Há mais de duas semanas que estudantes do Ensino Secundário se manifestam em França. Os protestos, que entretanto receberam o apoio de outros setores, são apontados como os maiores das últimas décadas, tornando inevitável a comparação com o Maio de 68. Saiba o que está a acontecer em França.
Como começou?
A primeira ação de protesto ocorreu no liceu Saint-Exupéry, na periferia de Paris, onde os alunos se juntaram aos professores para contestar a escassez de pessoal e de recursos no estabelecimento.
Depois de as exigências terem sido aceites e de terem sido destacados mais trabalhadores para a escola, a greve chegou ao fim. Ainda assim, o movimento depressa passou para outros estabelecimentos de ensino. Alunos de Paris e dos seus arredores começaram rapidamente a mobilizar-se, bloqueando numa primeira fase os acessos às escolas. Em poucos dias, os protestos estenderam-se a todo o território francês.
O que reivindicam os estudantes?
As manifestações começaram depois de o Governo ter apresentado o projeto de Orçamento para 2027 e desencadearam críticas às medidas de austeridade, justificadas pelo executivo com a elevada dívida do país. Os estudantes recusam os cortes nos serviços públicos e na educação. Apontam salas sobrelotadas e professores ausentes que não são substituídos, exigindo turmas menos numerosas e mais docentes. De acordo com a CNN Internacional, 70% das salas de aula das escolas públicas francesas têm mais de 30 alunos.
Os jovens pedem igualmente melhores instalações. Denunciam temperaturas excessivamente altas ou baixas, consoante a época do ano, infiltrações graves e edifícios escolares degradados. Estas condições deficientes são apontadas como uma das razões para o facto de o desempenho francês no Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, estar a cair mais depressa do que a média da organização desde 2015.
Quem se juntou?
À medida que os dias passaram e os protestos continuaram, vários setores da sociedade francesa aderiram às mobilizações ou declararam o seu apoio aos estudantes. Os professores foram os primeiros a juntar-se, tal como os pais dos alunos, que participaram não só por solidariedade, mas também para os proteger da intervenção policial. Os sindicatos, sobretudo os associados à educação, também aderiram às ações e anunciaram apoio.
Estudantes de várias universidades iniciaram os seus próprios protestos ou juntaram-se às manifestações de rua em solidariedade com os alunos do Ensino Secundário.
Os partidos da esquerda francesa divulgaram comunicados de apoio aos estudantes e comprometeram-se a apresentar diretamente as suas reivindicações ao Governo. Entre eles, destaca-se a França Insubmissa: o seu candidato presidencial, Jean-Luc Mélenchon, participou nos protestos e tem-nos apoiado e incentivado desde o início.
A CTG, a segunda maior central sindical francesa, também apoiou o apelo dos sindicatos estudantis para manter a vaga de protestos. Há ainda reformados, sobretudo antigos participantes no Maio de 68, que se associaram ao movimento e manifestaram solidariedade, defendendo a legitimidade das exigências e das ações dos jovens.
Houve queixas sobre a atuação policial?
Desde o começo das mobilizações, as autoridades francesas detiveram mais de seis mil pessoas, na sua maioria menores de idade, e registaram-se mais de 700 feridos.
Casos particularmente graves chamaram a atenção em França e no estrangeiro: um estudante perdeu o antebraço após a explosão de uma granada de dispersão lançada pela polícia; outro perdeu a visão de um olho depois de ser atingido por uma bala de LBD (Lançador de Balas de Defesa); e uma jovem foi agredida com um "mata-leão", uma técnica de imobilização proibida por lei.
Até agora, é conhecido um caso de um agente acusado de violência, após ter ferido gravemente um estudante no rosto com uma granada de gás lacrimogéneo disparada em trajetória direta. A Inspeção-Geral da Polícia Nacional francesa terá igualmente aberto investigações por suspeitas de violência e abusos policiais.
Porque é comparado com o Maio de 68?
Maio de 1968 ficou marcado por uma forte agitação estudantil. Num mundo em transformação, os estudantes contestavam o conservadorismo, a autoridade e a liderança de De Gaulle, mas também a falta de infraestruturas e de condições no ensino superior.
Naquele período, o presidente francês Charles de Gaulle classificou a contestação social com a expressão "chienlit". A formulação procurava transmitir a ideia de macacada ou confusão, embora a tradução literal da expressão usada pelo estadista francês seja "caga na cama".
Também em 1968 os estudantes provocaram confrontos e tensão social. Na altura, obtiveram o apoio de outros setores da sociedade, dando origem a um movimento que uniu estudantes e operários na maior greve geral da História francesa, mobilizando milhões de trabalhadores e paralisando o país.
Qual é a resposta do Governo francês?
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, admitiu a legitimidade das reivindicações estudantis, mas condenou os distúrbios provocados pelos protestos e os métodos usados. Defendeu ainda a atuação policial, esclarecendo, porém, que "não têm instruções para confrontar alunos".
Numa fase inicial, o Governo francês avançou com medidas destinadas a travar o descontentamento dos estudantes, mas sem resultados. A proposta previa repor a isenção de propinas nos cursos preparatórios de acesso às "Grandes Escolas", que formam altos quadros do Estado, e nos cursos técnico-profissionais. A oposição e os estudantes criticaram amplamente estas medidas, por considerarem que não respondem às causas dos protestos.
"A resposta do Governo tem sido irresponsável e confirma exatamente por que os estudantes estão revoltados: porque nunca são ouvidos", afirmou Manès Nadel, jovem ativista francês e figura importante do movimento estudantil. O ministro do Interior respondeu às acusações de violência policial, sustentando que a reação das autoridades aos protestos foi proporcional em "quase todos os casos".
Ontem, Macron reuniu de emergência no Eliseu com vários membros do Governo, numa tentativa de reduzir a tensão nas ruas. Entre as medidas apontadas estiveram a recuperação dos edifícios e a substituição de professores.
Também ontem, numa comunicação dirigida ao país, Lecornu prometeu responder simultaneamente às exigências dos estudantes e reduzir o preço dos combustíveis, depois de receber críticas pela lentidão e ineficácia da resposta governamental. O primeiro-ministro dirigiu-se igualmente aos agricultores, especialmente afetados por "uma acumulação de várias crises".
A razão para a mensagem abrangente de Lecornu poderá ser o receio, referido por vários comentadores e especialistas franceses, de que as lutas dos diferentes setores da sociedade francesa se unam, à semelhança do que aconteceu em 1968.






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