No final de abril de 2024, a Agência de Combate à Droga dos EUA anunciou a intenção de aliviar as restrições federais aplicadas à canábis, passando-a de droga da Lista I para a Lista III, uma categoria menos restritiva que inclui medicamentos como o Tylenol com codeína, a testosterona e outros esteróides anabolizantes.
Esta alteração histórica reconhece o promissor valor medicinal da canábis.
A medida coincide com o interesse crescente na psilocibina, o componente activo dos cogumelos mágicos, para tratar a depressão, a dor crónica e outras patologias.
Em 2018 e 2019, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA atribuiu à psilocibina a designação de terapia inovadora, destinada a acelerar o desenvolvimento de fármacos, uma vez que estudos preliminares indicam que poderá ter um valor terapêutico substancial face às terapias actualmente disponíveis para a depressão resistente ao tratamento e a perturbação depressiva major.
Ambos os desenvolvimentos constituem uma mudança drástica em relação à política federal de longa data sobre estas substâncias, que historicamente criminalizou a sua utilização e impediu ou atrasou a investigação sobre o seu potencial terapêutico.
Enquanto professor assistente de anestesiologia e investigador da dor, estudo alternativas para a gestão da dor, incluindo a canábis e os psicadélicos.
Tenho também um interesse pessoal em melhorar o tratamento da dor crónica: no início de 2009, fui diagnosticado com fibromialgia, uma doença marcada por dor generalizada em todo o corpo, perturbações do sono e sensibilidade sensorial generalizada.
Considero a canábis e a psilocibina terapias promissoras que podem ajudar a colmatar esta necessidade. Tendo em conta que cerca de 50 milhões de americanos vivem com dor crónica - isto é, dor que se prolonga por três ou mais meses -, pretendo contribuir para compreender como utilizar eficazmente a canábis e a psilocibina como possíveis instrumentos de gestão da dor.
Canábis versus outros medicamentos para a dor
A canábis, também conhecida como marijuana, é uma planta medicinal antiga. Os medicamentos à base de canábis são usados há pelo menos 5.000 anos em situações como a artrite e o controlo da dor durante e após intervenções cirúrgicas.
Esta utilização atravessou a Antiguidade até à actualidade, existindo hoje medicamentos à base de canábis para tratar determinadas perturbações convulsivas, estimular o aumento de peso em casos de anorexia associada ao VIH/SIDA e controlar as náuseas durante a quimioterapia.
Como sucede com qualquer substância ingerida, a canábis apresenta riscos para a saúde: conduzir sob o seu efeito pode elevar o risco de acidentes. Algumas pessoas desenvolvem vómitos cíclicos, enquanto outras enfrentam problemas de motivação ou dependência, sobretudo em caso de consumo intenso em idades mais jovens.
Ainda assim, as sobredoses mortais por canábis são quase inexistentes. Este dado é notável, considerando que quase 50 milhões de americanos a utilizam todos os anos.
Em contrapartida, os opióides, frequentemente prescritos para a dor crónica, contribuíram para centenas de milhares de mortes por sobredose nas últimas décadas. Mesmo analgésicos correntes, como os anti-inflamatórios não esteróides - por exemplo, o ibuprofeno -, provocam anualmente dezenas de milhares de internamentos e milhares de mortes devido a lesões gastrointestinais.
Além disso, tanto os opióides como os analgésicos não opióides têm eficácia limitada no tratamento da dor crónica. Os medicamentos para a dor crónica podem proporcionar um alívio ligeiro a moderado a algumas pessoas, mas, para muitas, os efeitos secundários acabam por superar quaisquer benefícios.
Estas questões de segurança e o benefício reduzido levaram muitas pessoas com dor crónica a experimentar a canábis como alternativa de tratamento. De facto, em estudos por inquérito, os meus colegas e eu verificámos que as pessoas substituíam frequentemente os medicamentos para a dor por canábis porque esta tinha menos efeitos secundários negativos.
Contudo, é necessária investigação mais rigorosa sobre a canábis para a dor crónica. Até agora, os ensaios clínicos - considerados o padrão-ouro - foram de curta duração e centraram-se num número reduzido de participantes.
Além disso, os meus colegas e eu demonstrámos que esses estudos utilizam medicamentos e regimes de dosagem muito diferentes da forma como os consumidores usam realmente os produtos vendidos em dispensários de canábis licenciados pelos estados. A canábis também produz efeitos reconhecíveis, como euforia, alterações na percepção e formas diferentes de pensar, o que dificulta a realização de estudos em dupla ocultação.
Apesar destes obstáculos, no início de 2024 um grupo de especialistas em canábis e dor publicou uma proposta de orientação para a prática clínica, com o objectivo de reunir a evidência existente e orientar a prática clínica.
Esta orientação recomendou a utilização de produtos de canábis quando a dor surge associada a problemas de sono, espasticidade muscular e ansiedade. Estes benefícios múltiplos significam que a canábis poderá ajudar as pessoas a evitar um medicamento separado para cada sintoma.
Obstáculos tradicionais ao estudo da canábis
Desde a aprovação da Lei das Substâncias Controladas, em 1970, o governo federal classificou a canábis como substância da Lista I, juntamente com drogas como a heroína e o LSD.
A posse destas drogas é criminalizada e, segundo a definição federal, não têm "qualquer utilização médica actualmente aceite e apresentam elevado potencial de abuso". Devido a esta classificação e às limitações impostas ao fabrico de drogas, estudar a canábis é muito difícil.
As barreiras regulatórias estaduais e federais também atrasam ou impedem a aprovação e realização de estudos. Por exemplo, posso comprar canábis em dispensários licenciados pelo estado na minha cidade, Ann Arbor, no Michigan. No entanto, enquanto cientista, é muito difícil testar legalmente se estes produtos aliviam a dor.
A reclassificação da canábis como droga da Lista III pode abrir substancialmente este panorama de investigação e ajudar a ultrapassar essas barreiras.
O papel emergente dos psicadélicos
Os psicadélicos, como os cogumelos que contêm psilocibina, ocupam um cenário científico e político estranhamente semelhante ao da canábis. Usada há milhares de anos para fins cerimoniais e de cura, a psilocibina também está classificada como droga da Lista I.
Pode provocar alterações significativas na percepção sensorial, no humor e no sentido de identidade, capazes de gerar benefícios terapêuticos. Tal como a canábis, a psilocibina apresenta um risco mínimo de sobredose fatal.
Ensaios clínicos que combinam psilocibina com psicoterapia nas semanas anteriores e posteriores à toma da substância relatam melhorias substanciais nos sintomas de perturbações psiquiátricas, como a depressão resistente ao tratamento e a perturbação do consumo de álcool.
Os riscos são habitualmente psicológicos. Um pequeno número de pessoas relata pensamentos suicidas ou comportamentos de autoagressão após tomar psilocibina. Algumas vivenciam também maior abertura e vulnerabilidade, que podem ser exploradas por terapeutas e conduzir a abusos.
Há poucos ensaios clínicos publicados sobre terapia com psilocibina para a dor crónica, embora estejam em curso muitos estudos, incluindo um estudo-piloto sobre fibromialgia conduzido pela nossa equipa na Universidade do Michigan. Este tratamento poderá ajudar as pessoas a desenvolver uma relação mais saudável com a dor, ao promover uma maior aceitação e reduzir a ruminação frequentemente ligada a pensamentos e sentimentos negativos em torno da dor.
Tal como aconteceu com a canábis, alguns estados, incluindo o Colorado e o Oregon, descriminalizaram a psilocibina e estão a criar infra-estruturas para ampliar o acesso à terapia assistida por psilocibina. Uma análise recente sugere que, se os psicadélicos seguirem um padrão de legalização semelhante ao da canábis, a maioria dos estados legalizará os psicadélicos entre 2034 e 2037.
Desafios futuros
Estes tratamentos antigos, embora relativamente "novos", oferecem uma perspectiva singular sobre a complexa intersecção entre drogas, medicina e sociedade. O entusiasmo justificável em torno da canábis e da psilocibina levou a políticas estaduais que aumentaram o acesso para algumas pessoas, mas persistem a criminalização federal e barreiras substanciais à investigação científica.
Nos próximos anos, espero contribuir para estudos pragmáticos que funcionem dentro destes parâmetros difíceis.
Por exemplo, a nossa equipa desenvolveu uma intervenção de acompanhamento para ajudar veteranos a usar produtos de canábis disponíveis no mercado de forma mais eficaz no tratamento da dor. Os orientadores salientam que uma utilização criteriosa pode minimizar os efeitos secundários e maximizar os benefícios. Se a nossa abordagem resultar, os prestadores de cuidados de saúde e os dispensários de canábis de todo o país poderão utilizar este tratamento para ajudar clientes com dor crónica.
Abordagens deste tipo podem complementar ensaios clínicos mais tradicionais, ajudando os investigadores a determinar se estas classes de drogas oferecem benefícios e se causam danos comparáveis ou inferiores aos dos tratamentos actuais.
À medida que a nossa sociedade se liga à rica história de cura com estas drogas antigas, as alterações propostas poderão disponibilizar opções mais seguras e relevantes aos 50 milhões de americanos que vivem com dor crónica.
Kevin F. Boehnke, Professor Assistente de Anestesiologia, Universidade do Michigan
Este artigo é republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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