Portugal e os desafios da longevidade
Portugal figura entre os países europeus em que a vida após os 65 anos é mais longa. Dados do Eurostat indicam que, ao atingir essa idade, a esperança de vida ronda os 20,3 anos, um valor ligeiramente superior à média da União Europeia. Do outro lado do mundo, o Japão mantém-se no topo dos indicadores de longevidade: segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), os japoneses que chegam aos 65 anos podem ter mais de 24 anos de vida pela frente.
“Portugal tem registado ganhos muito relevantes em esperança média de vida, fruto da evolução da medicina, do acesso aos cuidados de saúde e das condições de vida. No entanto, esse aumento nem sempre se traduz em mais anos vividos com saúde e autonomia”, lembra Ricardo Raminhos, administrador da seguradora MGEN em Portugal. O responsável salienta a importância de “transformar a longevidade numa preocupação do agora” para as pessoas na casa dos 30 e dos 40 anos. “É essencial reposicionar a longevidade como uma oportunidade, e não como um problema. Isso passa por valorizar o conceito de vida longa com qualidade, promover exemplos positivos de envelhecimento ativo e integrar o tema desde cedo junto dos jovens, e não apenas nas fases finais da vida.”
Na Suécia, Noruega e Dinamarca, a esperança de vida supera os 82 anos. No caso sueco, chega aos 84 anos, acompanhada por níveis elevados de tempo vivido com saúde, em torno dos 67 anos, de acordo com o Eurostat. Nos Estados Unidos, os valores são menos elevados, mas a denominada “economia da longevidade”, um conceito destacado pelo World Economic Forum, está a converter a longevidade em novas possibilidades de mercado, assentes na inovação e no prolongamento dos anos de vida saudável.
A mudança está em marcha
Mais de 22% dos habitantes da União Europeia têm 65 ou mais anos e a esperança média de vida alcançou os 81,4 anos em 2023, segundo o Eurostat. Em simultâneo, as previsões antecipam um envelhecimento ainda mais pronunciado até 2050: quase 30% dos europeus estarão nessa faixa etária, ao passo que a população em idade ativa deverá diminuir de forma contínua.
“Este é um desafio que vai muito além do sector da Saúde. A longevidade levanta questões a nível do financiamento, da organização do trabalho, da disponibilidade de profissionais e da forma como a sociedade se adapta a uma população que vive mais anos,” afirma Rui Diniz, presidente da Comissão Executiva da CUF. Acrescenta que o acompanhamento da saúde será tendencialmente mais permanente, individualizado e apoiado por tecnologia, sem que isso substitua o seguimento clínico e humano. “Vamos ter cada vez mais monitorização à distância, maior integração de dados clínicos e uma intervenção mais precoce. Mas continuará a ser essencial a relação de proximidade entre profissionais de saúde e doentes.”
Ricardo Raminhos identifica como tendências internacionais a passagem para uma medicina mais preventiva e personalizada, a integração crescente de tecnologia e inteligência de dados, bem como o desenvolvimento de modelos colaborativos que assegurem “uma articulação mais eficaz” entre Estado, organizações e cidadãos. Estas mudanças já estão a reformular a maneira como a saúde e a longevidade são perspetivadas. “Estamos a falar de uma mudança de paradigma: passar de um modelo reativo, centrado na doença, para um modelo proativo, centrado na vida, e isso exige uma responsabilidade partilhada.”
A nova estratégia governamental para a longevidade, que incorpora e reforça os princípios do envelhecimento ativo e saudável, procura aproximar Portugal desta transformação. Entre os exemplos estão as respostas de proximidade destinadas a combater o isolamento e a favorecer a autonomia. “É preciso uma abordagem mais centrada na pessoa e nas várias fases da sua vida”, acrescenta Rui Diniz, defendendo também uma participação mais ativa de cada pessoa, com atenção precoce e contínua à própria saúde. “É essa mudança de foco que permite transformar a longevidade num ganho efetivo de qualidade de vida.”
Respostas para uma sociedade da longevidade
Também fora da esfera tradicional da saúde se verificam alterações importantes na Europa. Ao longo dos últimos dois anos, consolidou-se uma nova agenda política europeia dedicada à chamada “sociedade da longevidade”. Estudos recentes da rede colaborativa Population Europe defendem políticas integradas, incluindo cidades adaptadas ao envelhecimento, habitação acessível, mobilidade inclusiva, combate ao idadismo - preconceito em relação à idade - e promoção da autonomia durante toda a vida. Se viver mais anos passou a ser a norma, torna-se necessário redesenhar as sociedades.
Combate ao idadismo
Foi ao iniciar o projeto “Velhas Bonitonas”, há dez anos, que Maria Seruya percebeu a dimensão do trabalho necessário no combate ao idadismo. “Percebi que o envelhecimento da mulher era muito estigmatizado. Mais do que a velhice, trabalho a forma como encaramos o envelhecimento.” As pinturas da ativista e artista motivacional despertaram o interesse de senhoras com 90 e 85 anos, mas também deram origem a pedidos de mulheres de 40 anos e de “uma miúda de 19 anos”. “É um sinal de que as pessoas querem preparar a sua identidade. Não trato saúde, mas a minha promessa é sermos o que somos em qualquer idade.”
Maria Seruya considera que a sociedade está a evoluir para uma maior valorização da idade, até porque “não teremos outra opção”. “Vamos ter de lidar com isso mesmo a nível empresarial e social. Vamos ter empregos diferentes (e ainda mais com a inteligência artificial), vamos ter de nos redefinir. Quem continua com estigmas terá de os deixar, porque todos vamos chegar lá. Será muito interessante. Se calhar, haverá mais empatia. O futuro é a intergeracionalidade”, afiança.
A discussão atual já não se limita a encontrar formas de viver mais tempo, mas abrange a sustentabilidade de sociedades em que essa longevidade é inevitável. Num contexto em que atingir os 100 anos poderá tornar-se habitual, o envelhecimento deixará de ser encarado como uma etapa derradeira para passar a representar uma fase ativa, na qual cada pessoa assume o papel central na preparação do futuro.






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