O impacto do Volta nas cidades
Quem assistiu, há alguns dias, à reportagem da TVI dificilmente terá ficado indiferente aos efeitos que o Volta está a causar nos grandes centros urbanos. À vista está, em primeiro lugar, a desordem ambiental: centenas de caixotes do lixo, papeleiras e ecopontos remexidos, com resíduos deixados espalhados pelo chão. Segue-se a dimensão social do problema, traduzida numa horda de delinquentes que recolhe embalagens de modo desesperado.
Foi com especial espanto que ouvi o relato de um toxicodependente, que admitia conseguir ganhar até 15 euros por dia com esta actividade. Outro reconhecia aquilo que qualquer pessoa sensata retira deste fenómeno: é positivo porque ajuda a sustentar o vício; é negativo porque incentiva comportamentos aditivos. É uma conclusão elementar, embora aparentemente não o seja para todos.
Falhas do sistema Volta e pressão sobre os municípios
Apesar do propósito ambiental meritório que este serviço procura cumprir, é evidente que o modelo adoptado para a sua execução está a gerar consequências indesejáveis. Acresce que impõe fortes limitações aos municípios, que acabam por ser, na prática, responsáveis por resolver os problemas associados a este fenómeno, criando soluções para as quais, muitas vezes, já não têm recursos disponíveis em circunstâncias normais.
Também o alegado "sucesso" estatístico divulgado a propósito do Volta não parece especialmente consistente. Embora tenha sido anunciado que foram recolhidas mais de 400 milhões de embalagens nos primeiros meses de funcionamento, a entidade gestora disse ao JN que a taxa de devolução ronda os 44%. Feitas as contas, isto quer dizer que, desde a criação do sistema, foram entregues "apenas" 276 milhões de garrafas.
Máquinas de recolha e metas europeias
Quem utiliza regularmente as estações de recolha terá certamente identificado outro obstáculo: há poucas máquinas, muitas encontram-se avariadas e, em várias situações, recusam o material introduzido. Daí resulta a acumulação indevida de embalagens nas zonas envolventes, criando mais um problema logístico que terá de ser resolvido por terceiros.
Sei bem que este projecto decorre de directivas comunitárias, que estabelecem metas rigorosas para reduzir os plásticos de utilização única. Contudo, isto é igualmente sintomático do ponto a que chegou a União Europeia, persistentemente preocupada com tudo menos com aquilo que deveria estar no centro das suas atenções. Alterar as tampas das garrafas ou atribuir um tributo a quem recicla embalagens não salvará o planeta, nem tornará a Europa mais forte. Ainda assim, a saga parece destinada a continuar.
Em Portugal, espera-se que um plano da sociedade gestora do Volta consiga corrigir as falhas identificadas e melhorar a resposta do sistema. Posso estar enganado, mas receio que os factos venham a contrariar essas melhorias. O ideal seria que esta medida desse uma volta, mas sem retorno.






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