As bactérias estão a afirmar-se rapidamente como uma nova categoria de «medicamentos vivos» capazes de eliminar células cancerígenas.
Ainda estamos muito longe de uma «cura» para o cancro.
Mas, um dia, poderemos dispor de bactérias programáveis e capazes de se orientar sozinhas: encontrarão tumores, libertarão o tratamento apenas onde for necessário e desaparecerão depois sem deixar rasto.
Eis o ponto de situação da ciência.
Os tratamentos atuais têm limitações
Muitos tumores são difíceis de tratar. Por vezes, os tratamentos não conseguem penetrá-los. Noutras situações, os tumores conseguem «contra-atacar», suprimindo determinadas componentes do sistema imunitário e diminuindo a eficácia dos tratamentos. Podem ainda desenvolver resistência às terapêuticas.
A utilização de bactérias poderá ajudar a ultrapassar estes obstáculos.
Há mais de um século, cirurgiões repararam que algumas pessoas com cancro que contraíam infeções bacterianas entravam inesperadamente em remissão. Isto significa que os sinais ou sintomas do cancro diminuíam ou desapareciam.
Hoje, estamos a compreender melhor o que poderá explicar este fenómeno. Em termos gerais, as bactérias podem ativar o sistema imunitário para atacar as células cancerígenas.
Na realidade, esta abordagem já é aplicada em contexto clínico. Em todo o mundo, as bactérias são atualmente o tratamento de eleição em determinados casos de cancro da bexiga. Quando os médicos introduzem, através de um cateter, uma versão enfraquecida de Mycobacterium bovis diretamente na bexiga, a resposta imunitária do organismo destrói o cancro.
Porque podem as bactérias combater o cancro?
Certas bactérias têm uma capacidade invulgar: conseguem localizar e crescer naturalmente no interior de tumores sólidos - aqueles que se desenvolvem em órgãos e tecidos -, deixando os tecidos saudáveis relativamente intactos.
Os tumores sólidos constituem habitats ideais para estas bactérias, pois contêm muitos nutrientes provenientes de células mortas, têm pouco oxigénio - um ambiente de que estas bactérias gostam - e, habitualmente, apresentam uma função imunitária reduzida, não conseguindo defender-se das bactérias.
Tudo isto aponta para uma possível função destas bactérias como veículos de entrega de terapias antitumorais direcionadas.
Ao longo de cerca de 30 anos, mais de 500 artigos científicos, 70 ensaios clínicos e 24 empresas emergentes concentraram-se na terapia bacteriana do cancro, um crescimento que se acelerou acentuadamente nos últimos cinco anos.
A maioria das terapias bacterianas contra o cancro atualmente em ensaios clínicos visa tumores sólidos, incluindo cancros do pâncreas, do pulmão e da cabeça e pescoço, tipos que frequentemente resistem aos tratamentos convencionais.
As bactérias podem transportar vacinas contra o cancro
As vacinas contra o cancro funcionam ao apresentar ao sistema imunitário as «impressões digitais» moleculares únicas de um cancro, conhecidas como antigénios tumorais, para que possa procurar e eliminar as células tumorais que exibem esses antigénios.
As bactérias podem atuar como veículos destas vacinas anticancerígenas. Recorrendo à engenharia genética, é possível remover as instruções genéticas, ou ADN, de bactérias que nos poderiam fazer adoecer e substituí-las por ADN que codifica antigénios tumorais estimuladores do sistema imunitário.
Listeria monocytogenes é a principal protagonista em mais de 30 ensaios clínicos de vacinas contra o cancro. Infelizmente, a maior parte destes ensaios não demonstrou que estes tratamentos funcionam melhor do que os atualmente disponíveis.
O desafio consiste em ensinar o sistema imunitário a reconhecer com intensidade suficiente os antigénios reveladores do cancro, para que se lembre deles, sem levar o organismo a uma ativação excessiva perigosa.
As bactérias podem reforçar terapias existentes contra o cancro
Quase metade dos ensaios clínicos atuais que usam bactérias em terapias contra o cancro combinam-nas com imunoterapias ou quimioterapia, integrando planos de tratamento personalizados para intensificar o ataque do organismo ao cancro.
Várias abordagens concluíram ensaios clínicos de fase 2. Entre elas está a combinação de imunoterapia com Listeria modificada para ativar o sistema imunitário em casos de cancro do colo do útero recorrente.
Outro ensaio utilizou Salmonella modificada em pessoas com cancro do pâncreas avançado, juntamente com quimioterapia, para aumentar a sobrevivência.
As bactérias podem ser «micróbios como medicamentos»
Equipar bactérias com um fármaco permitiria destruir o tumor a partir do seu interior, criando «micróbios como medicamentos».
Para isso, precisamos de um controlo genético preciso sobre o comportamento das bactérias. Os investigadores já conseguem reprogramá-las para detetar, processar e responder aos sinais moleculares existentes em redor do tumor.
Também é possível conceber bactérias para se autodestruírem após entregarem um fármaco, segregarem moléculas que reforçam a resposta imunitária ou ativarem outras terapias mediante ordem.
Os investigadores estão a criar estirpes «multifunções» que conjugam, em simultâneo, várias estratégias de tratamento.
Espécies probióticas utilizadas em seres humanos há muitos anos também são candidatas, incluindo Escherichia coli Nissle, Lactobacillus e Bifidobacterium. Podem ser modificadas para produzir moléculas que eliminam o cancro ou para alterar o ambiente à volta do tumor.
Quão perto estamos, na verdade?
Embora os primeiros ensaios em humanos tenham demonstrado que esta abordagem é, em geral, segura, encontrar a dose adequada continua a exigir um equilíbrio delicado.
As bactérias são também entidades vivas que podem evoluir de formas imprevisíveis, pelo que a sua utilização em seres humanos requer controlos de segurança rigorosos. Mesmo as estirpes alteradas para serem seguras podem provocar infeções ou desencadear uma inflamação excessiva.
Por isso, os cientistas estão a desenvolver estratégias de «biocontenção» - salvaguardas concebidas para impedir a disseminação das bactérias para além dos tumores ou para as levar a autodestruírem-se após o tratamento.
Mesmo que consigamos resolver estas questões, estes «medicamentos vivos» terão ainda de concluir com sucesso os ensaios clínicos e obter aprovação regulamentar antes de serem habitualmente utilizados na prática clínica.
Se tal acontecer, poderá representar uma mudança profunda na forma como tratamos o cancro: passar de fármacos estáticos para sistemas biológicos adaptativos.
Josephine Wright, investigadora sénior, Instituto de Saúde e Investigação Médica da Austrália do Sul; e Susan Woods, professora associada, investigadora da GESA Bushell, Universidade de Adelaide, e investigadora principal em Medicina de Precisão do Cancro, Instituto de Saúde e Investigação Médica da Austrália do Sul
Este artigo é republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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