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Sucessão de António Guterres na ONU: os sete candidatos ao cargo de secretário-geral

Três diplomatas em reunião na Assembleia Geral das Nações Unidas com bandeiras ao fundo.
Neste artigo
  1. REBECA GRYNSPAN
  2. RAFAEL GROSSI
  3. CAROLYN RODRIGUES-BIRKETT

António Guterres entrou na fase final do mandato à frente da Organização das Nações Unidas (ONU). A 1 de janeiro de 2027, tomará posse um novo secretário-geral, função que a Carta fundadora define como “o principal funcionário administrativo da Organização”.

A menos de três meses da transição, há sete candidatos na disputa pela sucessão do antigo primeiro-ministro português. O procedimento de seleção foi iniciado a 25 de novembro de 2025 e aproxima-se agora da fase decisiva. Embora a nomeação formal caiba à Assembleia-Geral, é no Conselho de Segurança que as candidaturas são avaliadas, que um nome é apurado e que a recomendação é enviada à Assembleia-Geral.

Formalmente, a decisão pertence à Assembleia-Geral, onde estão representados os 193 Estados-membros. Na realidade, porém, a sua intervenção tende a limitar-se à ratificação de uma escolha já tomada pelos 15 membros do Conselho de Segurança. A 13 de outubro de 2016, por exemplo, António Guterres foi nomeado pela Assembleia-Geral... por aclamação, sem que tivesse havido votação.

Nada na Carta da ONU impede os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança - Estados Unidos da América (EUA), Federação Russa, China, Reino Unido e França - de apresentarem um candidato ao cargo. Ainda assim, ao longo dos anos, estes países têm evitado fazê-lo. O poder de veto de que dispõem dá-lhes controlo efetivo sobre o processo no Conselho de Segurança.

Depois de formalizadas as candidaturas - que não podem resultar apenas da iniciativa individual de cada interessado e devem ser apresentadas por, pelo menos, um Estado-membro -, o Conselho de Segurança promove várias “votações informais”, nas quais os Estados membros assinalam se “encorajam”, “desencorajam” ou “não têm opinião” relativamente a cada candidato.

É precisamente nesta etapa que se encontra o processo. Seguir-se-ão em breve votações mais determinantes, eventualmente distribuídas por diversas rondas - Guterres só foi escolhido à sexta. Um candidato é eleito quando reúne nove votos favoráveis, desde que nenhum voto contra seja emitido por um membro permanente.

Atualmente, o Conselho de Segurança das Nações Unidas é composto pelos cinco membros permanentes com direito de veto - China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos - e pelos membros não permanentes Barém, Colômbia, República Democrática do Congo, Dinamarca, Grécia, Letónia, Libéria, Paquistão, Panamá e Somália. Portugal foi eleito para o biénio 2027-29, numa escolha posterior à eleição do secretário-geral.

“O processo está muito pouco claro em relação a quem poderá ser o próximo secretário-geral”, afirma ao Expresso Víctor Ângelo, que foi secretário-geral adjunto de Kofi Annan (1997-2007) e de Ban Ki-moon (2007-17). “Mas está claro em relação a alguns dos candidatos que provavelmente vão ser excluídos.”

No Conselho de Segurança, o voto é secreto. Para distinguir se as posições foram expressas ou não por membros permanentes, os cinco países utilizam boletins de uma cor diferente. Um candidato que receba um voto de “desencorajamento” num boletim da cor reservada aos permanentes terá enormes obstáculos para continuar na corrida. Na prática, o secretário-geral terá de ser escolhido com votos favoráveis ou abstenções dos cinco membros permanentes.

“Pode acontecer que os candidatos com mais probabilidades tenham cada um deles um veto. A partir dessa altura, estamos num impasse. E, havendo impasse, os cinco permanentes irão tentar encontrar outro candidato que não esteja na lista. Sobretudo, tendo em conta a posição do Presidente Donald Trump [dos EUA], que quer um candidato que, em grande medida, siga a linha que ele próprio define para as relações internacionais”, acrescenta.

Entre os sete concorrentes, três sobressaem, embora todos enfrentem reservas por parte de pelo menos um membro permanente do Conselho de Segurança.

REBECA GRYNSPAN

Antiga vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan nasceu em San José a 14 de dezembro de 1965. É filha de imigrantes polacos de origem judaica. Economista, ocupa desde 2021 o cargo de secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Participou nas negociações da Iniciativa dos Cereais do Mar Negro, estabelecida em 2022 entre a Rússia e a Ucrânia, e dirigiu a Secretaria-Geral Iberoamericana entre 2014 e 2021.

Grynspan tem sido apontada como a candidata mais bem posicionada, mas persistem interrogações sobre a posição de Washington. “Ela tem algumas dificuldades com os americanos. Consideram que não tem capacidade suficiente para fazer a reforma das Nações Unidas como eles querem. Tem uma posição bastante independente e firme, conhece bem o sistema das Nações Unidas, e não vai aceitar qualquer ideia bizarra que venha da Casa Branca. Não é considerada uma pessoa dócil em relação ao Presidente americano”, avalia Víctor Ângelo.

A candidata enfrenta ainda outro entrave: é judia. “No vejo os países árabes aceitarem que a China não vete uma candidata que tem culturalmente raízes judaicas. Essa é certamente uma das razões que faz com que ela possa não ter o voto chinês”, acrescenta o português.

RAFAEL GROSSI

Com nacionalidade argentina e italiana, Rafael Grossi nasceu em Buenos Aires a 29 de janeiro de 1961. Licenciado em Ciência Política pela Universidade Católica Argentina, seguiu a carreira diplomática e chegou a embaixador da Argentina na Áustria. É diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) desde 2019 e, nessa qualidade, esteve no centro de duas crises recentes: os riscos de segurança na central nuclear ucraniana de Zaporíjia após a invasão russa e o bloqueio em torno do programa nuclear iraniano que antecedeu a guerra de Israel e EUA contra o Irão.

“Dentro do Conselho de Segurança, a Rússia já disse que terá muita dificuldade em votar num candidato que tenha nacionalidade de um país da NATO ou de um país da União Europeia. Isso exclui imediatamente Rafael Grossi e Maria Fernanda Espinosa”, declara Víctor Ângelo.

Ainda que não o reconheça publicamente, Moscovo terá razões de conflito com Grossi. Depois de as forças russas terem assumido, em 2022, o controlo da central de Zaporíjia, a maior instalação nuclear da Europa, Grossi cruzou a frente de combate, deslocou-se à central e impôs a presença contínua de especialistas da AIEA para assegurar a estabilidade do material radioativo, inclusive durante os períodos de confrontos.

CAROLYN RODRIGUES-BIRKETT

Nascida em Santa Rosa a 16 de setembro de 1973, é representante permanente da Guiana junto das Nações Unidas desde 2020. Diplomata de carreira, foi ministra dos Negócios Estrangeiros deste Estado atlântico, antiga colónia britânica situada no nordeste da América do Sul. Frequentou Gestão de Empresas na Universidade de Regina, no Canadá, ao abrigo de uma bolsa destinada a ameríndios.

“Ela pode ter algumas hipóteses, mas, nos Estados Unidos, dentro do círculo à volta do Trump, há quem não goste das posições que tem tomado nas Nações Unidas, nomeadamente em relação a Israel”, diz Víctor Ângelo. A candidata recorreu ao termo “genocídio” durante os debates do Conselho de Segurança sobre Gaza e sustentou que o problema “não começou com o 7 de Outubro de 2023”. O veterano das Nações Unidas conclui: “É vista, quer pelos americanos quer pelos israelitas, como sendo pró-Palestina, e isso é um fator de eliminação muito grande.”

Os quatro restantes candidatos em competição parecem ter possibilidades mais reduzidas.

MARÍA FERNANDA ESPINOSA - Nasceu em Salamanca, Espanha, a 7 de setembro de 1964, numa altura em que os pais estudavam na cidade. Exerceu os cargos de ministra dos Negócios Estrangeiros e da Defesa do Equador, embaixadora equatoriana na ONU e presidente da Assembleia-Geral da organização. Foi apresentada como candidata por Antígua e Barbuda.

IVONNE A-BAKI - Antiga embaixadora do Equador nos Estados Unidos, em França e no Catar, nasceu em Guayaquil a 23 de fevereiro de 1951, filha de pais libaneses. Foi ministra das Indústrias e da Produtividade, bem como presidente do Parlamento. A nomeação partiu do arquipélago de Tonga, na Oceânia.

MACKY SALL - Nascido a 11 de dezembro de 1961, foi Presidente do Senegal de 2012 a 2024, depois de ter desempenhado as funções de primeiro-ministro e presidente da Assembleia Nacional. Os últimos anos da sua presidência ficaram marcados pela repressão de apoiantes da oposição, culminando no adiamento, por decreto presidencial, das eleições previstas para fevereiro de 2024. Formado em Engenharia Geológica, foi indicado pelo Burundi.

OLARA OTUNNU - É o mais velho dos sete candidatos. Nasceu em Mucwini, no Uganda, a 6 de setembro de 1950. Foi subsecretário-geral da ONU, representante especial para as crianças e os conflitos armados e ministro dos Negócios Estrangeiros durante a década de 1980. Em 2011, concorreu sem sucesso às eleições presidenciais do Uganda contra Yoweri Museveni, no poder desde 1986.

“Os candidatos masculinos, ambos africanos, não têm hipótese alguma. Há, neste momento, um consenso ao nível do Conselho de Segurança e, nomeadamente, dos cinco permanentes, que o próximo secretário-geral deve ser alguém da América Latina, e a ideia de que deve ser uma mulher também está a ganhar força”, afirma Víctor Ângelo.

A mais recente votação informal do Conselho de Segurança realizou-se na quarta-feira, 7 de outubro. Grynspan obteve o melhor resultado, com 9 votos de encorajamento e 6 de desincentivo; Baki registou 14 “nãos” e um voto neutro; Espinosa alcançou 3 “sins”, 9 “nãos” e 3 neutros; Grossi obteve 6 “sins”, 8 “nãos” e dois neutros; Otunno registou 3 “sins” e 12 “nãos”; Birkett teve 5 “sins”, 9 “nãos” e um neutro; Sall contou 5 votos a favor e 10 contra.

Em mais de 80 anos de existência das Nações Unidas, houve apenas um secretário-geral latino-americano: o peruano Javier Pérez de Cuéllar, que exerceu funções entre 1982 e 1991. Nenhuma mulher ocupou alguma vez o cargo. Na resolução de 5 de setembro de 2025, que deu início ao processo de seleção do sucessor de Guterres, a Assembleia-Geral registou “com pesar que nunca nenhuma mulher ocupou o cargo” e incentivou os Estados-Membros “a considerarem seriamente a nomeação de mulheres como candidatas”.

O facto de quatro dos sete candidatos serem mulheres e de quatro terem origem em países latino-americanos sugere que o 10.º secretário-geral da ONU poderá, com elevada probabilidade, ser uma mulher da América Latina.

Não existe uma norma formal, mas a ONU tem alternado historicamente personalidades de diferentes regiões no cargo. Como os três últimos secretários-gerais vieram de África (Kofi Annan), da Ásia (Ban Ki-moon) e da Europa Ocidental (António Guterres), a lógica da rotação geográfica apontaria agora para a América Latina. O grupo da Europa de Leste é o único que nunca teve um representante à frente da organização.

Contudo, “estamos perante um conjunto de candidatos que, por uma razão ou por outra, todos têm obstáculos junto dos membros permanentes”, conclui Víctor Ângelo. “Isso coloca a possibilidade de aparecer outro candidato que ainda não é conhecido.”

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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