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Novas manifestações em homenagem a Maricarmen Abascal após despejo e morte em Madrid

Pessoas em vigília nocturna com velas e retrato, junto a tendas numa praça urbana ao anoitecer.
Neste artigo
  1. Homenagem a Maricarmen Abascal na Porta do Sol
  2. Há "muitíssima gente" como Maricarmen
  3. Acampamento pela Habitação cresce em Madrid

As associações espanholas que têm levado milhares de pessoas para as ruas devido à crise na Habitação convocaram, esta quinta-feira, novos protestos em homenagem a Maricarmen Abascal. A idosa morreu na quarta-feira, depois de o seu despejo ter dado origem à atual vaga de manifestações.

Maricarmen Abascal, de 87 anos, foi retirada da casa onde viveu durante mais de 70 anos em 23 de setembro. Morreu ao final da tarde de quarta-feira, num hospital de Madrid.

A confirmação da morte provocou uma nova vaga de revolta. Ainda na noite de quarta-feira, centenas de pessoas instaladas em acampamento desde 26 de setembro na praça Porta do Sol, no centro da capital espanhola, caminharam algumas centenas de metros até perto do Parlamento nacional. Na semana anterior, tinham sido rejeitadas naquele local medidas destinadas à Habitação.

Homenagem a Maricarmen Abascal na Porta do Sol

"Não são mortes, são assassinatos", gritaram os manifestantes durante a marcha até ao edifício do Parlamento. A frase "não é uma morte, é um assassinato" surge também, desde hoje, num dos cartões colocados num altar improvisado em homenagem a Maricarmen Abascal. O memorial foi montado na Porta do Sol, junto à sede do governo regional de Madrid e a uma das entradas do acampamento de protesto pela Habitação.

À volta de uma fotografia de Maricarmen Abascal, acompanhada pela mensagem "Não se despeja uma memória", foram sendo colocadas durante a manhã mais velas, flores e cartões. Entre as mensagens liam-se frases como "Obrigada pela coragem", "Maricarmen continua aqui" e uma citação da própria: "Lutai pelo que é vosso". "Vim deixar o meu grãozinho de areia de homenagem. Maricarmen é um símbolo desta revolução, de como tudo começou", afirmou à Lusa Aitana, estudante universitária de 26 anos, antes de deixar uma vela e outro cartão no altar.

Aitana está "acampada desde o segundo dia" na Porta do Sol e assegura que os protestos não vão terminar, acrescentando que "a morte de Maricarmen aumentou muito mais a indignação". "Até se ver uma mudança real não nos vamos mexer daqui", garantiu.

Há "muitíssima gente" como Maricarmen

Desde o início da manhã, a passagem pelo espaço de homenagem a Maricarmen Abascal, na praça da Porta do Sol, foi constante. Várias pessoas deslocaram-se ali de propósito, incluindo habitantes de localidades vizinhas fora da área de Madrid.

Foi o caso de Maripaz, de 67 anos, que disse à Lusa que a situação de Maricarmen "dá muita pena" e que "há muitas razões" para os protestos como o acampamento instalado há mais de duas semanas na Porta do Sol, maioritariamente dinamizado por jovens. "Tenho um filho em casa de 26 anos, que trabalha, mas não consegue arranjar uma casa própria com o salário que recebe", relatou à Lusa. Maripaz sublinhou ainda que existem em Espanha "muitíssima gente" na situação de Maricarmen: idosos expulsos das casas onde vivem por "fundos abutres", numa alusão aos fundos de investimento.

Acampamento pela Habitação cresce em Madrid

O maior protesto permanente pela Habitação em Espanha é o acampamento de centenas de tendas montado na praça Porta do Sol, no centro de Madrid. A estrutura tem aumentado de dimensão e já existem tendas a bloquear acessos ao metro, bem como fora da praça, nas ruas Arenal e Preciados.

As centenas de tendas distribuem-se por praças e ruas com designações como "rua Maricarmen" ou "praça das precárias". Há ainda tendas de grandes dimensões utilizadas para distribuir comida e outros bens ou para realizar assembleias. Nas vias ocupadas pelas tendas, foram igualmente instaladas placas para orientar turistas e restantes transeuntes que pretendam chegar ao metro ou atravessar o acampamento.

Por duas vezes, os tribunais recusaram considerar o acampamento ilegal ou inseguro e ordenar a retirada das pessoas da praça, como têm solicitado as autoridades regionais e municipais, lideradas pelo Partido Popular (PP, direita).

Em contrapartida, o Governo central, do Partido Socialista (PSOE), responsável pelas forças de segurança, tem salientado o caráter pacífico do acampamento e defendido que está em causa o respeito pelo direito de reunião.

O Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Madrid, associação que esteve na origem dos protestos, marcou para o final da tarde de hoje uma nova manifestação entre a Porta do Sol e a rua onde vivia Maricarmen Abascal.

Outras organizações têm igualmente convocado manifestações e concentrações para hoje e sexta-feira, em diferentes cidades espanholas. Prosseguem também acampamentos semelhantes ao de Madrid, embora de menor dimensão, em cidades como Santiago de Compostela, Barcelona e Sevilha.

Neste momento

João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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