Alta tecnologia contra uma nova praga: investigadores, apicultores e autoridades estão a reforçar os meios digitais para controlar uma espécie de vespa introduzida.
Em muitas zonas da Europa, uma vespa invasora está a alastrar rapidamente e a ameaçar colónias inteiras de abelhas. As armadilhas convencionais e os binóculos deixaram há muito de ser suficientes. Entram agora em ação armadilhas apoiadas por IA, miniemissores e métodos de localização inteligentes para detetar os ninhos e eliminá-los de forma seletiva - uma corrida contra o tempo que também envolve a segurança alimentar.
Porque esta vespa é tão perigosa para as abelhas
A vespa asiática é considerada uma caçadora particularmente eficaz. Um único indivíduo consegue capturar numerosas abelhas à entrada de uma colmeia num curto espaço de tempo. Grupos inteiros patrulham as entradas até que uma colónia de abelhas acaba literalmente por colapsar, pois as obreiras deixam de se atrever a sair.
É precisamente este cenário que os apicultores já observam em muitas regiões. Num departamento francês, por exemplo, o número de ninhos comunicados passou de poucas dezenas para várias centenas em apenas dois anos. Em paralelo, estima-se que cerca de 20 por cento das abelhas-melíferas da zona, em 2024, tenham sido afetadas por esta vespa.
O problema vai muito além da produção de mel. As abelhas polinizam árvores de fruto, culturas hortícolas e flores silvestres. Quando as suas populações diminuem, todo o equilíbrio ecológico fica comprometido - com impactos nos rendimentos das colheitas, na biodiversidade e, em última instância, nos preços no supermercado.
A chave no combate à vespa asiática: encontrar o ninho
O verdadeiro ponto fraco da vespa é o ninho. Enquanto permanecer ativo, continua a produzir novas obreiras e, mais tarde, rainhas jovens, que se dispersam no outono e fundam novas colónias no ano seguinte. Por isso, os especialistas identificam uma tarefa central:
“Quem quer travar esta vespa tem de localizar os seus ninhos - cedo, depressa e da forma mais completa possível.”
Na prática, é mais difícil do que parece. Os ninhos encontram-se frequentemente no alto das árvores, em sebes densas ou em partes de edifícios de acesso complicado. Podem atingir vários metros de perímetro, mas permanecem escondidos durante muito tempo entre a vegetação.
Porque os métodos tradicionais têm limitações
Inicialmente, apicultores e municípios recorreram a soluções relativamente simples:
- Binóculos térmicos: destinam-se a tornar visíveis os ninhos quentes nas copas das árvores, mas são caros e nem sempre fiáveis à distância.
- Iscos e observação: as vespas são atraídas com líquidos açucarados. Depois, os apicultores tentam estimar a localização do ninho através da direção de voo e do tempo que demoram a regressar.
Ambas as abordagens exigem muito tempo e recursos humanos. Em áreas com centenas de ninhos por época, é praticamente impossível aplicá-las de forma abrangente. É neste ponto que surge uma nova geração de ferramentas tecnológicas.
Armadilhas com IA identificam automaticamente a vespa asiática
Vários projetos desenvolvem armadilhas inteligentes equipadas com câmara e IA. A proposta é simples: em vez de cada captura ser verificada a olho nu, um programa deve identificar automaticamente se se trata da vespa invasora.
Na prática, o processo decorre aproximadamente assim:
- Uma armadilha com atrativo doce atrai diferentes insetos.
- Uma pequena câmara regista cada animal que entra ou voa para a armadilha.
- Uma IA analisa a forma, a coloração e o tamanho, classificando o inseto por espécie.
- Só é enviada uma notificação para o apicultor ou para as autoridades quando a vespa asiática é identificada sem ambiguidades.
Assim, é possível reduzir consideravelmente o esforço, pois muitas armadilhas estão instaladas longe e, de outro modo, apenas poderiam ser verificadas ocasionalmente. Ao mesmo tempo, aumenta a precisão: a IA é treinada com dezenas de milhares de imagens de referência e reconhece com fiabilidade características típicas, como a cor de base mais escura e a faixa amarela característica.
O que a IA faz concretamente neste contexto
Neste caso, a IA desempenha várias funções:
- Identificação de espécies em tempo real com base em imagens, diretamente no terreno ou através de uma ligação à nuvem.
- Análise de dados de muitas armadilhas e regiões, para revelar zonas críticas e rotas de expansão.
- Priorização das equipas no terreno, que se deslocam especificamente aos locais onde a probabilidade de existir um ninho é mais elevada.
Quanto maior for o número de armadilhas em funcionamento, mais facilmente se podem acompanhar os movimentos de dispersão das vespas. A partir desses dados, são criados mapas que permitem aos municípios assinalar zonas de risco e planear medidas de prevenção.
Miniemissores em vespas: localizar o ninho com GPS
Talvez o elemento mais impressionante deste novo arsenal seja uma tecnologia de localização minúscula, colocada diretamente em vespas individuais. O princípio faz lembrar a investigação sobre animais selvagens, mas à escala miniatura.
Nos projetos-piloto, o procedimento é aproximadamente o seguinte:
- Uma armadilha captura vespas vivas.
- Os animais são anestesiados brevemente com CO₂, para poderem ser manuseados com o mínimo de stress.
- É colado um pequeno emissor no dorso das vespas anestesiadas.
- Depois de acordarem, regressam ao ninho, sendo seguidas por sinais de rádio ou GPS.
O emissor transmite apenas durante algumas horas, mas esse período é geralmente suficiente para localizar o ninho nas proximidades. Com um recetor portátil ou uma antena especial, é possível seguir a trajetória de voo até o sinal se tornar mais intenso. Nessa altura, uma equipa intervém para remover o ninho de forma profissional.
“Com cada ninho localizado, as equipas retiram de circulação uma colónia inteira de vespas - e não apenas um único inseto.”
Vantagens e limites da tecnologia de emissores
O método é eficaz, mas está longe de ser simples. Apresenta vários desafios:
- Custos elevados: os emissores são fabricados especificamente, são resistentes e leves, mas também caros.
- Autonomia limitada: as baterias duram apenas algumas horas, deixando uma janela curta para a localização.
- Perda do emissor: nem sempre é possível recuperar o equipamento após a operação.
- Necessidade de pessoal especializado: a anestesia com CO₂ e a remoção de ninhos devem ficar a cargo de profissionais com formação.
Ainda assim, muitos especialistas consideram que a combinação entre identificação assistida por IA e localização por emissor representa um avanço decisivo. Transforma uma busca morosa numa operação direcionada.
O papel da população: as comunicações são valiosas
A tecnologia, por si só, não resolve o problema. Em vários países já existem portais de comunicação e aplicações através dos quais os cidadãos podem fotografar e comunicar ninhos suspeitos. Uma entidade especializada verifica as imagens e define as prioridades de intervenção.
Em Portugal, começam a delinear-se abordagens semelhantes. Municípios e associações de conservação da natureza apelam à comunicação de ninhos invulgarmente grandes - sobretudo em copas de árvores ou em pontos altos de edifícios - em vez de serem removidos pelos próprios cidadãos. Uma intervenção inadequada pode ser perigosa e também fazer com que o ninho seja destruído apenas parcialmente, levando a colónia a deslocar-se.
Porque o combate indiscriminado causa mais danos do que benefícios
Perante o desespero, muitas pessoas recorrem a inseticidas potentes ou instalam armadilhas improvisadas. Isso tem consequências negativas por várias razões:
- Os venenos de ação ampla afetam igualmente espécies nativas de vespas e vespões que são ecologicamente úteis.
- A longo prazo, os resíduos acabam nos solos e nas massas de água.
- As armadilhas não seletivas capturam muitos insetos inofensivos, desde abelhas selvagens a sirfídeos.
Os especialistas alertam: quem simplesmente “atira para todo o lado” destrói precisamente a diversidade de insetos que é necessário proteger. Por esse motivo, medidas orientadas, baseadas em dados e tecnologia, são consideradas a via mais sensata.
Riscos, questões em aberto e perspetivas
As soluções de alta tecnologia também levantam questões. O que acontece aos emissores deixados no ecossistema? Como evitar que dados pessoais de deslocação sejam associados aos sinais de rádio? E como assegurar que os modelos de IA não confundem espécies nativas com a vespa invasora?
Os especialistas defendem normas claras:
- Os emissores devem desativar-se após pouco tempo ou degradar-se biologicamente.
- Os dados têm de ficar estritamente limitados à identificação da espécie e à localização dos ninhos.
- Os modelos de IA necessitam de dados de treino abertos e verificáveis, para evitar classificações erradas.
Em paralelo, decorrem projetos de investigação sobre métodos complementares: desde drones com câmaras térmicas que sobrevoam zonas florestais até atrativos que atuam seletivamente apenas sobre a vespa invasora. Estão também em discussão programas de criação de abelhas-melíferas especialmente robustas, bem como colmeias adaptadas nas quais as abelhas conseguem defender-se melhor dos ataques.
Para os apicultores em Portugal, isto significa que terão de lidar não só com os ácaros varroa, fenómenos meteorológicos extremos cada vez mais variáveis e produtos fitofarmacêuticos, mas também, cada vez mais, com esta vespa. Por isso, a formação, os sistemas regionais de alerta precoce e a cooperação com instituições de investigação tornar-se-ão mais importantes.
Uma coisa é certa: o combate à vespa invasora não será uma corrida curta, mas uma maratona. A IA, os miniemissores e os sistemas digitais de comunicação aumentam as hipóteses de abelhas, insetos selvagens e agricultura poderem coexistir no futuro - com o mínimo possível de veneno e o máximo de precisão.






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário