A indústria automóvel chinesa enfrenta acusações de estar a exportar veículos usados que são, na prática, carros novos. Como o mercado interno não absorve a produção ao ritmo necessário, os stocks acumulam-se junto às fábricas. Para lidar com este excedente, a solução passa por canalizar os veículos para mercados internacionais.
O esquema foi denunciado em maio por Parker Shi, vice-presidente e responsável pelas operações internacionais da Great Wall Motors (GWM), e é agora detalhado por uma investigação da agência Reuters.
O que está em causa
Segundo a investigação, os veículos designados por “carros zero-quilómetros” são adquiridos e matriculados pelos próprios construtores logo após saírem da linha de montagem. Posteriormente, são exportados como usados, apesar de nunca terem circulado.
Com esta estratégia, as marcas conseguem aumentar os seus números de vendas e, em simultâneo, escoar modelos que não encontram procura no mercado doméstico.
De acordo com a Reuters, a Rússia, a Ásia Central e o Médio Oriente têm sido os principais destinos destes falsos usados. Esta prática já levou a Rússia e a Jordânia a modificar as regras de importação, numa tentativa de impedir distorções de preços nos respetivos mercados locais.
Problema nacional com solução local
O impacto desta prática também se faz sentir no mercado chinês. O governo central já a condenou, numa altura em que contribui para a descida dos preços e para uma guerra comercial interna particularmente intensa.
Ainda assim, vários governos locais estarão, em paralelo, a apoiar estas operações. A investigação da Reuters concluiu que pelo menos 20 administrações locais, incluindo importantes centros exportadores chineses como Guangdong e Sichuan, incentivam a exportação destes falsos carros usados.
Para estas autoridades, a prática é “essenciais para ir ao encontro dos ambiciosos objetivos de crescimento económico” definidos por Pequim. Para simplificar o processo, os governos locais criam licenças especiais, agilizam reembolsos fiscais, investem em infraestruturas de exportação e financiam inclusivamente eventos destinados a promover este tipo de negócio.
A abordagem teve início em 2019, quando a China autorizou a exportação de carros usados para outros países. Contudo, ganhou maior ritmo com a sobrecapacidade produtiva de algumas marcas automóveis chinesas. “Este é o resultado de uma guerra de preços com quase quatro anos que obrigou as empresas a procurarem por qualquer venda possível”, Tu Le, consultor na Sino Auto Insights.
Política e economia de mãos dadas
Exportar carros usados com zero-quilómetros representa mais do que uma manobra puramente comercial: tornou-se igualmente uma necessidade política.
Na China, o desempenho económico serve de critério para avaliar os governos locais. Quando demonstram crescimento nas vendas e nas exportações, podem receber mais fundos ou até promoções. Caso falhem, arriscam perder financiamento e ver os seus líderes substituídos.
A agência noticiosa refere que algumas empresas conseguem inflacionar em até duas vezes o impacto no Produto Interno Bruto (PIB) através deste mecanismo: a compra do veículo é registada como uma venda e a sua exportação imediata é contabilizada como outra. No papel, surgem duas vendas, embora o automóvel nunca tenha sido utilizado.
Uma preocupação com o futuro
No início do mês, Cui Dongshu, secretário-geral da Associação de Carros de Passageiros da China, elogiou esta prática, defendendo que constitui uma via alternativa para os construtores automóveis chineses entrarem em determinados mercados estrangeiros, onde enfrentam barreiras comerciais.
Mas não existe consenso. Xing Lei, consultor da AutoXing, adverte que esta manipulação poderá abalar a confiança dos investidores estrangeiros nos resultados divulgados pelos construtores chineses.
“Quantos destes carros foram realmente vendidos? E quantos são números inflacionados? Ninguém sabe”, disse Xing Lei. Numa fase em que as marcas chinesas conseguem conquistar um número crescente de consumidores graças à qualidade e à tecnologia, sobretudo na Europa, esta nuvem no horizonte poderá não ser a notícia que consumidores e investidores ocidentais desejam ouvir.






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