Christa Pike, condenada à morte em 1996, tornou-se notícia em todo o mundo por ser a primeira pessoa a sobreviver a duas injeções letais. A mulher, que aguardou 30 anos pela execução devido ao homicídio que cometeu aos 18 anos, teve uma vida marcada pela sobrevivência, após uma infância e adolescência atravessadas por abusos, negligência e doença mental. Esta é a narrativa usada pelos ativistas que defendem a comutação da pena para prisão perpétua.
A mais jovem mulher a receber uma sentença de morte na era moderna, Christa Pike seria também, caso fosse executada, a primeira mulher no estado desde 1819. Contudo, o processo não decorreu como previsto. Há uma semana, sobreviveu a duas injeções letais e, depois de ter estado em coma e ligada a um ventilador, a mulher de 50 anos está agora consciente e consegue falar. Apesar de o prognóstico continuar incerto, os advogados salientaram que "a recuperação é, do ponto de vista médico, sem precedentes".
A tentativa de execução falhada trouxe novo fôlego aos ativistas que defendem a retirada de Pike do corredor da morte. A defesa tem centrado o caso numa infância marcada por abandono, abuso sexual e múltiplas violações. Pike nasceu com danos cerebrais orgânicos e uma malformação cerebral provocada pelo consumo de álcool da mãe durante a gravidez. Os indícios da síndrome alcoólica fetal manifestaram-se desde muito cedo, incluindo convulsões ainda em bebé.
Abusada repetidamente
Ao longo da infância, foi espancada e abusada de forma recorrente pelo pai e por vários companheiros da mãe. De acordo com o Cornell Center on the Death Penalty Worldwide, o companheiro da avó abusou sexualmente de Pike desde os dois anos. Já na escola, um desenho feito pela criança alertou os professores, mas as autoridades não a afastaram daquele contexto. Aos 11 anos, foi violada por um vizinho. A mãe não acreditou inicialmente no relato, mas uma professora tomou conhecimento do caso depois de a rapariga contrair uma infeção, levando ao processo do agressor.
A violência, porém, manteve-se nas casas da mãe e do pai, entre as quais Pike foi transferida repetidamente, crescendo num cenário de abandono e negligência parental.
Aos 12 anos, tentou cometer suicídio pela primeira vez. Foi-lhe diagnosticada depressão, mas nunca teve acesso ao tratamento apropriado.
Mais tarde, aos 17 anos, Pike foi intercetada na rua por um desconhecido que a atirou ao chão e a violou. O homem nunca chegou a ser detido.
A defesa sustenta que Pike entrou na adolescência sem o apoio clínico adequado para lidar com o trauma dos abusos sofridos. Avaliações feitas posteriormente concluíram que tinha transtorno de stress pós-traumático e transtorno bipolar, além de outros problemas psicológicos que, segundo os advogados, não foram devidamente expostos durante o julgamento.
Vítima de violência doméstica pelo cúmplice do crime
Na tentativa de recomeçar a vida, inscreveu-se no Job Corps, em Knoxville, um programa de formação profissional, esperando tornar-se enfermeira. Foi nesse local que conheceu Tadaryl Shipp, com quem iniciou uma relação marcada por episódios de violência doméstica.
Nascido em 1977, Shipp cresceu com uma mãe solteira e abandonou a escola no nono ano. Inscreveu-se no curso de artes culinárias do Job Corps, onde conheceu Pike e com quem se terá envolvido em satanismo.
Foi igualmente com Shipp que Pike praticou o crime que a levaria ao corredor da morte. Nos dias anteriores ao homicídio, a jovem passou a acreditar que Colleen Slemmer, também aluna do Job Corps, estaria interessada em Shipp e tentaria "roubá-lo", um rumor mais tarde negado por pessoas próximas da vítima. A 12 de janeiro de 1995, Pike, Shipp e outra adolescente, Shadolla Peterson, atraíram Slemmer para uma zona isolada em Knoxville, onde a agrediram e assassinaram. Pike confessou o crime e, aos 18 anos, foi condenada à pena de morte. Shipp, que tinha 17 anos, recebeu uma pena de prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional. Atualmente, cumpre a pena no Complexo Correcional do Noroeste, em Tiptonville. Peterson, então com 18 anos, foi colocada em liberdade condicional sem cumprir pena.
Segundo a defesa, o júri nunca soube da doença mental, lesão cerebral e histórico de abuso de Pike, apesar de toda essa informação estar disponível na altura do julgamento. A mulher, que sempre assumiu a responsabilidade pelo crime, não pede a absolvição. O seu pedido é a comutação da sentença para prisão perpétua.
O que correu mal e o que se segue?
A 30 de setembro deste ano, Pike recebeu duas injeções de pentobarbital, um sedativo potente que abranda o funcionamento do organismo, incluindo o sistema nervoso. Durante a tentativa de execução, os funcionários prisionais tentaram colocar cateteres intravenosos usando pelo menos sete agulhas. Ainda assim, "era possível ouvi-la a chorar, a gemer e a respirar ruidosamente".
Em janeiro, a equipa jurídica de Pike já tinha apresentado uma ação a contestar o protocolo da injeção letal. No processo, argumentou que Pike tinha uma perturbação de coagulação sanguínea chamada trombocitose e "veias pequenas que dificultavam a inserção da agulha".
Para Joel Zivot, anestesiologista que aconselha a equipa de defesa de Pike, as injeções letais teriam sido suficientes para matar a reclusa caso a substância tivesse entrado normalmente na corrente sanguínea. O especialista, citado pela BBC, considera que a única explicação possível para a sobrevivência é que "o nível de pentobarbital no sangue nunca ter sido suficientemente alto para causar a morte". Além disso, as bolhas surgidas no braço de Pike depois da execução falhada apontavam para uma veia rompida. Desta forma, em vez de chegar à corrente sanguínea, o pentobarbital ter-se-á espalhado pelo tecido sob a pele. "É muito possível que, como consequência da demora no início da reanimação, sofra uma lesão cerebral", acrescentou.
Embora os Estados Unidos tenham um longo historial de execuções falhadas, acredita-se que Pike seja a única pessoa a sobreviver após receber uma injeção letal.
Apesar de a Oitava Emenda à Constituição proibir punições cruéis e incomuns, não há um mecanismo jurídico automático que impeça uma segunda tentativa de execução apenas porque a primeira falhou. Os reclusos que sobrevivem à pena de morte continuam condenados por crimes graves, sentenciados à pena capital e sob custódia do Estado, mantendo-se inalteradas as circunstâncias, mesmo quando ocorreu uma falha técnica. Ainda assim, caso opte por avançar, o estado do Tennessee terá de voltar aos tribunais para obter e agendar uma nova data de execução.
As autoridades também não indicaram se voltarão a tentar executar Pike. No entanto, existe um precedente histórico para uma segunda tentativa quando a primeira não é bem-sucedida. Um caso recente é o do recluso do Alabama, Kenneth Eugene Smith, cuja execução prevista para novembro de 2022 não avançou porque os executores não conseguiram localizar uma veia para inserir o acesso intravenoso necessário. O recluso acabou executado por asfixia de azoto em 2024.






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