Embora a maioria dos pais reconheça a importância da educação sexual, os estudos indicam que estas conversas poucas vezes têm lugar em casa.
Sem acesso a educação sexual adequada à idade, assente em evidência e transmitida por fontes e adultos em quem confiam, os jovens tendem a aprender através do que encontram online - que, em muitos casos, é pornografia. O consumo de pornografia durante a adolescência está relacionado com diversas experiências sexuais, desde a violência à misoginia e à objetificação das mulheres.
Por isso, impõe-se uma questão essencial: queremos ser nós a explicar ou preferimos deixar essa tarefa para os outros?
Tudo começa pelo corpo e pelas palavras
Para o pediatra, a educação sexual começa quando as crianças passam a conhecer o seu próprio corpo. Dar o nome correto a todas as partes do corpo, incluindo os genitais, constitui um dos primeiros passos.
“Conhecerem-se a si próprias é o primeiro conceito que se deve passar”, refere.
Depois disso, a aprendizagem avança de forma natural para a maneira como nos relacionamos com os outros, com respeito pelos limites e pela privacidade.
A dificuldade está nos pais, não nas crianças
Ao longo do episódio, aborda-se a ideia de que o obstáculo a falar sobre sexualidade não está nas crianças, mas nos pais.
“Os pais têm vontade, mas não sabem como fazer”, diz Hugo Rodrigues.
Muitos adultos cresceram sem uma educação sexual estruturada e continuam a lidar com tabus e constrangimentos que tornam estas conversas mais difíceis. Quando não obtêm respostas em casa, os jovens procuram informação noutros espaços, muitas vezes na internet e nem sempre através de conteúdos apropriados.
Os pais e o desafio de falar sobre sexualidade
O episódio volta a sublinhar que não são as crianças que dificultam a conversa sobre sexualidade: são, sobretudo, os pais.
“Os pais têm vontade, mas não sabem como fazer”, diz Hugo Rodrigues.
Sem educação sexual estruturada na sua infância, muitos pais mantêm tabus e embaraços que condicionam o diálogo. Perante a ausência de esclarecimentos em casa, os jovens acabam por recorrer a outros locais, frequentemente online, onde os conteúdos nem sempre são adequados.
Internet e pornografia: uma realidade impossível de ignorar
O contacto precoce com a internet e com a pornografia é atualmente uma das preocupações mais relevantes para os profissionais de saúde.
“Qualquer criança tem acesso a conteúdos sobre sexo e pornografia”, alerta o pediatra.
Face a este cenário, limitar a resposta à proibição não é suficiente.
“Não é possível travar completamente o acesso. Temos de preparar os jovens para o que vão encontrar”, defende.
Isso exige que se fale do tema sem rodeios, que se explique que a pornografia não corresponde à realidade e que se desenvolva literacia digital, ou seja, a capacidade de questionar e interpretar os conteúdos consumidos.
Consentimento: uma aprendizagem desde cedo
Outro dos temas centrais da conversa é a aprendizagem do consentimento. Não se trata apenas de um conceito associado à sexualidade, mas de uma competência nas relações que deve ser desenvolvida desde os primeiros anos.
“Ninguém te pode fazer mal e deves ser capaz de dizer isso”, resume Hugo Rodrigues.
Ensinar uma criança a identificar os seus limites e a manifestá-los é indispensável para construir relações saudáveis.
O prazer também deve entrar na conversa
Num podcast que coloca o prazer no centro da discussão, este episódio reconhece igualmente o seu lugar na educação sexual.
“As nossas decisões são muitas vezes guiadas pelo prazer”, explica o pediatra.
Incluir esta dimensão no diálogo permite que crianças e adolescentes compreendam melhor os próprios comportamentos e façam escolhas mais informadas.
Mais do que conversar, é preciso preparar
Ao longo do episódio, torna-se evidente que a educação sexual vai além da transmissão de informação. Consiste em preparar as crianças para entenderem o corpo, as emoções e as relações.
Essa preparação deve iniciar-se cedo, muito antes da adolescência. A mensagem final é simples, embora exigente: os pais não têm de saber todas as respostas, mas precisam de se mostrar disponíveis para conversar.
Como Mafalda Cruz resume durante o episódio, a questão não é tanto quando os filhos irão aprender sobre sexualidade, mas com quem.
Pontos altos da conversa:
“Os pais estão muito preocupados com a conversa [sobre sexualidade]. E não é uma conversa, isto é uma construção de conceitos que vão fazer com que essa conversa não precise de acontecer”
“Há um conceito que é muito valioso e que os pais raramente ensinam aos filhos que é: ninguém te pode fazer mal”
“Esta competência social do saber dizer \"não\", principalmente a pessoas em quem eles confiam, é importante e os pais às vezes esquecem-se disto”
“Nós, adultos, quando falamos sobre um tema delicado com crianças, o nosso maior receio é que perguntas é que eu vou suscitar naquela cabeça e que depois ele me vai devolver?”
“Juntem-se com três ou quatro pais dos amigos dos vossos filhos e tenham uma atitude conjunta. Vai ser muito mais fácil”
“Os ecrãs são um entrave muito grande ao desenvolvimento da linguagem não verbal e da inteligência emocional que é provavelmente a pedra basilar para qualquer tipo de relação”
“Quando falamos de telemóveis e dispositivos ligados à internet, tem de haver proibição. Isto defende o superior interesse da criança”
“Quem quiser ter um telemóvel tem um telemóvel de teclas. Eu sei que há gente aqui que vai achar que eu sou um dinossauro por dizer isto”
“É muito importante nós ensinarmos os nossos filhos desde o início que \"o que te parece que é errado, não vejas, passa à frente nas redes sociais, denuncia. Isto é literacia digital”
“Todas as pessoas agem por prazer e nós, no nosso dia a dia, estamos constantemente a agir por prazer. As nossas decisões são baseadas no prazer que temos”
O Prazer é Todo Meu é um podcast dedicado à saúde sexual, às relações e à intimidade, criado para promover a literacia em saúde sexual através de uma abordagem científica, acessível e empática. O objetivo passa por desmistificar conceitos, quebrar tabus e estimular a discussão sobre prazer, consentimento, disfunções sexuais e bem-estar emocional.
Em cada episódio, a médica Mafalda Cruz revela aquilo que habitualmente não se diz sobre sexo, dor e relacionamentos.
'O Prazer É Todo Meu' reúne especialistas convidados e histórias reais. Porque todos temos uma sexualidade para explorar sem filtros. Todas as terças-feiras há um novo episódio no Expresso e na sua aplicação de podcasts.






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