A maioria dos alunos da Academia do Porto entende que a regionalização é indispensável para contrariar o centralismo excessivo do Estado. Na perspetiva destes estudantes, as melhores perspetivas de emprego permanecem demasiado concentradas em Lisboa, levando muitos jovens a optar entre mudar-se para a capital ou emigrar. Esta é a principal conclusão do estudo "Centralismo, oportunidades e mobilidade dos jovens portugueses qualificados: perceções, realidades e recomendações", divulgado esta quarta-feira, data em que a Federação Académica do Porto (FAP) celebra o seu 37.º aniversário.
Regionalização e oportunidades dos jovens
O levantamento indica que seis em cada dez estudantes são favoráveis à regionalização e que mais de 90% defendem um reforço da descentralização. Para Francisco Porto Fernandes, presidente da FAP, esta diferença resulta sobretudo da falta de conhecimento sobre o assunto: apenas 9% dos participantes dizem opor-se à medida, mas aproximadamente um terço reconhece não dispor de informação suficiente para ter uma posição formada.
"O grande objetivo é trazer este tema para o debate público", afirma o dirigente estudantil, defendendo que "todos os factos e toda a evidência científica" revelam um país excessivamente centralizado. Uma realidade que, sublinha, "é má para todo o país, incluindo Lisboa".
Ao ouvir estudantes provenientes de várias zonas do país, o estudo procurou avaliar de que modo a concentração de investimento, entidades públicas e centros de decisão influencia os planos das novas gerações. Entre os resultados mais relevantes está a forte ligação dos jovens aos territórios onde vivem, embora sintam que, para desenvolver uma carreira, precisam de sair da região de origem rumo a Lisboa ou ao estrangeiro.
Para Francisco Porto Fernandes, este é atualmente o problema central. "Dói-me encontrar mais colegas da faculdade nos supermercados em Lisboa do que aqui no Porto", admite, relacionando esta situação com a concentração, na capital, das grandes empresas, consultoras, sociedades de advogados e organismos públicos. No seu entender, Portugal criou um sistema em que "os jovens deixam de escolher onde querem viver", restringindo o que chama de "direito a ficar".
Lisboa também perde
O estudo conclui ainda que o modelo de crescimento baseado na concentração de investimento, organismos públicos e decisões em Lisboa começa a dar sinais de esgotamento. Nas últimas duas décadas, a própria Área Metropolitana de Lisboa perdeu dinamismo, enquanto outras regiões - em particular a do Porto - podem representar uma oportunidade para reimpulsionar a economia.
"Temos uma economia baseada num único motor e esse motor está em decadência", sintetiza Francisco Porto Fernandes. "Isto não é um discurso contra Lisboa. O que defendemos é um país que não dependa apenas de uma área metropolitana", frisou.
O presidente da FAP defende que a regionalização deve avançar a par de uma reforma da governação autárquica e da desconcentração dos organismos públicos, aproximando os centros de decisão dos diferentes territórios.
Inquérito à Academia do Porto
A análise, solicitada pelo Centro de Estudos da FAP a investigadores da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, teve por base um inquérito respondido por 373 estudantes e recém-diplomados da Academia do Porto, na sua maioria com menos de 25 anos.
Saber mais
País centralista
Portugal é o sexto Estado-membro mais centralizado da União Europeia e está na 20.° posição quanto ao peso da despesa local e regional no PIB, um valor inferior a metade da média europeia.
Concentração
A disparidade entre Lisboa e o Porto, as duas cidades mais populosas, na concentração de emprego qualificado apenas é superada em dois países da União Europeia: Grécia e Hungria.
Lisboa em baixa
De 2000 a 2023, o nível de vida relativo da Grande Lisboa desceu de 167% para 158% da média nacional, refletindo uma perda de dinamismo económico.
Norte em alta
Apesar da redução da população nas últimas décadas, o Norte elevou a produtividade, o que mostra que o obstáculo não é a falta de capacidade, mas sim de investimento e poder de decisão.
Regiões adiadas
A Constituição de 1976 estabelece a criação de regiões administrativas, mas, passados quase cinquenta anos, Portugal continua sem concretizar este nível intermédio de governação.






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