As barricadas mantêm-se esta quinta-feira em centenas de liceus franceses. Porém, em Créteil, nos arredores de Paris, onde o protesto estudantil teve início há quase três semanas, os portões encontram-se sem ninguém.
No liceu Antoine de Saint-Exupéry, a aparente tranquilidade explica-se pelo encerramento da escola, decidido depois de vários dias marcados por tensão e confrontos.
O edifício apresenta uma arquitetura moderna e o site da escola destaca, além de uma taxa de sucesso escolar de 93%, o recente investimento em fibra ótica e a disponibilidade de mais de 500 computadores.
"Por fora parece tudo muito limpo e bem construído, mas por dentro, quando chove, por exemplo, sofremos com infiltrações de água, há cadeiras e mesas partidas e as casas de banho em alguns edifícios que estão avariadas", contou à agência Lusa o estudante Sow Oman, de 16 anos.
Problemas no liceu Antoine de Saint-Exupéry
O estudante regressou hoje à escola na qualidade de delegado de turma, para participar nas sessões de "democracia" decretadas pelo ministro francês da Educação, Édouard Geffray, destinadas a ouvir as reivindicações dos alunos.
As queixas acumulam-se: desde a ausência de aquecimento no inverno até à falta de ar condicionado no verão, para amenizar o "calor insuportável" registado este ano.
O descontentamento com a escassez de investimento já vinha de trás, uma vez que a degradação do estabelecimento foi sendo herdada de gerações anteriores.
Protestos organizados no Snapchat
O fator que deu início aos protestos foi, contudo, a greve de professores realizada a 17 de setembro naquele liceu, motivada pela falta de recursos humanos. Entre as carências apontadas estavam professores de matemática e de francês, uma enfermeira, um psicólogo e assistentes de educação. "Não foram suficientemente ouvidos e percebemos que afetava o nosso futuro e as nossas condições de estudo".
Por isso, "no dia seguinte, criámos um grupo na [rede social] Snapchat, chegámos às 6.50 horas e colocámos grades e caixotes do lixo à frente do liceu", recordou.
A ação de bloqueio contou com a adesão dos professores e ganhou projeção nas redes sociais, incluindo no TikTok. Essa exposição levou à visita dos deputados Louis Boyard e Clémence Guetté, do Partido França Insubmissa, que aumentaram ainda mais a visibilidade do movimento.
Segundo Oman, os protestos já produziram alguns efeitos, entre os quais a colocação temporária de uma psicóloga e a nomeação de um vice-diretor. Ainda assim, persistem as más condições materiais. "O diretor começa a ceder porque, afinal, fizemos algo de grande: começámos aqui e [o movimento de protesto] espalhou-se por toda a França", acredita Oman.
Barricadas em centenas de liceus franceses
Cerca de três semanas após o primeiro bloqueio em Créteil, as barricadas estenderam-se a centenas de outros liceus, frequentados por jovens entre os 15 e os 18 anos, nos três últimos anos do ensino secundário.
De acordo com o Ministério da Educação Nacional, 224 escolas estão completamente encerradas. Ainda assim, 94% dos estabelecimentos estão hoje abertos, de forma total ou parcial.
Na terça-feira, centenas de milhares de pessoas saíram à rua: 266 mil em toda a França, segundo o Ministério do Interior, e 450 mil de acordo com os grupos estudantis que organizaram os protestos.
No Liceu Claude Monet, em Paris, as aulas estão suspensas há mais de uma semana. Esta manhã, a entrada continuava bloqueada por estudantes sentados sobre uma fila de caixotes do lixo.
No exterior, dezenas de adolescentes conversam e tiram fotografias enquanto esperam pelo momento de se juntarem, durante a tarde, a uma manifestação no centro de Paris.
Maximilien, um dos estudantes ativistas, de 17 anos, considera que a escola poderá manter-se fechada "pelo menos até dia 17 de outubro", data para a qual está marcada uma grande jornada de protestos convocada pelo movimento dos "coletes amarelos", que deverá mobilizar sindicatos e agricultores. "Nós estamos a fazer isto em solidariedade com os outros liceus mais carentes, porque nós temos sorte de o nosso ter boas condições", confessou à Lusa.






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