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Cândido Mota morreu aos 82 anos

Homem idoso a falar num microfone num estúdio de rádio com equipamento de som e jornal à frente.
Neste artigo
  1. Cândido Mota e uma carreira marcante na rádio
  2. Da rádio à televisão com Herman José
  3. Militância cívica e despedida de Cândido Mota
  4. Seguro diz que “voz inconfundível” ficará na “memória coletiva”

Cândido Mota, uma das vozes mais reconhecíveis da rádio e da televisão portuguesas, morreu durante a madrugada, aos 82 anos. Encontrava-se internado há mais de duas semanas no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. De acordo com uma fonte da família, o velório decorre na segunda-feira, a partir das 16h, na casa mortuária da Igreja de São João de Deus, enquanto a cremação terá lugar no dia seguinte, em Lisboa.

Locutor, apresentador televisivo e ator, Cândido Mota deixou um percurso ímpar, indissociável da transformação da rádio moderna em Portugal.

Nascido em Espinho a 28 de setembro de 1943, tornou-se uma das vozes mais marcantes da rádio portuguesa. O seu timbre grave e uma presença simultaneamente discreta e decisiva fizeram dele uma figura relevante na história da comunicação no país.

Cândido Mota e uma carreira marcante na rádio

Filho da fadista Maria Albertina, cresceu num meio profundamente ligado à música e às palavras. Numa entrevista concedida em 2022 ao programa de Manuel Luís Goucha, reconheceu que foi a mãe quem o encaminhou para a vida profissional.

Aos 17 anos, começou a trabalhar no Rádio Clube Português e depressa se afirmou como um locutor de talento singular. Mais tarde, consolidou esse reconhecimento na Rádio Comercial, através de programas como “Em Órbita”, “Dançatlântico” e, sobretudo, “O Passageiro da Noite”, considerado um marco da rádio portuguesa, salienta a Lusa.

Transmitido desde 1979, “O Passageiro da Noite” dava voz aos ouvintes a partir da meia-noite, permitindo-lhes falar sobre os temas que quisessem. Foi uma das primeiras experiências de interação direta na rádio portuguesa.

Décadas depois, Cândido Mota admitiria que “foi a única vez” em que não esteve bem, referindo-se ao desgaste emocional que conduziu ao fim do programa e assumindo a responsabilidade pelo sucedido.

Enquanto figura histórica do meio radiofónico, foi convidado para dar o seu testemunho no programa da RTP “No Ar, História da Rádio em Portugal”, emitido em 2010. Nessa participação, falou sobre o seu trajeto e sobre a rádio enquanto lugar de intimidade, escuta e participação cívica.

Da rádio à televisão com Herman José

Cândido Mota destacou-se também pelos inúmeros trabalhos de locução em televisão e pela apresentação de “Em Órbita”. Ao longo de várias décadas, colaborou com nomes maiores da televisão, entre os quais Herman José.

Foi a célebre voz-off de concursos conduzidos pelo humorista na RTP, como “A Roda da Sorte” e “Com a Verdade Me Enganas”. Posteriormente, acompanhou Herman José em diversos formatos da SIC e participou ocasionalmente em esquetes televisivas.

A partir dos anos 1990, passou igualmente a ser um rosto e uma voz familiares da televisão portuguesa, ao iniciar uma colaboração prolongada com Herman José.

Militância cívica e despedida de Cândido Mota

Assumindo o seu empenhamento cívico, Cândido Mota foi militante do Partido Comunista Português (PCP). Foi também presença habitual, como locutor e apresentador, no Palco 25 de Abril da Festa do Avante!, mantendo uma posição política ao longo da sua vida pública.

Num comunicado, o PCP expressou “profundo pesar pelo falecimento de Cândido Mota, militante comunista, e transmite às suas filhas, netas e restante família as suas sentidas condolências”. O partido considerou-o “uma das figuras mais emblemáticas da comunicação” e um “cidadão profundamente empenhado na intervenção social e cultural”.

Nos anos mais recentes, Cândido Mota afastou-se gradualmente da exposição mediática e vivia na Casa do Artista, em Lisboa.

Seguro diz que “voz inconfundível” ficará na “memória coletiva”

O Presidente da República, António José Seguro, lamentou a morte do antigo locutor, defendendo que a sua voz permanecerá na memória coletiva dos portugueses.

Numa nota divulgada no sítio da Presidência da República, o chefe de Estado deixou as “mais sentidas condolências à família, amigos e a todos os que com ele partilharam vida e caminho”.

“ Ao longo da sua vida, Cândido Mota foi redescobrindo a sua profissão de locutor, apresentador e ator, reinventando caminhos para si próprio, com entusiasmo e sentido de propósito”, refere.

“ A sua voz inconfundível acompanhou-nos durante muitos anos e permanecerá na nossa memória coletiva”, acrescenta.

Seguro sublinha ainda que Cândido Mota, em todas as fases da sua carreira, “combinou, de forma singular, uma genuína preocupação pelo outro com o humor, deixando uma marca de proximidade e humanismo em todos aqueles com quem trabalhou e conviveu, destacando-se pela forma como, no ‘Passageiro da Noite’, dava voz a quem não a tinha”.

Notícia atualizada às 17h20, com informação sobre o velório.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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