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A criatividade pode abrandar o envelhecimento cerebral

Três mulheres de idades diferentes montam um puzzle colorido numa mesa numa sala iluminada.
Neste artigo
  1. O que é a saúde cerebral?
  2. O que pretendiam descobrir sobre a criatividade e o cérebro?
  3. Como realizaram o estudo?
  4. O que descobriram?
  5. Porque é isto importante?

A experiência criativa poderá melhorar a saúde cerebral e, desse modo, abrandar o envelhecimento do cérebro. É essa a conclusão de um estudo realizado por uma equipa internacional de cientistas de 13 países.

Os investigadores descobriram que atividades criativas, como aulas de dança - com destaque para a eficácia do tango -, aulas de artes ou de música e passatempos como os videojogos, tiveram um efeito positivo num «relógio cerebral» baseado em inteligência artificial (IA).

Além disso, quanto mais os participantes praticavam a sua forma de expressão artística, mais «jovens» eram os seus relógios cerebrais.

Pedimos aos investigadores principais, os neurocientistas Carlos Coronel e Agustín Ibáñez, que explicassem o estudo.

O que é a saúde cerebral?

A saúde cerebral corresponde ao estado de funcionamento cognitivo, emocional e social que permite às pessoas concretizar o seu potencial, preservar o bem-estar e adaptar-se às mudanças ao longo da vida.

Não se define pela ausência de doença, mas sim pela capacidade do cérebro de manter uma atividade eficiente, resiliente e integrada que sustente a vida quotidiana.

O envelhecimento cerebral consiste nas alterações biológicas e funcionais que ocorrem no cérebro com o passar do tempo. Abrange mudanças na estrutura, na conectividade e no metabolismo, que podem ou não prejudicar o desempenho.

Embora algum declínio seja natural, a velocidade e o padrão destas alterações variam bastante de pessoa para pessoa, refletindo tanto a vulnerabilidade como a resiliência de cada uma.

Os «relógios cerebrais» são modelos de aprendizagem automática (IA) concebidos para estimar a idade aparente de um cérebro, com base em exames cerebrais ou padrões de atividade neuronal. Para isso, comparam dados de neuroimagem, eletrofisiológicos ou neuromoleculares com os padrões cerebrais normais ao longo da vida.

Assim, podemos recorrer a um relógio cerebral para procurar compreender o que torna o cérebro mais resiliente e o que acelera o seu envelhecimento.

O que pretendiam descobrir sobre a criatividade e o cérebro?

Queríamos perceber se a criatividade, além de ser divertida ou emocionalmente gratificante, também traz benefícios biológicos ao cérebro. Há cada vez mais provas de que o envolvimento nas artes favorece o bem-estar, mas ainda nos falta uma compreensão sólida da forma como a criatividade pode influenciar a saúde cerebral.

Muitas pessoas consideram a arte demasiado misteriosa e intangível para ser estudada cientificamente ou para produzir uma diferença biológica. Quisemos pôr à prova ambas as ideias.

Será que as experiências criativas, alegres e profundamente humanas, também podem ser medidas no cérebro? Poderão ajudar a atrasar o envelhecimento cerebral, tal como o exercício físico ajuda o corpo?

O nosso estudo testou a possibilidade de a criatividade influenciar o relógio cerebral. Se esse relógio indicar uma idade inferior à idade real de uma pessoa, isso significa que o seu cérebro funciona com mais eficiência do que seria esperado.

Como realizaram o estudo?

Recolhemos dados de quase 1.400 pessoas em vários países. Algumas eram especialistas em tango, música, artes visuais ou videojogos. As restantes eram pessoas sem experiência anterior nas respetivas disciplinas, dos mesmos países e com idades, níveis de escolaridade e género equivalentes aos dos especialistas.

Registámos a atividade cerebral dos participantes através de técnicas chamadas magnetoencefalografia e eletroencefalografia, que permitem medi-la em tempo real. Em seguida, treinámos modelos informáticos de aprendizagem automática para criar um relógio cerebral para cada participante.

Os modelos podem ser treinados em menos de uma hora. O desafio foi recolher os dados de centenas de participantes, da Argentina à Polónia. Isso teria sido impossível sem a colaboração de muitos investigadores e instituições de todo o mundo.

Usámos depois os relógios cerebrais para prever a idade de cada pessoa a partir dos seus dados. Quando a idade cerebral prevista era inferior à idade real, isso significava que o cérebro estava a envelhecer mais lentamente.

Por fim, recorremos à chamada modelação biofísica. Estes modelos são «cérebros digitais», que utilizámos para compreender a biologia subjacente à criatividade.

O problema dos modelos de aprendizagem automática, os «relógios cerebrais», é que, embora consigam aprender padrões nos dados para fazer previsões, não conseguem reproduzir a atividade cerebral real.

Já os modelos biofísicos são cérebros «reais» num mundo digital: cópias espelhadas do cérebro dentro de um computador. Utilizam regras biológicas e físicas detalhadas para simular o seu funcionamento. Não são, portanto, modelos de IA. São «modelos generativos» que conseguem efetivamente gerar atividade cerebral a partir de equações matemáticas.

Enquanto os relógios cerebrais permitem medir a saúde cerebral, identificando um envelhecimento acelerado ou atrasado, os modelos biofísicos podem explicar por que razão a criatividade está associada a uma melhor saúde cerebral.

O que descobriram?

Em todas as áreas criativas, o padrão foi surpreendentemente consistente: a criatividade estava associada a um cérebro de aparência mais jovem.

Os cérebros dos bailarinos de tango pareciam ter mais de sete anos a menos do que a sua idade cronológica. Os dos músicos e artistas visuais aparentavam menos cerca de cinco a seis anos e os dos jogadores de videojogos, cerca de quatro anos.

Realizámos também uma experiência mais pequena, na qual pessoas sem experiência treinaram durante apenas 30 horas no videojogo de estratégia StarCraft II, para verificar se a aprendizagem criativa a curto prazo poderia produzir efeitos semelhantes.

Mesmo nessa experiência de curta duração, após apenas 30 horas de treino criativo, os relógios cerebrais dos participantes recuaram, indicando uma redução da idade cerebral entre dois e três anos.

Quanto mais as pessoas praticavam a sua arte, mais forte era o efeito. E o tipo de arte não fazia diferença: podia ser dança, pintura, música ou videojogos. Todas ajudaram áreas cerebrais essenciais a trabalhar melhor em conjunto.

Estas áreas, importantes para a concentração e a aprendizagem, costumam ser as primeiras a envelhecer, mas a criatividade parece manter as suas ligações mais fortes e flexíveis.

Concluímos que a criatividade protege as áreas cerebrais vulneráveis ao envelhecimento e torna a comunicação no cérebro mais eficiente. É semelhante a construir mais estradas, maiores e de melhor qualidade, para ligar as cidades de um país.

Porque é isto importante?

As artes e as ciências, tantas vezes vistas como opostas, são na verdade aliadas. A criatividade molda não só a cultura, mas também a biologia. O nosso estudo apresenta-a como uma via biológica para a saúde e a resiliência cerebral, e não apenas como um fenómeno cultural ou psicológico.

Ao mostrar que o envolvimento artístico pode atrasar o envelhecimento cerebral, esta investigação ajuda-nos a repensar o papel da criatividade na educação, na saúde pública e nas sociedades envelhecidas.

Numa perspetiva mais ampla, alarga a nossa compreensão do envelhecimento saudável para além da prevenção da doença. Destaca a criatividade como um mecanismo escalável, acessível e profundamente humano para manter o bem-estar cognitivo e emocional em populações diversas e ao longo da vida.

Por isso, se está a perguntar-se se ser criativo «lhe faz bem», a resposta parece ser «sim»: de forma científica, mensurável e bela. O seu próximo passo de dança, pincelada ou nota musical poderá ajudar o seu cérebro a manter-se um pouco mais jovem.

Carlos Coronel, investigador de pós-doutoramento no Instituto Latino-Americano de Saúde Cerebral da Universidade Adolfo Ibáñez, e Agustín Ibáñez, professor de Saúde Cerebral Global no Instituto Global de Saúde Cerebral, Trinity College.

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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