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Como as marcas chinesas conquistam o mundo com navios Ro-Ro

Carro elétrico branco moderno estacionado em showroom com grandes janelas e estação de carregamento.
Neste artigo
  1. BYD, a pioneira da frota própria
  2. SAIC vai ainda mais longe
  3. A corrida aos navios Ro-Ro
  4. Uma estratégia planeada e executada com precisão

Durante anos, o debate centrou-se na tecnologia, nas unidades fabris, nas gigafábricas de baterias e - a uma cadência nem sempre fácil de seguir - na sucessão de novas marcas vindas da China. Porém, muitos não repararam na forma como os fabricantes chineses preparavam a fase seguinte: levar milhões de automóveis até ao resto do mundo.

Com grande discrição, as marcas chinesas foram durante anos preparando aquilo que agora se materializa: uma ofensiva inédita no mercado automóvel global. Ter fábricas avançadas ou automóveis económicos não seria suficiente. Era igualmente necessário dominar o transporte marítimo, sem depender de armadores japoneses, sul-coreanos ou europeus.

Sem controlo adequado sobre a logística, todos estes planos poderiam afundar-se. É disso que trata este artigo: da frota de navios Ro-Ro disponível para as marcas chinesas. Todos têm uma única finalidade: exportar, exportar, exportar.

BYD, a pioneira da frota própria

A BYD abre esta lista com o Explorer No. 1, que deu início às exportações em 2024 e pode transportar sete mil veículos. A partir daí, a sequência não parou: Hefei, Changzhou, Shenzhen, Xi’an, Changsha e, em julho de 2025, o Zhengzhou.

Construídos em estaleiros chineses, todos estes navios estão preparados para utilizar GNL (Gás Natural Liquefeito). Esta característica assume uma importância crescente, devido à contabilização das emissões de CO₂ (dióxido de carbono) ao longo de toda a cadeia logística.

No total, a BYD dispõe já de sete navios em operação para todos os mercados internacionais, com uma exceção: os EUA. A marca prevê ainda colocar em serviço, em breve, uma oitava embarcação, o Jinan.

SAIC vai ainda mais longe

Se a BYD impressiona, a SAIC eleva a fasquia. Através da Anji Logistics, o grupo que em Portugal é sobretudo associado à MG, opera uma frota de 35 navios. Esta inclui onze embarcações fluviais, nove navios de cabotagem e quinze vocacionados para exportação.

Quanto aos próximos passos, a SAIC anunciou já a intenção de expandir a sua frota oceânica para 22 unidades em 2026, abrangendo rotas para a Europa Ocidental, o Mediterrâneo, a América do Sul e o Médio Oriente.

A corrida aos navios Ro-Ro

Embora este artigo se concentre nos construtores chineses, o maior produtor mundial de navios não está na China. Esse lugar continua a pertencer à Coreia do Sul, em particular à Hyundai, outro gigante automóvel - foi o terceiro maior grupo automóvel mundial em vendas em 2024 - e também um dos maiores produtores de aço do planeta.

Mas há outros intervenientes, de dimensão inferior, nesta corrida. A Geely, proprietária da Volvo, Lynk & Co e Zeekr, também avançou: em maio de 2025, estreou o JISU Fortune, explorado pela sua subsidiária de logística.

Numa escala menor, mas com igual relevância, surge a Leapmotor. Em agosto de 2025, em conjunto com a Stellantis, lançou o Grande Tianjin, fretado ao grupo Grimaldi. Não se trata de uma frota própria, mas assegura uma via exclusiva e fiável para levar os automóveis aos mercados internacionais.

Em simultâneo, a Chery juntou-se à JAC e a operadores portuários para criar uma empresa conjunta dedicada ao transporte automóvel. Nesta disputa pelos mares, ninguém quer deixar passar a maré - não resisti ao trocadilho.

Uma estratégia planeada e executada com precisão

Para perceber a dimensão do fenómeno, basta olhar para alguns números. Em 2020, por exemplo, a produção anual da BYD ficava abaixo das 500 mil unidades. Em 2024, ultrapassou as 4,2 milhões de unidades.

Em apenas quatro anos, isto representou um aumento de 900%. Não se resume a planeamento e estratégia: revela capacidade de decisão e de execução. Foram construídas fábricas, contratados trabalhadores, feitos investimentos em tecnologia e a logística também não foi esquecida.

Todas estas iniciativas partilham a mesma convicção: o êxito da indústria automóvel chinesa não podia assentar apenas na produção em massa ou em baterias mais baratas. A Europa está agora a testemunhar o efeito dessa estratégia.

Se o Japão conquistou o mundo nos anos 70 com automóveis pequenos e económicos, e a Coreia repetiu a receita nos anos 90, a China acrescentou uma nova peça: logística própria. Uma flotilha concebida há vários anos, que hoje está a espalhar automóveis chineses pelo mundo.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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