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Made in Europe: Europa muda as regras da indústria automóvel

Carro elétrico azul moderno numa exposição com bandeiras da União Europeia e estações de carregamento.
Neste artigo
  1. Indústria sob pressão
  2. Europa menos dependente
  3. Realidade portuguesa
  4. E agora?
  5. Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana

A Europa prepara-se para alterar as regras da indústria automóvel através da estratégia Made in Europe, que exigirá aos automóveis fabricados na União Europeia uma percentagem mínima de materiais e componentes de origem local.

Em termos práticos, a medida pretende reduzir a dependência face ao exterior, pelo menos essa é a ambição de Bruxelas. No entanto, poderá também resultar em veículos mais dispendiosos e numa indústria ainda menos competitiva.

Para clarificar o que está verdadeiramente em causa, o Auto Rádio - programa áudio da Razão Automóvel, apoiado pelo PiscaPisca.pt - recebeu José Couto, presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel. Ora vejam:

Indústria sob pressão

Enquanto a Comissão Europeia define uma nova orientação industrial para o automóvel, deflagrou um conflito entre os EUA, Israel e o Irão, colocando sob ameaça uma das rotas mais importantes para a economia mundial: o Estreito de Ormuz.

Por esta passagem circula uma fatia muito relevante das matérias-primas indispensáveis à indústria, incluindo não só petróleo e gás, mas igualmente componentes e recursos críticos.

A situação evidencia uma realidade há muito conhecida: a indústria automóvel europeia depende fortemente de cadeias de abastecimento globais.

E a questão não se limita aos materiais necessários para fabricar baterias, um domínio liderado pela China, responsável por mais de 70% da produção mundial de baterias para veículos elétricos. Estão também em causa semicondutores, processadores e outros componentes eletrónicos, cuja produção se encontra muito concentrada na Ásia.

Europa menos dependente

Foi justamente para atenuar esta dependência externa que a Comissão Europeia apresentou a estratégia Made in Europe, enquadrada no Industrial Accelerator Act. A iniciativa define que os novos automóveis produzidos na Europa devem incorporar uma proporção mínima de materiais e componentes de origem europeia.

A meta passa por elevar o peso da produção industrial para 20% do PIB da União Europeia até 2035, bastante acima dos atuais 14%, e criar cerca de 150 mil novos empregos.

No setor automóvel, estas normas incidem sobretudo sobre veículos elétricos, híbridos recarregáveis e a hidrogénio, com célula de combustível, adquiridos através de concursos públicos ou programas de incentivo. Para serem classificados como europeus, estes veículos terão de respeitar vários critérios.

O primeiro é direto: o veículo deve ser montado nos Estados-Membros da União Europeia, sendo que o Reino Unido e o Japão também foram incluídos. Caso este requisito não seja cumprido, o automóvel não terá acesso a compras públicas nem a determinados incentivos.

O segundo critério fixa uma percentagem mínima de 70% de peças produzidas na União Europeia. A conta é feita com base no valor das peças à saída da fábrica. A bateria do veículo fica fora deste cálculo, por estar sujeita a requisitos próprios.

Realidade portuguesa

Portugal, que em 2025 se posicionou como o nono maior produtor europeu de automóveis, não é indiferente a esta realidade. O país dispõe de uma indústria de componentes que abastece a produção automóvel em diversas geografias: 98% dos automóveis fabricados na Europa integram, pelo menos, um componente produzido em Portugal.

Por si só, o setor dos componentes equivale a cerca de 5,2% do PIB português e gera, todos os anos, aproximadamente 14,7 mil milhões de euros. Foram estes os números apresentados por José Couto, presidente da AFIA, no Auto Rádio, onde houve ainda oportunidade para falar de outro setor determinante no tecido industrial nacional: os moldes para injeção de plástico.

Neste segmento, Portugal ocupa uma posição relevante à escala mundial, sendo o terceiro maior produtor da Europa e o oitavo a nível global.

Segundo a CEFAMOL - Associação Nacional da Indústria de Moldes, o setor faturou 788 milhões de euros em 2024, com 80% da produção dirigida à exportação.

E agora?

A indústria automóvel europeia atravessa uma fase determinante. Entre conflitos internacionais com impacto em cadeias de abastecimento essenciais, uma dependência externa acentuada e novas regras internas, o futuro da indústria no «velho continente» está a decidir-se neste momento.

A discussão deixou de ser apenas industrial ou tecnológica. É uma questão estratégica e fundamental, até porque está em causa um dos setores mais vitais para a economia europeia, responsável por 13 milhões de empregos, muitos deles em Portugal.

Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana

Razões não faltam, por isso, para assistir ou ouvir o mais recente episódio do Auto Rádio, que regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.

Neste momento

João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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