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Fórmula 1 celebra 80 anos com uma nova era

Carro de Fórmula 1 branco com detalhes vermelhos exposto num salão com pessoas ao fundo.
Neste artigo
  1. À boleia da Netflix
  2. Audi em estreia na Fórmula 1
  3. “Ganhar ao domingo, vender na segunda”

Este ano, o Campeonato do Mundo de Fórmula 1 celebra 80 anos, após ter nascido em 1946 sob a égide da então recém-criada Federação Internacional do Automóvel (FIA). Depois das primeiras temporadas ainda embrionárias, Juan Manuel Fangio afirmou-se rapidamente como uma figura central, colocando o seu talento ao serviço da Alfa Romeo a partir da década de 1950.

Oito décadas volvidas, pouco aproxima as provas desses pioneiros destemidos, que arriscavam a própria vida, dos monolugares atuais, extremamente sofisticados e seguros. Além das quatro rodas, do volante e do lugar reservado exclusivamente ao piloto, as diferenças são enormes. O último acidente mortal ocorreu há 32 anos, quando Ayrton Senna perdeu a vida na curva Tamburello, no GP de Imola.

Apesar dos seus períodos de maior e menor fulgor, a F1 mantém-se como a grande referência mundial do desporto automóvel. Pode mesmo dizer-se que é hoje mais global do que alguma vez foi, graças a uma distribuição geográfica mais equilibrada das corridas, com a caravana a deslocar-se regularmente pela Ásia, Médio Oriente e Américas.

Naturalmente, uma parte desta descentralização resulta dos interesses económicos de mercados emergentes - e de outros já consolidados -, mais do que de uma intenção da FIA de aproximar de forma equitativa a disciplina-rainha dos seus milhões de adeptos espalhados pelo mundo.

E nem sequer a força financeira basta para garantir a presença do circo da Fórmula 1 num determinado país. A atual ausência de um GP da Alemanha, o maior mercado europeu e berço de alguns dos mais importantes fabricantes automóveis mundiais, é prova disso.

À boleia da Netflix

Enquanto a Fórmula E continua a enfrentar obstáculos na conquista de notoriedade, a F1 tem multiplicado a sua base de seguidores. Muito desse impulso deve-se ao êxito da série da Netflix Drive to Survive, já na 8.ª temporada, que levou a modalidade a uma audiência muito mais ampla. O recente filme protagonizado pelo ainda cintilante Brad Pitt também contribuiu para essa dinâmica.

A verdade é que, mesmo quando se debate o momento em que será declarada a morte dos motores de combustão - na Europa, entenda-se -, pela primeira vez estão alinhadas na grelha deste Mundial oito marcas de grande prestígio com presença nas estradas: Mercedes-AMG, Ferrari, Audi, McLaren, Aston Martin, Alpine, Toyota, em parceria com a Haas, e Cadillac.

A este grupo de peso somam-se a Honda, associada à Aston Martin, e a Ford, ligada à Red Bull, enquanto fornecedoras de motores. Como manda a tradição, a ação começa em Melbourne, no GP da Austrália, entre 6 e 8 de março.

Audi em estreia na Fórmula 1

A estreia da Audi na Fórmula 1, este ano, está a gerar expectativa, sobretudo por ter chegado antes da Porsche. A marca não só ultrapassou a sua «marca-irmã» no acesso a este palco, como fará a sua primeira participação absoluta na modalidade, aproveitando as estruturas remanescentes da equipa Sauber.

É claro que a Audi - tal como a Cadillac, outra estreia em 2026 que pretende reforçar a projeção da F1 nos Estados Unidos - terá reduzidas hipóteses de vencer logo no primeiro ano. A crença generalizada é que as novas equipas dificilmente integrarão o grupo da frente antes da terceira temporada, pelo que não será de esperar que tal aconteça no respetivo ano de batismo.

Ainda assim, ambas prometem uma ligação duradoura à Fórmula 1 e apontam à conquista de um Campeonato do Mundo até ao final da década.

Mantém-se, porém, a pergunta: de onde surge este entusiasmo renovado pela F1? Carlos Tavares, diretor executivo da Stellantis até ao final de 2024 e conhecido pela sua rigorosa política de redução de custos, sintetizou-o de forma clara no termo do seu mandato à frente de um dos maiores grupos automóveis mundiais: “Quem quer ser reconhecido globalmente no desporto automóvel simplesmente não pode ignorar a F1. É caro - muito caro -, mas, no final de contas, vale a pena.”

A razão é simples: nem o WEC (Campeonato do Mundo de Resistência), a IMSA, a IndyCar, o WRC (Campeonato do Mundo de Ralis), a NASCAR ou a Fórmula E, criada para acelerar a aceitação da eletromobilidade, se aproximam do reconhecimento internacional da F1.

“Ganhar ao domingo, vender na segunda”

Para os construtores automóveis, é decisivo cultivarem a imagem de empresas capazes de desenvolver tecnologia e de competir ao mais alto nível perante as melhores marcas do planeta. Procuram, assim, prolongar o histórico lema “ganhar no domingo, vender na segunda-feira”, tanto mais que os monolugares de Fórmula 1 recorrem há vários anos a unidades de propulsão híbridas.

Nesta temporada, a potência do motor turbo a gasolina de 1,6 litros foi substancialmente reduzida, enquanto a do motor elétrico integrado no sistema híbrido aumentou de forma significativa.

A evolução não deixa de gerar críticas, inclusive de pilotos com o peso de Max Verstappen e Lewis Hamilton, que somam 11 títulos mundiais entre ambos. Os dois acusam a F1 de se aproximar de uma espécie de Fórmula E e consideram que os carros estão tão lentos como os de Fórmula 2. Ainda assim, a eletrificação continua a conquistar espaço.

Fica por perceber se esta eletrificação crescente da F1 poderá afastar os espectadores dos circuitos e reduzir as audiências televisivas. Estas cresceram muito na última década, impulsionadas por novas tecnologias de transmissão capazes de manter interessantes as quase duas horas de corrida, mesmo nas ocasiões em que a prova em pista não oferece grande emoção. Se isso vier a acontecer, talvez nem a Netflix consiga resolver o problema…

A resposta será dada pelas 24(!) corridas da temporada de 2026, incluindo seis corridas sprint em fins de semana de jornada dupla. O calendário não contará com o GP de Imola, em Itália, que será substituído por uma prova num novo circuito urbano bem mais próximo de nós, em Madrid.

Neste momento

João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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