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Retiros espirituais: entre a pausa e o grande negócio

Jovem sentado em posição de meditação num tapete ao ar livre, com montanhas e vegetação ao fundo.
Neste artigo
  1. Retiros, pausa e descanso
  2. O preço da cura e dos coaches
  3. Do “Sentido Pleno” ao portal energético

Há propostas para todos os perfis. No fim do retiro chamado “Sentido Pleno”, uma participante aceita ser filmada e afirma: “trago as pessoas, as caminhadas, as aprendizagens”. É uma resposta sincera. Ao menos não declara que se “reconectou consigo mesma”, fórmula que coaches, facilitadores terapêuticos e gurus nunca contestados comercializam a quem adere ao pacote regenerador. A senhora limita-se a enumerar o que mais apreciou no retiro em que esteve. Para um dia de atividades, o preço pareceu-me aceitável.

A internet está cheia de publicidade a retiros em hotéis, moinhos, jardins, casas particularmente bem situadas em plena natureza, praias tranquilas e isoladas. Prometem reconexão com o eu interior, ligação aos outros, partilha, proximidade à natureza, práticas rituais, talvez com a “tribo”, xamânicas ou simplesmente de ioga ou pilates, acompanhadas de comida caseira, saudável ou vegana.

Encontrei um retiro à beira-mar que se propõe fazer um reset para “regressar ao essencial, deixando o mar guiar o ritmo dos dias”. Quem se inscreve recebe “três dias de ioga ao amanhecer e sound healing sob as estrelas”. Sound healing faz-me pensar em taças tibetanas. Para participar numa coisa destas, teriam de me pagar acima do máximo. Há ainda outro que anuncia massagem ancestral, aromaterapia, rituais aiurvédicos, mantras, incensos, velas e sininhos. Tudo em nome de nutrir o corpo e a mente, de reconectar.

Retiros, pausa e descanso

Não tenho objeções a que alguém pare durante um fim de semana, se afaste da rotina e descanse verdadeiramente. Que durma bem. Que faça ioga e reflita, em grupo, sobre os motivos que levam aos retiros e sobre o estado em que se encontra. Uma interrupção genuína. Nas cidades, vive-se sob pressão contínua. O ruído, a confusão do trânsito, o consumo de séries violentas e distópicas nas plataformas de streaming e as brutalidades do real tiram-nos depressa o equilíbrio. Mas há limites. Basta investigar os sites destes retiros, ler as brochuras de apresentação e consultar os preços para perceber rapidamente onde começa o embuste. Valores excessivos, atitudes de seita e ativações da Kundalini exigem prudência.

Não tenho nada contra a ideia de se parar num fim de semana, sair da rotina e descansar a sério. Dormir bem. Fazer ioga, refletir em conjunto sobre o que nos leva aos retiros, sobre o estado em que estamos

A procura de retiros revela, até certo ponto, uma crise de confiança na espiritualidade canónica. Igrejas, não; padres e pastores, é melhor evitá-los. Porém, um terapeuta caído do céu, que prescreve atos, gestos, palavras e pensamentos, consegue substituí-los, dando a impressão de que se está no comando. É preciso olhar de fora para compreender a devoção e o entusiasmo suscitados por estes mortais que se investem a si próprios de saber e poder.

O preço da cura e dos coaches

Os fins de semana ou retiros de três dias, de sexta-feira a domingo, custam entre 500 e 700 euros para os candidatos low cost. Não incluem luxos. Os alojamentos serão espartanos. Num deles, quem vem de longe - imagino que todos - pode dormir num saco-cama na sala das sessões. Mediante o pagamento do respetivo valor xis. Estes retiros acontecem em locais geograficamente afastados, por vezes sem transportes disponíveis. Ainda assim, é preciso pagar a “cura”, as refeições saudáveis e, acima de tudo, a mestria dos coaches. Alguns publicaram livros em edições de autor sobre a sua filosofia de vida e, na maioria dos casos, parecem mafiosos mitómanos musculados graças às máquinas. As terapeutas, por sua vez, fazem frequentemente lembrar professoras de Educação Física do secundário ou professoras primárias doces e sensatas.

Do “Sentido Pleno” ao portal energético

Não pretendo censurar os retiros, colocando-os indiscriminadamente todos no mesmo saco, porque existem alguns bastante aceitáveis. O “Sentido Pleno”, mencionado no início, define-se como “um dia passado com consciên­cia e intenção”, no qual o movimento, o autocuidado e a pausa abrem espaço para “te escutares”. A proposta passa por abrandar, respirar e “voltarmos a nós de forma guiada e sustentada”.

Traduzindo a ideia, percebo que haverá, além de um brunch, uma sessão de pilates e um ritual de skincare, o que deverá ser repousante. E também meditação, conversa, reflexão e partilha de experiên­cias. No final, cada participante poderá regressar “à vida com clareza, presença e consciência sobre aquilo que queremos priorizar”. A apresentação deste modesto retiro, de preço não inflacionado, está cheia do vocabulário próprio do modo retiro: a pausa, a respiração consciente, a nutrição do corpo e do espírito, o autocuidado e a inclusão de exercícios que são sempre qualquer coisa healing.

Outros cheiram-me mais a viagem psicadélica. Um, muito anunciado, chama-se evento e recebe o nome do ato de respirar numa outra língua, prometendo hackear a mente durante três horas. Tem marca registada. No vídeo surge uma sala ampla, repleta de pessoas relativamente jovens, sentadas ou deitadas no chão, em penumbra, com auriculares iluminados, como se estivessem num estúdio de som. Deles saem ruídos selecionados por um “mestre”. Em transe, as pessoas mexem-se pelo chão ou permanecem de pé, agarradas ao peito. Há equipas de apoio para os transformandos. Pessoas com problemas cardíacos ou respiratórios são avisadas de que não devem participar.

Lê-se que se trata de “um portal energético de intenção”, de “neurociência aplicada”, de “uma cerimónia de transformação pessoal” e de conexão com “sons ancestrais”. Trabalha-se a “respiração conscien­te através de frequências, sons binaurais, música 432 Hz, som 8D, white noise, meditação profunda e PNL”. O que vejo é muita gente a viver uma experiência extrema através dos sons e, sobretudo, um enorme negócio.

Neste momento

João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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