Saltar para o conteúdo

Anna Politkovskaya previu a Rússia de Vladimir Putin antes de ser assassinada

Mulher sénior a trabalhar num portátil numa cozinha, com chá, jornais e vista para edifício com muralha.
Neste artigo
  1. Os avisos de Anna Politkovskaya sobre a Rússia de Putin
  2. "Nada a poderia fazer desviar-se"
  3. A tenacidade da repórter da "Novaya Gazeta"
  4. Ícone

Anna Politkovskaya foi morta à entrada da sua residência, em 2006, mas já tinha «previsto» o rumo da Rússia sob Vladimir Putin, revelou o seu editor à AFP na véspera do 20.º aniversário da sua morte.

A jornalista fez reportagens sem receio sobre a guerra na Tchetchénia e a ascensão de Putin, denunciando as suas inclinações autoritárias numa fase em que era recebido e cortejado pelo Ocidente. Foi baleada no elevador do prédio onde vivia, no centro de Moscovo, a 7 de outubro de 2006 - data do 54.º aniversário de Putin. O assassinato viria a representar um ponto de viragem para o jornalismo russo.

Os avisos de Anna Politkovskaya sobre a Rússia de Putin

Vinte anos mais tarde, Putin mantém-se no poder, a guerra lançada por Moscovo contra a Ucrânia - que já provocou centenas de milhares de mortos - entrou no quinto ano, e a repressão no país alcançou níveis sem precedentes desde o período soviético. «Tudo o que está a acontecer na Rússia foi previsto por Anna Politkovskaya nos livros que publicou antes da morte», declarou Sergei Sokolov, editor da célebre repórter no jornal "Novaya Gazeta", para o qual trabalhava e que Moscovo classificou como «agente estrangeiro».

«Na altura, ninguém acreditou nela e diziam que estava a exagerar os perigos e os receios», disse Sokolov. Quando o Ocidente recebia Putin no começo dos anos 2000 - um dirigente autoritário acolhido com prudência depois do caos da década anterior -, Politkovskaya avisava que os jornalistas russos teriam de mostrar «servilismo total a Putin» ou arriscar a morte ou a prisão. Para ela, a Rússia estava a «cair de novo num abismo soviético».

Os executantes do assassínio cumprem pena de prisão, mas nunca foram identificados quem mandou matar a jornalista. Questionado sobre o caso em 2021, Putin declarou que os seus serviços «fizeram tudo para desvendar estes crimes».

"Nada a poderia fazer desviar-se"

Após a sua morte, Politkovskaya tornou-se uma figura ainda mais simbólica para os jornalistas russos. Inspirou uma geração de repórteres de investigação que nunca chegou a conhecer e que, atualmente, é obrigada a exercer a profissão no exílio. Com a Rússia em guerra na Ucrânia, as suas reportagens feitas dos dois lados da linha da frente durante os conflitos na Tchetchénia ganharam uma nova relevância.

A jornalista investigou crimes de guerra praticados quer pelo exército russo quer pelos rebeldes tchetchenos, pressionando ambos os lados a retirar os civis das zonas de perigo. Em 2002, entrou num teatro de Moscovo ocupado por rebeldes tchetchenos, numa tentativa de assegurar a libertação dos reféns. «Os terroristas tinham-me escolhido como a pessoa com quem queriam falar, não podia recusar», explicou mais tarde. Ainda assim, mais de 130 reféns morreriam depois de as forças especiais terem lançado gás no teatro e invadido o edifício.

A tenacidade da repórter da "Novaya Gazeta"

«O que mais se destacava nela era a sua tenacidade - nada a fazia desviar-se do tema ou da ideia que tinha», recordou Sokolov, que foi seu editor. Porém, essa escola de jornalismo está agora destruída. Anos de pressão exercida pelo Kremlin culminaram em níveis de censura não vistos desde a União Soviética. Sokolov não tem dúvidas de que, se Politkovskaya ainda estivesse viva, «não conseguiria, de forma alguma, ficar calada».

Nos últimos anos de vida, Politkovskaya tornou-se uma crítica implacável de Ramzan Kadyrov, então preparado para assumir a liderança da Tchetchénia. Chamou-lhe «pequeno dragão» e acusou-o de dispor de carta branca para governar com brutalidade a região devastada pela guerra, em troca da sua lealdade ao Kremlin. Kadyrov, por seu lado, afirmou que Anna era «inimiga do povo tchetcheno», prometendo que «responderia» pelas críticas que ela lhe fazia.

Ícone

Embora o seu nome tenha sido quase apagado da narrativa oficial russa, Politkovskaya continua a ser um ícone para os jornalistas independentes do país e um lembrete permanente dos riscos associados à profissão.

«É preciso um exemplo. Se não houvesse exemplos de jornalistas corajosos e se todos mantivessem a cabeça baixa, então a situação seria ainda pior para o jornalismo russo», afirmou Yegor Feoktistov, repórter exilado de 28 anos. «O destino dela lembra-nos sempre do que pode acontecer - mas também nos dá coragem.»

Olga Churakova, outra jornalista de investigação obrigada a trabalhar fora da Rússia, disse estar «surpreendida com o fluxo de pessoas que querem tornar-se jornalistas» no país, apesar dos perigos.

Muitos apontam Politkovskaya como fonte de inspiração.

«As pessoas continuam a vir e a dizer: 'Alguém tem de fazer este trabalho' »

Últimos artigos

João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário