Saltar para o conteúdo

São Pedro da Afurada celebra tradição, pescadores e fado em Gaia

Procissão tradicional com músicos e estátua religiosa numa rua de calçada portuguesa durante o dia.
Neste artigo
  1. Ver tudo à porta de casa
  2. Procissão sem igual
  3. Malhoa, Diapasão, fado e samba

"O São Pedro é baile, os nossos fados, homenagear os pescadores e celebrar a nossa terra". A frase sintetiza na perfeição a celebração mais marcante da Afurada, em Gaia, que decorre de terça-feira até 6 de julho. Os preparativos têm avançado devagar, mas com o rigor de quem conhece de cor as tarefas que há para cumprir.

Quem passa pela freguesia de Gaia percebe que a romaria domina as conversas dos moradores. Nas próximas duas semanas, são esperados milhares de visitantes. Chegam as sardinhas, começam a surgir os enfeites nas ruas e os carrosséis ganham forma. São elementos obrigatórios em todas as edições, num esforço permanente para preservar a tradição.

Ver tudo à porta de casa

A família Campota acompanhava os trabalhos a partir do melhor sítio possível: mesmo à porta de casa, ao sol, junto a uma mesa com chouriço, pão e cerveja.

"Somos uma comunidade muito unida e muito forte. Por isso, é importante que não percamos a nossa essência, porque é isso que nos caracteriza", afirmou Graça Campota, com os olhos a brilhar. Apesar da desilusão causada pela ideia de que "a festa já não tem o mesmo apoio financeiro que tinha" e pela presença de ritmos novos, diferentes dos habituais, no programa musical, a família assegurou que fará a sua parte para tornar a Afurada mais bonita.

Quando o JN esteve na Afurada, Manuel, de 77 anos, ainda observava os preparativos, mas já tinha o plano definido. "Mais uns dias e vou enfeitar a minha varanda", garantiu o morador, nascido e criado na freguesia. Com o início da festa, explicou, as varandas das ruas estreitas ficarão cheias de decorações feitas pelos próprios habitantes. Para reconhecer o contributo dos pescadores para a comunidade, a ornamentação será composta quase exclusivamente por referências à pesca e ao mar, como "lemes, redes ou boias". Também haverá espaço para a rivalidade saudável entre clubes de futebol. " O meu pai é do Benfica e o nosso vizinho é do Porto. Embora a nossa varanda esteja mais bonita, prefiro a cor utilizada pelo vizinho, porque é azul", brincou Graça, filha de Manuel Campota.

Mais adiante, na rua onde os carrosséis estavam a ser instalados e que será uma das principais artérias da festa, Ricardo Oliveira encontrava-se junto ao grelhador. Natural da Afurada, vê com satisfação a evolução da freguesia, que considera estar "mais aberta aos forasteiros", algo que também trouxe benefícios às festividades.

"O São Pedro é o apogeu do nosso ano. A tradição ainda se mantém, apesar de algumas pessoas terem saído da Afurada devido à valorização das casas", começou por dizer Ricardo. O funcionário da Taberna de São Pedro, de 42 anos, realçou os costumes que resistem ao tempo e distinguem esta festa das restantes. "Se passar por aqui, vê as portas abertas, o que já não é usual, e as pessoas convidam-no a entrar. Com sorte, ainda se senta, come e bebe", contou ao JN.

Procissão sem igual

O São Pedro da Afurada assume igualmente uma forte dimensão religiosa. "A nossa procissão não tem igual. Temos andores muito bem enfeitados, sempre com gente da terra a carregar. Pais, filhos, netos e sobrinhos, é uma tradição que vai passando de geração em geração", destacou Ricardo, antes de deixar o convite: "Visitem a Afurada, que a Afurada é linda".

A poucos dias daquela que é a maior festa "que Gaia tem, à exceção do São João", Eduardo Matos, presidente da Junta de Freguesia local, mostrou-se satisfeito com a forma como decorreram os preparativos. "Eu nasci e cresci aqui e, para nós, afuradenses, estas festas são algo de único. Diria mesmo que está no sangue das nossas gentes", afirmou o autarca, apontando o "fogo de artifício e a procissão" como os momentos mais altos do programa.

Embora reconheça o valor imaterial do São Pedro para a comunidade, o presidente da Junta salienta que a festa deixou de ter o mesmo peso na economia local. Para Eduardo Matos, isso demonstra a evolução da freguesia. "O São Pedro da Afurada continua a ter uma importância brutal. No entanto, felizmente, hoje é apenas mais uma das atividades da nossa freguesia e não a única atividade. Embora seja muito importante e sejam duas semanas de muito trabalho, a Afurada já tem muita procura, principalmente pela nossa restauração".

Malhoa, Diapasão, fado e samba

Música para todos os gostos, atividades e preocupação ambiental são os três pilares das festas de São Pedro da Afurada, em Gaia, que decorrem entre 23 de junho e 6 de julho. As celebrações começam na terça-feira, impulsionadas pela comemoração do São João.

Sob o lema "Afurada, simples na origem, gigante na tradição", o programa reúne, ao longo de duas semanas, música popular, folclore, fado, marchas, procissão e fogo de artifício. O palco começa a receber iniciativas às 15 horas de dia 26, com o hastear das bandeiras. À noite, o DJ Picota será o primeiro artista a atuar na edição de 2026, abrindo caminho a nomes emblemáticos como José Malhoa, a 29 de junho, às 22 horas, Sandra Correia, no dia 30, às 21 horas, Némanus, a 2 de julho, às 22 horas, ritmos brasileiros, com samba e música sertaneja, no dia 4, e Diapasão, no dia 5, às 22 horas.

A vertente religiosa terá igualmente grande destaque. A 29 de junho, haverá uma missa solene em honra do santo padroeiro, às 18.30 horas, mas o principal dia religioso será 5 de julho. Para além da missa de festa, marcada para as 10 horas, realiza-se a majestosa procissão a partir das 16 horas. Já a 6 de julho, à meia-noite, acontece a tradicional saudação dos pescadores a São Pedro.

Neste momento

João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário