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Protestos dos jovens em França e Espanha pela habitação e pelo futuro

Grupo de jovens manifestantes numa rua, com caixas e placa a criticar a indústria da habitação.
Neste artigo
  1. Do Maio de 68 a uma nova geração de protesto
  2. “Entrar num jogo de Monopólio a meio”
  3. Cai o teto em França, em Espanha não o há
  4. As escolas aos estudantes?
  5. Uma geração mais pessimista sobre o futuro
  6. Jovens com problemas ‘muito adultos’
  7. A esquerda radical tenta transformar revolta em votos
  8. Direita radical tenta enquadrar ‘violência’ como falha do Estado

Na primavera de 1968, o movimento estudantil ocupou Nanterre e a Sorbonne, em Paris, antes de se alastrar para fora do espaço universitário. Os estudantes contestavam as reformas então em curso, por reforçarem um ensino tradicional e conservador e por oferecerem menos perspetivas de integração no mercado de trabalho.

A contestação não resultava de uma questão exclusivamente francesa. Inseria-se antes numa tomada de consciência política à escala mundial. Nos Estados Unidos da América, manifestações intensas, sobretudo protagonizadas por estudantes, constituíam uma oposição moral à Guerra do Vietname. Em simultâneo, a terra do tio Sam assistia às lutas antirracistas. A Primavera de Praga, desencadeada pela chegada de Alexander Dubček ao poder, colocava a Checoslováquia no caminho da transformação, com reformas destinadas a democratizar o socialismo - acabaria esmagada pela invasão das forças do Pacto de Varsóvia. Na Alemanha, os protestos estudantis mantinham-se em Berlim. Na China, a Revolução Cultural lançada por Mao Tsé-Tung em 1966, que mobilizou milhões de jovens, evoluía para uma violenta campanha de perseguição dirigida a professores, intelectuais, autoridades e dirigentes do próprio Partido Comunista, acusados de tendências burguesas e contrarrevolucionárias.

Do Maio de 68 a uma nova geração de protesto

Em França, porém, o país ficou praticamente imobilizado.

A resposta policial às barricadas levantadas junto da Sorbonne foi violenta, ampliando o confronto entre o Estado, de um lado, e estudantes e trabalhadores, do outro.

As universidades francesas atravessavam profundas mudanças, mas o Presidente Charles de Gaulle acabaria por enfrentar uma crise social e política de dimensão muito mais ampla. O Maio de 68 tornou-se numa crise nacional, marcada por uma greve geral que juntou milhões de trabalhadores. Em Paris, quase um milhão de pessoas desfilaram exigindo a demissão do chefe de Estado francês.

Nas últimas décadas, a contestação protagonizada por jovens conheceu outros episódios relevantes, entre os quais os movimentos antiglobalização, as revoltas da Primavera Árabe, as greves pelo clima e a mobilização estudantil em torno da guerra em Gaza.

“Entrar num jogo de Monopólio a meio”

Mais de meio século depois do Maio de '68, as expectativas da sociedade europeia regressam ao centro de uma vaga de protestos que atinge não apenas França, mas também a vizinha Espanha. “Algumas pessoas resumem isto com uma piada de que gosto particularmente: ser jovem hoje em dia é como entrar num jogo de Monopólio a meio, quando todas as ruas já foram compradas e os hotéis foram construídos por todo o lado”, afirma ao Expresso Alessio Motta, investigador da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e autor de “Sociologia dos Fatores Desencadeadores de Ações de Protesto”.

Foi precisamente contra a dificuldade de acesso à habitação que dezenas de milhares de pessoas saíram à rua em 50 cidades espanholas. Num acampamento de protesto na praça Puerta del Sol, em Madrid, podia ler-se: “Podem especular com relógios, joias, criptomoedas e Ferraris, mas não com as nossas casas, porra”, segundo o jornal britânico The Guardian.

Em Espanha, o episódio que desencadeou a mobilização foi o despejo de Maricarmen, uma mulher de 87 anos, em Madrid, depois de um fundo de investimento lhe ter aumentado a renda em 230%. A octogenária foi retirada de casa numa maca, sob escolta policial, e a situação deu origem a uma onda de indignação em todo o país. Nessa noite, centenas de jovens começaram a concentrar-se em Madrid para protestar.

Ao longo de uma década, as rendas em Espanha aumentaram 80%, e muitos cidadãos despendem mais de metade dos seus rendimentos com a habitação. Há vários dias que os jovens se manifestam nas ruas contra a especulação imobiliária que, na perspetiva dos participantes, tem sido facilitada pelo Estado.

Cai o teto em França, em Espanha não o há

Na vizinha França, estão encerradas quase duas mil escolas secundárias. Segundo estimativas do Governo, mais de 55 mil jovens terão participado em protestos realizados em diferentes pontos do país. Alunos do ensino secundário têm entrado em confronto com a polícia, em manifestações que frequentemente assumem contornos violentos. Horários de trabalho extensos, ausência de professores, salas degradadas e um processo pouco transparente de admissão à universidade levaram o descontentamento ao limite.

“Há aqui certamente algo mais amplo e quase universal: um crescente pessimismo relativamente às perspetivas da geração mais jovem, ligado à inteligência artificial (IA), às alterações climáticas, à crise da habitação, às pressões sobre o estado de bem-estar social e à diminuição das expectativas de ascensão social”, reconhece Louis Chauvel, sociólogo francês, professor da Universidade do Luxemburgo e especialista em estudos geracionais. “É possível detetar este pessimismo mesmo na China, embora até agora com consequências políticas bastante diferentes e mais brandas.”

Um estudo da Deloitte, divulgado em junho, concluiu que mais de metade da Geração Z - pessoas nascidas entre 1995 e 2007 (55%) - e da geração Y - nascidos entre 1983 e 1994 (52%) - adiou decisões importantes de vida por causa da respetiva situação financeira. Além disso, estes grupos dizem dar prioridade à estabilidade, ao bem-estar e à aquisição de competências antes de avançarem para percursos que consideram incertos.

As escolas aos estudantes?

Embora os protestos em França tenham começado nos subúrbios a norte de Paris, nesta terça-feira já se tinham disseminado por todo o país. Registaram-se pelo menos 6100 detenções e mais de mil feridos. O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, pediu às autoridades locais que dessem prioridade ao preenchimento de vagas deixadas por ausências prolongadas de docentes e convocou encontros urgentes para discutir a reparação de estabelecimentos escolares degradados. Emmanuel Macron deverá reunir-se com o Governo esta noite.

Os jovens franceses denunciam um sistema educativo com financiamento insuficiente, que, segundo defendem, perpetua as desigualdades sociais. Há estudantes que ficam sem aulas durante meses devido à falta de professores. Os dias longos, entre as 08h00 e as 18h00, decorrem em edifícios onde há telhados com infiltrações, baratas e tetos em risco de ruir.

O Orçamento é igualmente uma das frentes de contestação contra o Governo, que não dispõe de um apoio parlamentar robusto. Ao centro, Sébastien Lecornu procura fazer avançar um Orçamento assente em cortes, calculados em cerca de €54 mil milhões, para corrigir as contas públicas, a dívida e os défices persistentes, bem como responder à forte pressão dos mercados. Para o Executivo, será difícil negociar a proposta orçamental perante os cortes nas pensões, o congelamento dos salários da função pública e as mudanças na baixa médica financiada pelo Estado. Os jovens encaram estas medidas como uma ameaça ao seu futuro.

Uma geração mais pessimista sobre o futuro

Em Espanha, o presidente do Governo, Pedro Sánchez, marcou eleições antecipadas para 29 de novembro, uma vez que a ausência de maioria parlamentar também o impede de aprovar o Orçamento e as medidas urgentes para a habitação que pretendia implementar. Entretanto, o país encaminha-se para uma greve geral.

Louis Chauvel salienta que França enfrenta ainda uma questão demográfica e institucional própria. “As coortes que frequentam atualmente o ensino secundário são ainda relativamente grandes, enquanto a recente descida da taxa de natalidade irá reduzir progressivamente o tamanho destes grupos na próxima década.” Durante os anos de Emmanuel Macron, estas “grandes coortes” chegaram aos liceus sem que os recursos aumentassem na mesma proporção. Daí resultaram turmas muito numerosas, por vezes com cerca de 35 alunos, associadas à falta de professores, psicólogos e enfermeiros escolares sobrecarregados, bem como à degradação de edifícios e equipamentos.

“Isto é particularmente frustrante para os alunos das classes médias baixas”, acrescenta Chauvel. “Foram incentivados a investir fortemente na educação, mas muitos sentem cada vez mais que o retorno prometido - em termos de acesso à universidade, emprego, habitação e mobilidade social - já não existe. Isto cria uma forte sensação de incerteza quanto ao futuro.”

Jovens com problemas ‘muito adultos’

Em França, existe uma particularidade: os grandes movimentos sociais tendem a ser menos prováveis nos meses que antecedem uma eleição presidencial, pois os cidadãos preparam-se para manifestar as suas preferências através do voto. No entanto, “para os alunos do ensino secundário, este mecanismo faz pouco sentido”, observa o professor da Universidade do Luxemburgo especializado em estudos geracionais. A maior parte dos manifestantes tem menos de 18 anos e não poderá votar nas presidenciais da primavera de 2027.

Por isso, a frustração política pode ser vivida de maneira muito distinta. “São afetados pelas decisões relativas à educação, à habitação e ao seu futuro, mas quase não têm uma voz política formal”, explica Chauvel. O facto de serem politicamente tratados como crianças enquanto lidam com ‘problemas muito adultos’ pode alimentar a revolta.

Apesar de terem origens diferentes, os movimentos juvenis em Espanha e França permitem retirar conclusões sobre o estado de saúde de vários governos europeus e revelam uma promessa quebrada: a de que os jovens seriam compensados com bons empregos e condições superiores às dos pais e avós se estudassem e se esforçassem. Porém, a realidade é mais severa, os salários permanecem baixos e o Estado-providência falha, limitando-se a aplicar reformas administrativas que funcionam como paliativos para feridas socioeconómicas bem mais profundas.

Alessio Motta sustenta que “grande parte da juventude da Europa Ocidental partilha o sentimento de que as condições de trabalho, o custo da habitação e, de um modo geral, o mundo que os espera oferecem cada vez menos espaço para a prossecução dos seus sonhos”.

A esquerda radical tenta transformar revolta em votos

Em França e Espanha, se os políticos não conseguirem levar a população a acreditar na esperança, poderão ser consumidos pelo ressentimento? E será esse fenómeno ainda mais intenso num período de impulso juvenil, mais antissistema e mais permeável a acolher outras ideias?

O agravamento do descontentamento favorece alguns partidos da oposição. Em França, a esquerda radical liderada por Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa - apoiado por 47% dos eleitores com menos de 35 anos - assumiu uma posição aberta nas ruas. Em Espanha, os partidos de esquerda Podemos e Sumar apontam o capitalismo financeiro sem controlo como responsável pela crise da habitação.

Em sentido contrário, a extrema-direita apela à lei e à ordem. O Reagrupamento Nacional (RN), de Marine Le Pen, em França, usa imagens de barricadas e incêndios para acusar os dirigentes centristas de tolerarem a “violência desenfreada”.

Direita radical tenta enquadrar ‘violência’ como falha do Estado

“ O que prevalece entre os jovens de hoje, sobretudo nas cidades, é uma viragem para a esquerda radical”, sublinha Alessio Motta. Isso não implica necessariamente um futuro mais favorável para os partidos da esquerda radical, porque, apesar da mudança evidente, “existe atualmente uma divisão muito acentuada entre uma geração jovem, fortemente inclinada para a esquerda, mas com níveis variados de participação eleitoral, e os eleitores mais velhos, que tendem a votar à direita ou na extrema-direita e apresentam taxas de presença nas urnas mais elevadas”, afirma o investigador.

Será que esta vaga de protestos terminará como o Maio de '68, perdendo força assim que o sistema político se recompôs? Os politólogos consideram que, pelo menos, deixará marcas profundas nas sociedades europeias.

Motta afirma, com otimismo, que uma consequência deste movimento poderá ser o aumento do interesse dos jovens pela política e uma aposta mais forte na democracia. Ainda assim, os partidos tradicionais do arco governativo enfrentam uma pressão crescente. “O perigo começa quando a desigualdade entre gerações deixa de ser interpretada simplesmente como um resultado político infeliz, mas como prova de que o próprio sistema político está organizado a favor dos privilegiados”, conclui Louis Chauvel.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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