A retórica no confronto entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão intensificou-se, com Washington e Teerão a contestarem os êxitos reivindicados pela parte adversária. A disputa de declarações agravou-se esta segunda-feira, com o arranque do Projeto Liberdade, através do qual o Presidente dos EUA, Donald Trump, procura alterar a situação e permitir a passagem de navios.
Quase dois meses depois de ter começado a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, os mísseis continuam a ser lançados na região do Golfo. Embora a diplomacia não esteja inteiramente bloqueada, não tem conseguido aproximar as partes, enquanto a Europa espera novos indícios de um distanciamento por parte do Presidente americano.
Negociações marcam passo
Decorridas três semanas sobre o fracasso das conversações em Islamabade, capital do Paquistão, que desempenhou o papel de mediador - e nas quais os EUA estiveram representados ao mais alto nível pelo vice-presidente, J.D. Vance -, as vias diplomáticas mantêm-se abertas.
Washington e Teerão continuam a sugerir que existe um plano de paz em discussão, embora sejam escassos os sinais de avanços concretos rumo a uma solução negociada para o conflito.
No domingo, os meios de comunicação estatais iranianos avançaram que o Irão recebeu uma resposta dos EUA à proposta mais recente apresentada por Teerão. Estará em discussão um plano de paz de 14 pontos, centrado no fim da guerra num prazo de 30 dias, em vez de uma trégua, que tem sido a prioridade dos EUA.
Entre as condições impostas por Teerão contam-se a retirada das forças dos EUA das zonas próximas das fronteiras iranianas, o levantamento do bloqueio naval aos portos do Irão e o fim de todas as hostilidades, incluindo a ofensiva de Israel no Líbano.
Aumenta o risco no Estreito de Ormuz
O Comando Central dos EUA - responsável por uma área que abrange o Médio Oriente - anunciou o começo do “Projeto Liberdade”, nome atribuído por Trump. A iniciativa pretende permitir à Marinha dos EUA apoiar navios com bandeira americana e outras embarcações comerciais na travessia do Estreito de Ormuz, enquanto Washington conserva o bloqueio aos portos iranianos. Os militares norte-americanos darão orientações para evitar campos de minas e poderão intervir caso ocorra um ataque iraniano.
Neste contexto, dois contratorpedeiros dos EUA entraram no Golfo Pérsico, permitindo a passagem pelo Estreito de Ormuz de dois navios igualmente americanos. Em sentido contrário, a Guarda Revolucionária do Irão negou que algum navio comercial ou petroleiro tenha realizado a travessia, descrevendo as declarações das autoridades de Washington como “mentiras infundadas e completas”.
O risco de um confronto direto entre EUA e Irão tornou-se rapidamente evidente quando o Irão declarou ter atingido um navio de guerra dos EUA que procurava entrar no Golfo. O Comando Central negou a ocorrência do ataque. Mais tarde, Teerão retificou a versão, afirmando que disparara um tiro de aviso, sem esclarecer se a embarcação militar americana sofrera danos.
Situação volátil na região
Esta segunda-feira, as autoridades dos Emirados Árabes Unidos (EAU) emitiram para a população um alerta de emergência por telemóvel sobre eventuais ataques com mísseis. A mensagem apelava aos residentes para se dirigirem imediatamente para um local seguro, até receberem novas instruções.
Os maiores receios relativamente à população civil não se concretizaram, mas o Ministério da Defesa dos EAU indicou ter detetado quatro mísseis de cruzeiro dirigidos ao território. Três foram intercetados sobre as águas territoriais do país, enquanto um quarto caiu no mar. Um drone lançado pelo Irão provocou ainda um incêndio na Zona Industrial Petrolífera de Fujairah.
Algumas horas antes, os EAU tinham acusado o Irão de atacar, com dois drones, um petroleiro vazio da empresa petrolífera estatal de Abu Dhabi, quando a embarcação tentava atravessar o Estreito de Ormuz.
Na sexta-feira passada, os EAU abandonaram formalmente a Organização de Países Produtores de Petróleo (OPEP), alegando a necessidade de adequar a estratégia do país à evolução de longo prazo do mercado energético, em particular no que respeita às cotas de produção. Teerão classificou a decisão como “inaceitável”.
Afastamento EUA-Europa
Após os EUA terem comunicado que reduziriam em 5000 soldados a sua presença militar na Alemanha, o Ministério da Defesa alemão declarou esta segunda-feira que Washington não cancelou de forma definitiva o plano, elaborado durante a Administração Biden, para enviar para o país um batalhão equipado com mísseis Tomahawk de longo alcance.
“Não estamos a falar de um cancelamento definitivo”, garantiu o porta-voz do Ministério da Defesa, sublinhando que as armas “deveriam ser estacionadas [na Alemanha] e podem muito bem continuar a sê-lo”. O responsável referiu ainda que os países europeus já têm planos para adquirir sistemas de armamento capazes de preencher essa lacuna.
As declarações foram feitas no dia seguinte a o chanceler alemão, Friedrich Merz, rejeitar a hipótese de as suas críticas ao planeamento militar dos EUA no Irão terem provocado um afastamento de Washington. Na semana passada, Merz questionou se Trump dispunha de uma estratégia de saída para o Médio Oriente e sustentou que os EUA estavam a ser “envergonhados” nas negociações com o Irão. Posteriormente, Trump classificou Merz como um líder “ineficaz”.
Para além da Alemanha, os EUA ameaçaram diminuir a presença militar em Itália, Espanha e Reino Unido, como resposta à recusa desses países em participar na guerra contra o Irão. “Nós, europeus, precisamos de assumir mais responsabilidade pela nossa própria segurança”, afirmou recentemente o ministro alemão da Defesa, Oscar Pistorius.
Nervosismo no mundo
A escalada de tensão na região do Golfo faz com que qualquer incidente a bordo de uma embarcação no Golfo Pérsico gere suspeitas acrescidas.
Esta segunda-feira, o Governo da Coreia do Sul abriu uma investigação depois de um incêndio na casa das máquinas de um cargueiro de bandeira do Panamá, operado pela companhia marítima sul-coreana HMM, na área do Estreito de Ormuz. O navio transporta 24 tripulantes.
“O nosso Governo comunicará de perto com os países relevantes sobre este assunto e tomará as medidas necessárias para garantir a segurança dos nossos navios e tripulantes dentro do Estreito de Ormuz”, declarou o Ministério dos Negócios Estrangeiros sul-coreano em comunicado.






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