sentida de outra forma

Numa faixa de pista fustigada pelo vento no Dakota do Norte, um chefe de equipa limpa a névoa gelada da fuselagem de um B-52H envelhecido, o mesmo modelo de bombardeiro que o seu avô carregava na década de 1960. A superfície cinzenta do avião revela décadas de desgaste, mas sob as asas estão instalados novos suportes, preparados para armas que ainda não existiam quando a aeronave voou pela primeira vez. No posto de pilotagem, um jovem piloto percorre uma lista de verificação que inclui agora ataques convencionais e cenários nucleares. Uma só aeronave, duas missões e muito menos margem para dúvidas.

A cena parece estranhamente familiar e, ao mesmo tempo, discretamente nova. Algo está a mudar na postura nuclear dos Estados Unidos, e o ambiente na zona de operações de voo conta essa história antes de qualquer documento de política.

Da dissuasão discreta à demonstração visível de força

Para a maioria das pessoas, «postura nuclear» soa a algo guardado a sete chaves num cofre em Washington. Para as equipas que vigiam mísseis em silos subterrâneos ou percorrem as asas dos bombardeiros, é uma rotina diária, quase um ritual. Ultimamente, esse ritual está a mudar.

A Força Aérea dos Estados Unidos começou a falar mais abertamente em «recarregar» os seus mísseis balísticos intercontinentais e em voltar a posicionar os B-52 para missões duplas, permitindo-lhes transportar armamento convencional ou nuclear com pouca antecedência. O que antes era uma ameaça silenciosa, quase de fundo, está a voltar a ser exposto, como um sinal de aviso acabado de pintar de vermelho vivo.

Na Base Aérea de Minot, onde no inverno baixam tanto as temperaturas como os ânimos, as equipas de mísseis costumavam brincar que a sua missão era «ser esquecidos até ao dia em que deixarmos de o ser». Agora, as sessões de informação têm outro tom. Os oficiais falam de prazos de prontidão, alterações dos níveis de alerta e novas orientações sobre o tempo durante o qual os bombardeiros devem conseguir permanecer no ar.

O B-52, durante muito tempo o pesado símbolo da dissuasão da Guerra Fria, está subitamente a ser repensado. As missões duplas significam que uma única aeronave poderá passar de uma tarefa de ataque convencional para uma função nuclear com menos atrasos burocráticos e maior ambiguidade operacional. Essa ambiguidade não é acidental. É uma mensagem.

Os estrategas têm um termo preciso para isto: sinalização. Ao afirmar que está preparada para reforçar a sua postura sem que exista um novo acordo formal de salvaguardas nucleares, a Força Aérea está, na prática, a dizer aos rivais que os antigos padrões previsíveis chegaram ao fim. Na fase final da Guerra Fria, a dissuasão assentava em limites claros e em acordos de controlo de armamento negociados com grande cuidado. Se o outro lado fizesse X, respondia-se com Y, e ambos conheciam o guião.

Hoje, esse guião é mais impreciso. O novo posicionamento dos bombardeiros e a «recarga» dos mísseis balísticos intercontinentais deslocam a dissuasão de um equilíbrio estático, enquadrado por tratados, para uma postura mais fluida e orientada pela prontidão. Como vários oficiais na reforma admitem em privado, o risco é que uma postura mais flexível também possa ser interpretada como mais instável.

O que significa «recarregar» os mísseis balísticos intercontinentais no terreno

Quando as chefias da Força Aérea falam em «recarregar» a força de mísseis balísticos intercontinentais, não se referem apenas a trocar as baterias de uma ogiva metafórica. Falam de períodos intensivos de manutenção, ligações de comando e controlo modernizadas e um ritmo de exercícios que retira as equipas da sua zona de conforto.

No Colorado, os militares responsáveis pelos mísseis descrevem ciclos de alerta mais longos e testes mais frequentes das linhas de comunicação entre os silos e os comandos regionais. Os engenheiros falam da substituição de componentes antiquados, ainda da época de Reagan, para que as ordens de lançamento circulem mais depressa e possam ser autenticadas com menos pontos vulneráveis.

Por trás do jargão, o objetivo é claro: fazer com que a componente terrestre da tríade nuclear funcione menos como uma peça de museu e mais como um sistema ativo e pronto a responder.

Veja-se um exercício recente que os oficiais gostam de mencionar sem o identificar. Durante um fim de semana prolongado, as equipas receberam a missão de simular uma passagem rápida da postura de tempo de paz para uma situação próxima da guerra, combinando missões de bombardeiros, verificações do estado dos mísseis e exercícios de ciberdefesa. Os pilotos conduziram B-52 em rotas semelhantes às das patrulhas nucleares da Guerra Fria, enquanto os militares dos mísseis treinavam decisões de lançamento em prazos mais curtos.

Não houve violação de tratados nem deslocação de ogivas. Ainda assim, o próprio ritmo transmitiu um sinal claro a qualquer analista estrangeiro que acompanhasse os trajetos por satélite e intercetasse comunicações. É assim que se apresenta hoje o «reforço da postura»: não com mais ogivas, mas com maior rapidez, mais flexibilidade e menos previsibilidade sobre como e com que velocidade os Estados Unidos poderão responder.

Esta lógica assenta num cálculo simples. Os estrategas norte-americanos receiam que potenciais adversários considerem as forças nucleares dos Estados Unidos lentas, sujeitas à política e limitadas por condicionantes internas. Ao adaptar os bombardeiros a missões duplas e ao aumentar as exigências de prontidão dos mísseis balísticos intercontinentais, a Força Aérea pretende que esses adversários reconsiderem as suas hipóteses.

Antes, a dissuasão significava «não comecem, ou todos perdem no fim». Agora, aproxima-se mais de «nem pensem em obter uma vitória rápida, porque a resposta será imediata e ajustada». É uma mudança subtil, mas, na estratégia nuclear, as mudanças subtis podem ter consequências duradouras.

Viver com uma postura nuclear mais agressiva

Na prática, a nova postura obriga as equipas a dedicar mais tempo ao treino de situações que antes encaravam como cenários de pesadelo. Os militares da Força Aérea executam sequências de lançamento que outrora esperavam encontrar apenas em diapositivos de formação. Os comandantes visitam esquadras de bombardeiros e unidades de mísseis com mensagens consistentes sobre «credibilidade» e «opções de resposta».

Uma medida pequena, mas reveladora, é a atenção renovada à manutenção dos B-52 num estado que permita configurá-los rapidamente para funções nucleares, e não apenas para bombardeamentos convencionais. Isso implica exercícios de carregamento diferentes, outros procedimentos de segurança e uma carga mental distinta para os envolvidos. Para quem vive perto de bases como Barksdale ou Minot, é difícil não reparar nos voos mais frequentes e na agitação dos exercícios.

É aqui que começa a surgir a inquietação pública. Todos conhecemos aquele momento em que percebemos que o mundo para lá do nosso fluxo de notícias está a mudar mais depressa do que pensávamos. Os vizinhos observam os rastos deixados pelos aviões e interrogam-se sobre o que mudou, mesmo que não consigam explicá-lo bem.

Os responsáveis políticos falam de «dissuasão alargada» e de «garantias aos aliados». Os habitantes locais veem mais patrulhas armadas à entrada das bases e ouvem rumores de destacamentos mais prolongados. Preocupam-se com acidentes, erros de cálculo e as consequências duradouras de uma escalada que comece com um exercício e termine num cenário muito mais sombrio.

Sejamos honestos: quase ninguém acompanha diariamente as atualizações da postura nuclear. Ainda assim, estas mudanças acabam por chegar às pessoas, de forma discreta, através do ruído dos motores e do silêncio das portas fechadas.

No Pentágono, alguns responsáveis apresentam esta posição mais dura como uma medida há muito necessária. Outros, muitas vezes os que se lembram das tensões explosivas da década de 1980, mostram-se mais cautelosos. Um comandante recentemente reformado disse-o sem rodeios:

«Passámos décadas a criar sistemas e hábitos que abrandavam a tomada de decisões nucleares. Agora, a pressão é para voltar a acelerar certas coisas, para parecermos mais ágeis, mais preparados. A pergunta que continuo a fazer é: onde está o pedal do travão neste carro novo?»

A Força Aérea, por seu lado, procura reduzir essa ansiedade a alguns pontos de comunicação:

  • B-52 de missão dupla: uma única plataforma, várias funções, concebidas para complicar o planeamento de qualquer adversário.
  • Mísseis balísticos intercontinentais «recarregados»: infraestruturas e treino atualizados que reduzem o tempo de resposta sem alterar o número de ogivas.
  • Exercícios visíveis: treinos públicos destinados a tranquilizar os aliados e a inquietar os rivais, sem ultrapassar os limites dos tratados.
  • Dissuasão flexível: uma passagem de confrontos rígidos, definidos por tratados, para um leque de respostas rápidas e calibradas.

Entre estes pontos e a realidade vivida existe uma distância que as pessoas comuns sentem mais do que conseguem explicar.

Quando a dissuasão começa a ser sentida de outra forma

Com esta nova postura, o que muda não é apenas o equipamento ou os planos de voo. Muda também a forma como a dissuasão é sentida por todos os intervenientes. Para os adversários que observam a partir de Moscovo, Pequim ou Pyongyang, os bombardeiros de dupla função e os mísseis balísticos intercontinentais «recarregados» tornam as forças dos Estados Unidos um instrumento mais flexível e mais opaco. Torna-se mais difícil adivinhar o que está sob as asas de um B-52 ou com que rapidez uma esquadra de mísseis poderá responder. Pretende-se que essa incerteza os mantenha cautelosos.

Para os aliados na Europa e na Ásia, uma posição norte-americana mais dura pode proporcionar um estranho conforto. Sugere que Washington continua disposto a empenhar meios militares, e não apenas palavras em comunicados. Mas também liga a segurança desses países ainda mais estreitamente a decisões tomadas em centros de comando distantes.

Para os restantes, longe dos campos de mísseis e das bases de bombardeiros, a mudança manifesta-se como uma tensão de fundo: alertas noticiosos sobre «atualizações da postura», títulos ocasionais sobre exercícios cujos nomes quase ninguém consegue pronunciar e a sensação de que a questão nuclear, afastada das preocupações durante uma geração, está a regressar à cena.

A dissuasão procurou outrora manter as armas nucleares tão encobertas por tratados e normas que estas quase desapareciam do pensamento quotidiano. Com as salvaguardas a enfraquecer e as posturas a endurecer, as armas voltam a parecer mais próximas, não em número, mas no lugar que ocupam nas nossas preocupações. A questão em aberto, por trás de cada bombardeiro a voar a baixa altitude e de cada atualização discreta no interior de um silo, é saber se esta nova visibilidade preservará a paz ou a colocará sob pressão.

Ponto principal Detalhe Valor para o leitor
B-52 novamente posicionados Bombardeiros preparados para missões convencionais e nucleares Ajuda a perceber por que razão os voos e exercícios estão mais visíveis
Mísseis balísticos intercontinentais «recarregados» Modernização e treino intensificado para acelerar os tempos de resposta Esclarece o que as chefias militares querem dizer com uma postura nuclear mais dura
Mudança na dissuasão Passagem de um equilíbrio rígido, baseado em tratados, para uma postura flexível e orientada pela prontidão Oferece uma perspetiva para compreender o aumento das tensões nucleares nas notícias

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

Perguntas frequentes

Os Estados Unidos estão a construir mais armas nucleares?

As mudanças atuais centram-se na prontidão, na flexibilidade e na modernização, não num aumento acentuado do número de ogivas.

O que significa, na prática, um B-52 de «missão dupla»?

Significa que um único bombardeiro pode ser rapidamente configurado para bombardeamentos convencionais ou funções nucleares, aumentando a ambiguidade para qualquer potencial adversário.

Estas mudanças de postura violam os tratados existentes?

Segundo os responsáveis norte-americanos, as medidas respeitam os atuais limites de controlo de armamento e centram-se nas operações e na modernização, em vez de posicionamentos que violem tratados.

Uma postura mais dura torna a guerra nuclear mais provável?

Os defensores argumentam que reforça a dissuasão ao colmatar «lacunas»; os críticos receiam que forças mais rápidas e flexíveis possam reduzir o tempo disponível para decidir numa crise.

Por que razão devem as pessoas comuns preocupar-se com isto agora?

Porque as mudanças na postura nuclear, mesmo quando parecem técnicas, influenciam discretamente os riscos, as alianças e as crises que definirão a estabilidade mundial na próxima década.

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