A ideia está profundamente enraizada na mente de muitos nascidos no século passado: a decisão de comprar um automóvel seria, muitas vezes, comandada pela emoção, seja pelas linhas do modelo, pelo prestígio da marca ou por ambos os fatores.
Contudo, ao observar os automóveis mais vendidos atualmente na Europa, essa noção parece algo distorcida - ou válida apenas para uma parcela reduzida dos compradores.
Vendas de automóveis na Europa privilegiaram as marcas generalistas
Nos primeiros nove meses deste ano, 40 dos 50 modelos mais procurados na Europa pertenciam a marcas generalistas. O primeiro modelo de uma marca “não-generalista” só aparece na 17.ª posição: o Tesla Model Y, que registou uma queda acentuada (-29,4%) face ao mesmo período de 2024, de acordo com dados da DataForce.
À semelhança do que sucedeu no total de matrículas do ano anterior, o Dacia Sandero - uma marca-valor por excelência - liderava a tabela. Logo atrás surgia o impressionante Renault Clio que, perto de uma merecida aposentação e com o sucessor previsto para chegar ao mercado na próxima primavera, foi o favorito dos europeus durante três meses consecutivos na segunda metade do semestre. No acumulado até setembro, conserva a segunda posição.
Este êxito explica-se por versões de “saldos de fim de estação”, ou seja, com mais equipamento e um preço mais reduzido, como a Generation. Em França, os clientes podem levá-la para casa desde 16 900 euros, um valor muito inferior ao do elétrico mais barato da Renault. Peugeot (208 e 2008), Volkswagen (T-Roc, Golf e Tiguan), Dacia (Duster), Toyota (Yaris Cross) e Citroën (C3) completam o Top 10 europeu.
Marcas chinesas ajustam a oferta e mantêm o crescimento
Outros indicadores reforçam esta lógica racional na compra de automóvel na Europa. Apesar das tarifas adicionais aplicadas aos seus elétricos, as marcas chinesas elevaram as vendas em 83% nos primeiros nove meses de 2025, aumentando a quota de mercado de 2,9% para 5,3% no período.
Para travar eventuais quebras relevantes provocadas pela estratégia protecionista europeia, os construtores chineses adaptaram a gama disponível. Passaram a destacar mais os automóveis híbridos e exclusivamente a combustão, remetendo os modelos 100% elétricos para segundo plano, já que foram estes os mais afetados pelo aumento de preços resultante das tarifas.
O preço é, precisamente, o argumento mais difícil de ignorar, capaz de convencer até os defensores mais firmes do automóvel europeu quando verificam que um modelo familiar, com qualidade bastante aceitável, espaço abundante e tecnologia de propulsão avançada, podia custar entre 30% e 50% menos do que um equivalente europeu - pelo menos na China.
Mesmo na evolução das vendas de elétricos, predominam os critérios de racionalidade. O relativamente acessível Elroq permitiu à Skoda chegar ao pódio das marcas mais vendidas no verão. Foi uma das primeiras vezes - talvez a primeira - em que um modelo elétrico melhorou de forma tão evidente o desempenho comercial da marca.
Nos primeiros três trimestres do ano, a quota de automóveis elétricos na União Europeia fixou-se em apenas 16,1% (fonte: ACEA). Continua muito distante do objetivo de ficar confortavelmente acima dos 20%, necessário para cumprir as metas de emissões de CO₂, mas representa ainda assim uma subida em comparação com o período homólogo do ano passado, quando era de 13,1%.
Elétricos «baratos» e citadinos em transformação
Os primeiros automóveis elétricos urbanos mais acessíveis começam, é certo, a chegar ao mercado. Porém, os preços continuam habitualmente próximos dos 20 mil euros e a autonomia é claramente limitada pelas baterias pequenas, o que impede estes modelos de desempenharem o papel de veículo principal do agregado familiar.
Outra solução passa pela hibridização completa dos modelos de menores dimensões, como a Toyota acaba de fazer com o Aygo X, o segundo citadino mais vendido este ano na Europa. Com 86 g/km de CO₂ emitido pelo escape, deverá tornar-se no modelo a gasolina menos poluente da Europa entre os que não são plug-in.
É neste cenário de consumidores orientados pela racionalidade que as marcas europeias procuram revitalizar o segmento dos citadinos, historicamente dominado pelo FIAT Panda e atualmente “ligado às máquinas”.
Renault, Citroën, Ford, smart, Skoda, Suzuki, SEAT e Volkswagen deixaram de disponibilizar, nos últimos anos, qualquer automóvel abaixo dos 15 mil euros. Assim, quem procura este tipo de carro passou de uma escolha de cerca de meia centena de modelos em 2019 para apenas… um atualmente.
A causa está na obrigatoriedade de integrar tecnologias destinadas a reduzir emissões e a reforçar a segurança, exigências que tornaram inviável vender estes automóveis sem prejuízo - e, menos ainda, com lucro. Em consequência, as vendas europeias de carros novos abaixo de 15 mil euros desceram de mais de um milhão por ano para cerca de cem mil em apenas seis anos.
A proposta europeia para a categoria M0
Inspiradas no Japão, a Stellantis e o Grupo Renault estão a pressionar a União Europeia (UE) para criar uma categoria de veículos abaixo dos Ligeiros de Passageiros (M1) e acima dos quadriciclos motorizados L6 e L7. Estes modelos poderiam ficar isentos de alguns encargos regulamentares, teriam limites de dimensões e peso, mas capacidade para pelo menos quatro ocupantes.
A designação possível seria M0 - no Japão, são conhecidos como kei cars -, uma hipótese que a Comissão Europeia (CE) analisa há vários meses. Ainda assim, do ponto de vista da segurança passiva, uma decisão favorável parece-me bastante discutível.
Além disso, decisões desta natureza, que exigem cedências e compromissos, tendem sempre a avançar muito lentamente na Europa. Foi algo que me comentou recentemente o diretor-executivo da Mercedes-Benz, Ola Källenius, também presidente da ACEA (Associação Europeia dos Construtores de Automóveis): “na Europa passamos uma eternidade a legislar e só depois é que os projetos avançam, nos EUA vão fazendo as duas coisas em paralelo, mas na China metem mãos à obra e depois quando está feita é que a regulamentam. E os resultados estão à vista…”






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