Num país onde os filhos chegam cada vez mais tarde, avolumam-se as preocupações com "a indústria associada à infância e as famílias em perigo", além das consequências sociais. Um demógrafo e membro da Associação Portuguesa de Demografia esclarece os motivos desta realidade. Os conflitos recentes e a crise também não ajudam.
Em 2024, quase oito em cada dez mulheres (79,9%) tornaram-se mães entre os 25 e os 39 anos. A idade média da mãe no nascimento tem subido de forma acentuada: situa-se nos 30,3 anos no caso do primeiro filho e nos 31,7 anos considerando o nascimento de qualquer filho, não necessariamente o primeiro.
Relações que demoram mais a estabilizar, a prioridade dada à carreira e as dificuldades no acesso à habitação estão a empurrar as gravidezes para idades mais tardias, altura em que a biologia pode ser um obstáculo. Esta é a análise de Paulo Machado, demógrafo e membro da Associação Portuguesa de Demografia, partilhada no Dia da Mãe, assinalado neste domingo, 3 de maio.
Em 2024, houve quase dois partos por dia de mães acima dos 45 anos. São resultados que o surpreendem?
Não são números surpreendentes, por vários motivos. Antes de mais, no total da fecundidade em Portugal, têm um peso residual: falamos de 600 crianças num universo de cerca de 85 mil. Ainda assim, apesar de pouco expressivo, este valor permite uma leitura demográfica. O calendário da procriação alargou-se, algo interessante de analisar numa altura em que se considera cada vez mais que ter filhos é uma questão associada aos mais jovens e não aos mais velhos.
O que justifica este aumento?
Alguma literatura aponta estes nascimentos como um triunfo das estratégias de fertilização: mulheres que, por diferentes razões de saúde, não conseguiram ter filhos mais cedo e que acabaram por consegui-lo numa fase posterior. É possível que algumas nunca tivessem sido mães sem esta capacidade tecnológica disponível em idades mais avançadas, no âmbito de programas de fertilidade.
Mas este crescimento acompanha o aumento da idade das mães ao primeiro filho, que já está acima dos 30 anos.
Do ponto de vista social, é um enorme problema. O adiamento da idade no nascimento do primeiro filho é, muitas vezes, um sinal de que não haverá mais filhos. Quem tem filhos mais cedo tem maior probabilidade de ter outro. Depois, verifica-se uma redução do número de nascimentos e o envelhecimento da população, com efeitos muito relevantes na organização social: menos crianças nas escolas, menos professores, a indústria associada à infância e as famílias em perigo. Os modelos familiares também se alteram, porque se educa um filho único em vez de mais do que um filho.
Que razões explicam este aumento da idade para a maternidade?
A prioridade dada à procriação é fortemente afetada por outras questões, como a vida profissional. A habitação também pesa muito, tal como projetos de vida que não incluem filhos nessa fase, numa geração mais individualista e hedonista, que pretende primeiro consolidar vários parâmetros. Quando se pergunta a mulheres jovens, sobretudo estudantes universitárias e com ensino superior, qual a sequência de acontecimentos que antecipam para as suas vidas, a maternidade surge em quarto ou quinto lugar.
O que aparece antes?
Em primeiro lugar, surge o emprego e, depois, viajar. Outra questão muito importante está ligada ao modelo de relação conjugal, que atualmente inclui uma fase de teste, inexistente no passado e claramente mais longa. É necessário dar garantias de estabilidade, concordância quanto ao modelo de família e uma série de outros aspetos.
De que maneira contextos como a guerra e crise podem afetar esta realidade?
É previsível que estes fatores também já estejam a influenciar a decisão, levando ao adiamento da maternidade. Perturbações de grande escala e dimensão macroscópica interferem nas escolhas individuais. Na década de 80 do século passado, por exemplo, existia um fator decisivo: foram anos de grande tensão entre os blocos [americano e soviético]. Em Portugal, o efeito não foi tão evidente nos números - registavam-se 100 mil bebés por ano, com pequenas oscilações -, mas, à escala europeia, foi notório. As pessoas tinham medo e voltaram a tê-lo.






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