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APAV alerta para efeito mimético em homicídios de crianças na violência doméstica

Criança sentada com terapeuta numa mesa, ambos de mãos dadas, com desenho e ursinho na mesa.
Neste artigo
  1. APAV Hope pede reflexão sobre homicídios de crianças
  2. Recursos e prevenção da violência doméstica
  3. Crianças reconhecidas como vítimas de violência doméstica

Carla Ferreira, responsável pelo projeto APAV Hope, avisou que a ampla cobertura das mortes de crianças em contexto de violência doméstica ocorridas nas últimas semanas pode potenciar um risco de mimetismo. "Não é incomum que haja este efeito mimético", declarou, salientando que a exposição mediática destes episódios pode constituir uma motivação adicional para quem já tenha intenções violentas.

A responsável pelo APAV Hope alertou para o possível "efeito mimético" dos homicídios de crianças no âmbito da violência doméstica e defendeu que a sociedade não deve aceitar como normal um fenómeno que já vitimou quatro menores este ano.

O alerta foi deixado após o Jornal de Notícias ter avançado que, durante os primeiros meses de 2026, quatro crianças morreram em contexto de violência doméstica. Este total iguala o registado em todo o ano de 2022, até agora o mais mortal para menores desde 2019.

O episódio mais recente deu-se na madrugada de domingo, em Santarém. Um homem de 33 anos, com antecedentes de violência doméstica, lançou-se de um oitavo andar levando ao colo a filha de 4 anos, causando a morte de ambos. O caso ocorreu poucos dias depois de uma menina de 8 anos ter sido morta pela madrasta, em Valpaços.

APAV Hope pede reflexão sobre homicídios de crianças

Carla Ferreira, que coordena o APAV Hope - Apoio a Vítimas de Homicídio, Terrorismo e Vitimação em Massa - entende que cada uma destas mortes deve motivar uma reflexão coletiva sobre as falhas na prevenção da violência. "Todos nós podemos ter falhado enquanto sociedade", disse à agência Lusa.

Quanto aos casos conhecidos nas últimas semanas, voltou a chamar a atenção para o perigo de mimetismo associado à divulgação intensa destes crimes. "Não é incomum que haja este efeito mimético", afirmou, explicando que a mediatização pode funcionar como um estímulo acrescido para pessoas que já nutram propósitos violentos.

A especialista ressalvou que estes crimes devem continuar a ser noticiados, mas considerou necessária uma cobertura responsável, que impeça que os casos se transformem em referências de identificação para possíveis agressores. Para Carla Ferreira, o maior perigo reside em a sociedade passar a tratar estes homicídios como situações correntes.

"Não podemos achar que é normal que numa semana tenham morrido duas crianças em contexto de violência doméstica", afirmou. "Não podemos dessensibilizar-nos relativamente a isto".

A especialista frisou que muitos homicídios de crianças em ambiente familiar não decorrem de impulsos ou apenas de questões de saúde mental. Em vez disso, resultam frequentemente de condutas intencionais inseridas nas dinâmicas da violência doméstica.

"Há muita deliberação, muitas vezes há ameaças prévias, muitas vezes há pistas que vão sendo deixadas por quem acaba por praticar estes crimes", explicou.

Segundo Carla Ferreira, estes homicídios surgem muitas vezes em relações dominadas por poder, controlo e violência, nas quais as crianças são usadas para ferir ou castigar o outro progenitor.

Recursos e prevenção da violência doméstica

Embora reconheça ser difícil atribuir responsabilidades específicas sem conhecer as circunstâncias de cada processo, a responsável da APAV recordou que, todos os anos, Portugal recebe cerca de 30 mil denúncias de violência doméstica. Trata-se de uma realidade que coloca uma pressão elevada sobre as autoridades e o sistema de justiça.

"Temos uma carga muito significativa de denúncias todos os anos", afirmou, referindo a falta de recursos humanos nas forças de segurança, no Ministério Público, nos tribunais e nos serviços de justiça.

Na sua avaliação, esta sobrecarga pode favorecer demoras na apreciação do risco e no seguimento de casos sinalizados, ainda que cada situação apresente características próprias.

Carla Ferreira sustentou que há espaço para aperfeiçoar a resposta do sistema, em particular através de uma recolha de prova mais célere junto das vítimas.

Considerou fundamental que as declarações para memória futura sejam recolhidas nas primeiras horas após a denúncia, de modo a salvaguardar depoimentos que podem vir a ser determinantes no processo criminal.

A especialista chamou também a atenção para o agravamento da severidade dos episódios de violência doméstica. Apesar de os números globais permanecerem relativamente estáveis, entende que os casos têm evidenciado graus de gravidade superiores.

Como causas desta realidade, apontou a propagação de discursos misóginos e de aceitação da violência, especialmente nas redes sociais.

"Estamos também com um problema de raiz, que é termos cada vez mais um discurso de tolerância relativamente à violência como forma aceitável de resolver problemas", disse.

Crianças reconhecidas como vítimas de violência doméstica

Carla Ferreira realçou que, há vários anos, as crianças deixaram de ser encaradas apenas como testemunhas de violência doméstica e passaram a ser legalmente reconhecidas como vítimas, mesmo que não sofram agressões diretamente.

Conforme explicou, viver num contexto violento pode ter efeitos profundos nos planos psicológico, emocional, social e até económico. Esta exposição aumenta o risco de ansiedade, dificuldades nas relações e futura reprodução de comportamentos violentos.

"As crianças vão absorver certos comportamentos como sendo normativos", alertou.

A responsável da APAV acrescentou que os casos tornados públicos nos últimos anos envolvem frequentemente crianças de idade mais baixa e, em vários episódios mediáticos, raparigas.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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