Um relatório europeu coordenado pelo investigador português Francisco Simões, do CIS-Iscte, põe em causa a noção de que o Interior está a ser abandonado. Os jovens querem continuar nas suas terras, mas reclamam transportes e emprego digno.
A perceção de que os jovens deixam o Interior em massa poderá estar muito desatualizada. Um recente relatório europeu revela que 76% dos jovens rurais pretendem manter-se nos locais onde nasceram, um resultado que contraria décadas de discurso sobre o êxodo rural e coloca uma questão essencial: será o problema dos territórios ou a ausência de condições para viver neles?
O estudo a que o JN teve acesso, denominado "Here to stay? The transitions of rural youth before and after the Covid-19 pandemic", foi coordenado por Francisco Simões, investigador português do CIS-Iscte, e analisou a situação de mais de 2500 jovens entre os 18 e os 30 anos, em 14 países europeus. A conclusão é inequívoca: a maioria não deseja partir. Quer ficar, embora não em quaisquer circunstâncias.
"Este resultado é, de facto, surpreendente", reconhece Francisco Simões, salientando que a conclusão contrasta com a tendência apontada por investigações anteriores. "Estamos a falar, em grande parte, de jovens qualificados, que tradicionalmente seriam os primeiros a sair. E, ainda assim, querem permanecer".
Contudo, este desejo encontra entraves muito concretos. Os jovens rurais não rejeitam os territórios onde vivem; rejeitam, sim, a escassez de oportunidades. O relatório identifica três reivindicações fundamentais: melhores acessibilidades, trabalho de qualidade e mais acesso à educação e à formação.
A mobilidade assume-se como uma questão decisiva. Quando faltam transportes públicos eficientes, o acesso ao emprego fica mais restrito e desigual. Não é por acaso que possuir automóvel próprio foi apontado como o fator mais importante para encontrar trabalho. "Os jovens estão a optar por soluções de comutação para permanecer", explica o investigador. Isto é, aceitam deslocar-se para estudar ou trabalhar, mas pretendem conservar as suas raízes no território.
Falta de transportes
Face a este cenário, o relatório sugere respostas como a partilha de veículos através de "carsharing" e "carpooling", sobretudo nos territórios mais isolados. "Além de reduzirem o isolamento, são soluções mais sustentáveis e menos dispendiosas", defende Francisco Simões.
Apesar da subida das qualificações académicas, continuam a verificar-se desigualdades significativas. Em Portugal, a proporção de jovens com Ensino Superior mantém-se consideravelmente inferior nas áreas rurais face às urbanas. Em simultâneo, o mercado de trabalho local disponibiliza frequentemente empregos precários, pouco qualificados e sem possibilidades de progressão.
"O emprego disponível é frequentemente de baixa qualidade, sem vínculo, proteção social ou sentido de propósito", afirma o investigador. Ainda assim, esta realidade não muda a principal conclusão: os jovens não pretendem sair; querem ter condições para permanecer.
As redes informais constituem outro dado relevante. Família, amigos e vizinhos continuam a desempenhar um papel determinante tanto no acesso ao trabalho como na qualidade de vida. Longe de representarem um sinal de atraso, estas relações funcionam como autênticas infraestruturas sociais que permitem aos jovens continuar nos territórios rurais.
Apoio da comunidade
"A qualidade das relações é crucial. O apoio informal está diretamente associado à satisfação com a vida e à decisão de permanecer", sublinha Francisco Simões. Em muitos casos, estes vínculos ajudam igualmente a explicar o regresso de jovens que chegaram a sair.
O relatório também desfaz a ideia de que a falta de programação cultural afasta os mais jovens. Pelo contrário, os jovens rurais atribuem particular valor às atividades ao ar livre e relacionadas com a natureza, embora isso não queira dizer que prescindam de investimento cultural.
Em essência, o estudo inverte o modo como o problema costuma ser colocado: o desafio não passa por persuadir os jovens a regressar ao Interior, mas por impedir que sejam obrigados a partir. A questão não é a ligação ao território, mas a possibilidade de nele construírem um futuro.
Estado falha ao manter uma visão burocrática
Os jovens rurais desejam ficar nas suas terras, mas consideram que as políticas públicas os deixam para trás e que dependem demasiado da família para construir o futuro. O alerta é feito por Francisco Simões, que acusa os Estados de preservarem uma perspetiva "burocrática" e pouco eficaz sobre a juventude rural.
O estudo europeu classifica Portugal como um caso de "cidadania negada" e "cidadania incerta", conceitos aplicados a países em que os jovens recebem reduzido apoio do Estado e dependem fortemente das redes familiares para alcançar estabilidade económica e integração no mercado de trabalho.
Encontrar trabalho
"Os serviços públicos de emprego persistem em abordagens demasiado burocráticas e despersonalizadas", critica Francisco Simões. Os dados reforçam esta falta de confiança: só 18% dos jovens rurais recorrem aos serviços públicos de emprego. A maioria obtém trabalho através de contactos informais - familiares, vizinhos e conhecidos -, o que, para o investigador, evidencia uma fragilidade estrutural do Estado social nos territórios do Interior.
Francisco Simões defende que as políticas nacionais continuam a desvalorizar as particularidades da juventude rural. A maior parte dos países não identifica expressamente os jovens rurais como um subgrupo político próprio. Em vez disso, são incluídos em políticas gerais de juventude, muitas vezes "sem especificidade" e incapazes de responder às dificuldades concretas.
Quebra do "elevador social"
O relatório assinala ainda a quebra do chamado "elevador social". "Há filhos que ficam aquém dos rendimentos e do estatuto social dos pais. Isso é profundamente corrosivo porque põe em causa o pacto social", afirma Francisco Simões, relacionando esta situação com uma maior polarização. O problema torna-se mais grave nas regiões mais distantes dos centros urbanos.






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