Israel realiza eleições dentro de menos de três semanas, numa corrida equilibrada que põe em causa a permanência do Governo de Netanyahu. Trata-se do primeiro sufrágio desde os ataques do Hamas de 7 de Outubro de 2023, ocorridos precisamente há três anos, nos quais morreram cerca de 1200 civis e militares em Israel. Em Gaza, a ocupação israelita continua sem perspetiva de término, apesar da pressão internacional provocada pela guerra, que já matou 74 mil pessoas no enclave.
Avisos antes dos ataques perseguem Netanyahu
Nas legislativas agendadas para dia 27, o tema central ligado ao 7 de Outubro é a forma como Netanyahu, do Likud, reagiu às informações recebidas antes dos ataques. Os jornais israelita Haaretz e norte-americano Wall Street Journal noticiaram que o primeiro-ministro de Israel fora avisado, dias antes, pelos Emirados Árabes Unidos e pelo Egito sobre a possibilidade de um ataque planeado pelo Hamas.
O atual líder do Governo rejeitou ter recebido esses alertas e procurou atribuir responsabilidades a outros responsáveis, entre os quais o então diretor da agência de segurança interna, Ronen Brar, um adversário político. As acusações têm sido exploradas pelos dois principais rivais na campanha eleitoral. Naftali Bennett, antigo primeiro-ministro e dirigente do partido Juntos, declarou que Netanyahu "não pode continuar a exercer o cargo por mais um minuto sequer". Já Gadi Eisenkot, antigo chefe do Estado-Maior e líder do Yashar, considera o político conservador "inapto".
De acordo com o balanço do Haaretz sobre as mais recentes sondagens dos Canais 11, 12 e 13, a coligação liderada por Eisenkot deverá alcançar 53 lugares no Knesset, o Parlamento israelita, que tem 120 assentos. O bloco encabeçado por Netanyahu deverá obter 51 mandatos. Os 16 lugares restantes pertencem a partidos que não se alinham com nenhum dos dois campos.
"Quer seja esta ou aquela pessoa a chegar ao poder, ou este ou aquele partido - o nosso povo sofreu às mãos de todos os partidos israelitas", disse, por sua vez, o líder do Hamas, Khalil al-Hayya, à emissora catari Al-Araby. "Recusamo-nos terminantemente a permitir que o sangue, o sofrimento e a causa do povo palestiniano sirvam de combustível para as eleições israelitas. O que nos importa é que o nosso povo atinja os seus objetivos, aspirações e direitos legítimos", acrescentou.
Para Sandra Fernandes, pró-reitora para a cooperação internacional da Universidade do Minho, os resultados eleitorais são "sempre uma oportunidade de modificação do rumo tomado", mas "aquilo que Israel tem vindo a fazer desde os ataques de 7 de Outubro não tem propriamente um fim à vista". Na sua perspetiva, o cenário manter-se-á semelhante "mesmo com a saída do poder de Netanyahu, que ainda não está confirmada" e que poderá nem sequer acontecer.
A perceção internacional sobre Israel, defende o especialista em ciência política Graeme Wood num texto para a revista norte-americana The Atlantic, já não influencia as eleições como no passado. Segundo o autor, "Israel tornou-se o seu próprio fornecedor de armamento - na verdade, um exportador de armas - e é muito mais rico do que era há apenas 20 anos".
Futuro de Gaza e Palestina permanece incerto
Também o destino da Faixa de Gaza permanece indefinido. O enclave, sujeito a bombardeamentos aéreos desde 7 de Outubro de 2023 e a uma invasão terrestre desde o fim desse mês, tem milhões de habitantes concentrados em apenas 40% do território situado a oeste da Linha Amarela. Telavive pretende reduzir essa área para 30% do enclave.
Nessa parcela de território palestiniano, onde os palestinianos estão autorizados a viver e a sobreviver, a destruição domina a paisagem: há escombros que escondem corpos e edifícios reduzidos a ruínas. "Fomos obrigados a viver aqui porque não tínhamos para onde ir. Todas as nossas casas foram destruídas, as nossas terras foram arrasadas e não nos restou nada" contou à agência France-Presse (AFP) Heba Arafat, de 47 anos, residente num prédio danificado com apartamentos na Cidade de Gaza.
Na véspera do terceiro aniversário do 7 de Outubro, o ministro da Defesa israelita, Israel Katz, avisou que, caso as forças israelitas sejam atingidas, "aqueles que pagarão o preço elevado serão o Hamas e a população de Gaza - de forma desproporcional". É o mesmo governante que defende uma saída "voluntária" dos habitantes deste território palestiniano, por considerar que seria a "única solução".
Apesar de vários países reconhecerem a Palestina, a possibilidade de "constituir um Estado da Palestina está completamente inviabilizada", salienta Sandra Fernandes. "Claramente, o objetivo do atual Governo israelita é um controlo desse território e, a prazo, uma anexação desse território [Gaza]. Portanto, não há aqui a solução dos dois Estados, é uma quimera que não tem qualquer forma de ser praticada no estado atual do conflito israelo-palestiniano", sublinha.
Como sintetizou a analista política palestiniana Inès Abdel Razek à AFP: "A solução de dois Estados tornou-se um refrão diplomático para evitar encarar a realidade".






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