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SIRESP: Portugal prepara substituição por redes 5G mais robustas

Bombeiro aponta para torre de comunicação junto a carro a combater incêndio, com mapa e tablet no capot.
Neste artigo
  1. 36 milhões de euros no primeiro ano
  2. “Não há sistemas infalíveis”
  3. Reforços já para a época de incêndios
  4. Hipótese de enterrar cabos descartada

Com base no relatório entregue em fevereiro pelo grupo de trabalho encarregado do Estudo Técnico Estratégico para a Substituição do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), o Governo prepara o arranque da substituição do atual sistema estatal de comunicações de emergência e segurança. A solução em vigor, suportada na tecnologia TETRA, deverá dar lugar a alternativas de banda larga móvel. A ambição passa por criar um modelo interoperável com redes 5G “mais robustas”, capaz de assegurar comunicações, em Portugal e além-fronteiras, com entidades homólogas de outros países europeus.

O novo sistema “irá permitir serviços que hoje não existem, como a transmissão de vídeo, o envio de grandes volumes de dados e outras aplicações avançadas de apoio às operações de segurança e de proteção civil”, explica ao Expresso António Pombeiro, coordenador da equipa que elaborou o relatório, apresentado esta terça-feira pelo Ministro da Administração Interna.

Contudo, a mudança não acontecerá de forma imediata. A transição para o novo modelo deverá demorar cerca de 10 anos até estar plenamente concluída e representa um investimento global que rondará 800 milhões de euros, exclusivamente na vertente tecnológica, abrangendo hardware, software, arquitetura e infraestruturas. “A transição será gradual, alinhada com um cronograma europeu”, salienta o coordenador do estudo, já que “Portugal não pode avançar isoladamente na substituição do atual sistema TETRA por soluções assentes em 5G, porque uma das exigências centrais do futuro modelo é a interoperabilidade europeia”.

A coexistência, durante uma década, entre o sistema atual e as novas soluções de banda larga móvel explica-se também pela necessidade de “não se poder causar instabilidade no sistema com alterações estruturais durante os períodos mais críticos, como o dois incêndios e o inverno”.

O calendário que está a ser definido na União Europeia prevê uma transição até meados da década de 2030. Neste intervalo, Portugal deverá funcionar com uma solução híbrida: o SIRESP manter-se-á ativo enquanto as novas tecnologias forem sendo incorporadas progressivamente. “Não pode haver uma quebra de serviço. A transição tem de ser feita sem sobressaltos”, afirma.

36 milhões de euros no primeiro ano

O investimento inicial conta com cerca de 36 milhões de euros: “30 milhões do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) que têm de ser investidos até 31 de agosto próximo, a que acrescem seis milhões, atribuídos por resolução do Conselho de Ministros, que têm de ser investidos até 31 de dezembro de 2026”, avança Pombeiro, que é também secretário-geral adjunto da Secretaria-Geral da Administração Interna. Este montante deverá ficar “operacionalizado até final de 2027” e será aplicado sobretudo no aumento da resiliência da rede, uma fragilidade evidenciada em crises recentes, como a tempestade “Kristin”.

“A autonomia energética das estações, a robustez da transmissão e a redundância dos sistemas centrais” constituem os três eixos do reforço de resiliência previsto para 2026. Até ao fim do próximo ano, o Executivo pretende igualmente ampliar de forma substancial as capacidades móveis de comunicações, para que as forças de segurança, a proteção civil e a emergência médica conservem capacidade operacional, mesmo perante cenários extremos.

O valor total do investimento será determinado pelo modelo de governação que vier a ser adotado. Estão em análise três cenários: um assente na propriedade estatal de toda a infraestrutura; outro híbrido, com partilha parcial de infraestruturas com operadores privados; e um terceiro em que a operação ficaria maioritariamente entregue ao setor privado. Este último “não reúne consenso entre os parceiros europeus e é visto com reservas quando se trata de comunicações críticas”, observa Pombeiro.

“Não há sistemas infalíveis”

Ao contrário da ideia que se instalou no debate público, o novo SIRESP não garante a eliminação de todas as falhas. “Não há sistemas infalíveis. O novo modelo não elimina o risco de falhas associadas a catástrofes extremas, como queda de torres devido a ventos violentos ou sismos. O que traz são mais serviços e mais ferramentas”, sublinha o responsável técnico. O ponto decisivo, acrescenta, está “na resiliência, isto é, na capacidade de recuperar o sistema no mais curto espaço de tempo”.

Durante a tempestade “Kristin”, em 28 de janeiro, caíram oito torres: duas pertencentes ao SIRESP e seis de operadores comerciais onde se encontravam instaladas antenas da rede. A destruição das infraestruturas de transmissão prejudicou as comunicações públicas, mas “o serviço do SIRESP foi restabelecido em cerca de quatro dias, enquanto em algumas zonas as redes móveis comerciais demoraram meses a recuperar”, relata.

“Ao contrário das redes comerciais, este sistema está concebido para funcionar em modos degradados. Mesmo quando uma estação fica isolada do sistema central, os rádios continuam a comunicar entre si dentro da área de cobertura”, explica Pombeiro. Ainda assim, a perda da ligação ao centro nacional limita a coordenação estratégica, uma condicionante que o novo modelo procura atenuar. “A aposta não é apenas em infraestruturas mais resistentes, mas na capacidade de repor o serviço em horas e não em dias”, sintetiza.

A futura solução permitirá também funcionalidades ausentes do atual modelo, nomeadamente transmissão de vídeo em tempo real e partilha de elevados volumes de dados, reforçando o apoio à decisão e a coordenação entre forças de segurança e proteção civil.

Reforços já para a época de incêndios

Algumas intervenções deverão produzir efeitos logo na próxima época de incêndios. Entre elas conta-se o aumento da capacidade das estações base, através do reforço da autonomia energética: em 2026, passará de seis para 24 horas, devendo mais tarde alcançar 36 horas. O relatório contempla ainda a entrada em funcionamento de quatro novas estações base móveis, módulos móveis de ligação por satélite, torres de campanha transportáveis e mais geradores.

Estas medidas procuram responder a duas críticas frequentes ao sistema: a demora na reposição do serviço e o congestionamento de chamadas em teatros de operações com grande concentração de meios. “Vamos reduzir significativamente os problemas de congestionamento de chamadas”, garante Pombeiro.

O coordenador do estudo admite que o SIRESP continuará a ser intensamente escrutinado pela opinião pública, mas considera que muitas críticas ignoram a complexidade do sistema e o esforço dos seus profissionais. “O que muitas vezes falha não são as pessoas, é o sistema em condições extremas”, salienta, defendendo que a finalidade do novo modelo é permitir que o país “se ponha de pé” mais rapidamente após acontecimentos extremos.

Hipótese de enterrar cabos descartada

Foi rejeitada a possibilidade de trocar os cabos aéreos por cabos enterrados. “Estamos a falar de cerca de 20 mil quilómetros de circuitos, muitos deles em zonas remotas e de difícil acesso. Enterrar esses circuitos teria custos incomportáveis e, em muitos casos, seria tecnicamente inviável”, justifica.

Como alternativa, a rede aposta em várias camadas de redundância. O sistema reúne circuitos terrestres, incluindo fibra ótica, ligações rádio ponto-a-ponto e redundância via satélite, assegurando percursos alternativos quando a infraestrutura física falha. A continuidade do serviço é reforçada por uma maior autonomia energética, com baterias reforçadas e grupos eletrogéneos, bem como por uma arquitetura georredundante dos centros de comutação, que mantém a rede operacional mesmo se um dos centros falhar.

O sistema inclui ainda estações móveis de comunicações, que podem ser instaladas rapidamente no terreno, e privilegia a diversificação das rotas de transmissão, diminuindo a dependência de um único trajeto físico.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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