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Marcas chinesas em Portugal: vendem muito ou pouco?

Carro elétrico branco CN-V 2024 exibido em espaço interior moderno com janelas e painéis digitais.
Neste artigo
  1. Marcas chinesas e a necessidade de diferenciação
  2. As vendas de carros chineses em Portugal
  3. O paralelo com Espanha e a Europa

Não perdemos a conta às marcas chinesas que desembarcaram recentemente no mercado português apenas porque faz parte do nosso trabalho não deixar nenhuma para trás. E não deixámos. Recapitulando: BYD, MG, XPeng, Dongfeng, Leapmotor, Aiways, Forthing, Voyah, M-Hero e Maxus*.

Depois de tantos anos a falar das mesmas marcas - várias delas com mais de um século de existência -, a turma ganhou muitos alunos novos. Alguns revelam-se bastante promissores, outros continuam num período de adaptação, mas quase todos já demonstraram aquilo de que são capazes.

Marcas chinesas e a necessidade de diferenciação

Sei que é injusto meter todas as marcas chinesas no mesmo «saco». Não são idênticas, não partilham a mesma dimensão nem ocupam o mesmo posicionamento no mercado. Contudo, essa perceção diferenciada ainda não está consolidada.

Com a possível exceção da BYD, associada à tecnologia, e da MG, ligada ao preço, as restantes continuam a ter pouca relevância - ou diferenciação - na perspetiva dos consumidores. Cada uma terá de provar que não é “farinha do mesmo saco”. É precisamente nesta capacidade de se distinguir que estará uma das chaves para desbloquear vendas.

Nesta fase inicial, a chegada mediática de cada marca - amplificada pela dicotomia política e económica entre a China e o Ocidente - pode bastar, mas esse efeito não será permanente. No fim de contas, as marcas chinesas vendem muito ou pouco?

Estamos perante um caso de “muita parra e pouca uva” ou de “paciência de chinês”? Deixando os provérbios de lado, procuremos a resposta nos números. Quando não são torturados, os números dizem a verdade e ajudam a indicar caminhos. É isso que procuramos sempre na Razão Automóvel.

As vendas de carros chineses em Portugal

Como referi no início, estamos na reta final de 2024 e já é possível analisar os dados disponíveis.

Em retrospetiva, 2024 será provavelmente identificado como o ano em que as marcas chinesas chegaram em força a Portugal. Porém, não será recordado como o ano em que essas marcas subiram ao topo da tabela nacional de vendas.

Isso acontecerá? Não pretendo repetir os argumentos. Já expus a minha opinião neste artigo, pelo que importa agora concentrarmo-nos nos dados atuais.

Nos números divulgados pela ACAP - vendas acumuladas até ao final de outubro - é necessário descer mais de 20 marcas até encontrarmos as primeiras chinesas: BYD e MG.

Poder-se-á dizer que, se as caixas de comentários nas redes sociais valessem vendas, a classificação seria superior. Contudo, como já referimos, estes números não contam toda a história.

Se excluirmos os automóveis com motores de combustão e olharmos apenas para os modelos 100% elétricos, a BYD surge, por exemplo, no TOP 5. E, caso o futuro do automóvel seja 100% elétrico - não estou a defender que o será -, este dado revela muito sobre o potencial de penetração das marcas chinesas.

O paralelo com Espanha e a Europa

É inevitável sentir a tentação de olhar para o mercado espanhol. No entanto, o seu comportamento é muito diferente do português, desde a fiscalidade até às preferências dos consumidores.

Em Espanha, a MG está firmemente instalada no Top 15 e há outra marca chinesa a subir depressa: a Omoda.

Temos um artigo mais profundo sobre a sua ascensão nesta ligação:

Numa análise ao mercado europeu no seu conjunto, as marcas chinesas representavam cerca de 2,5% do mercado em 2023.

Mais uma vez, quando os dados são observados com maior detalhe e filtramos apenas os carros elétricos, a percentagem sobe: no segundo trimestre de 2024, entre abril e junho, a quota de mercado dos veículos elétricos chineses na Europa alcançou 14,1%.

Independentemente da perspetiva adotada para os números, a tendência de crescimento é evidente e torna-se ainda mais rápida no caso dos veículos 100% elétricos. Foi este valor que levou a UE a avançar com as conhecidas tarifas sobre os carros elétricos produzidos na China.

Irão dominar o mercado? Talvez essa não seja a principal preocupação das marcas ocidentais, pelo menos por enquanto…

Para já, o problema é outro: as vendas não estão a crescer e, por isso, a expansão das marcas chinesas está a acontecer à custa da quota de mercado das marcas já estabelecidas. A nível mundial, o cenário em 2023 foi este:

Estamos, assim, perante um período de ajustamento no mercado automóvel. Se a história tiver um desfecho positivo, repetirá o que já sucedeu no passado, primeiro com as marcas japonesas e depois com as coreanas. Chegarão ao mercado, adaptar-se-ão, começarão a produzir na Europa e tudo encontrará um novo equilíbrio. Os chineses têm tempo e a Europa não tem outra hipótese.

Quando estiverem disponíveis os números finais do mercado automóvel de 2024 - em Portugal e na Europa - voltaremos a este assunto. Gosto sempre de verificar como falham as minhas previsões.

Antecipando algum comentário, não me esqueci da KGM. Simplesmente porque a KGM não é chinesa, é sul-coreana. É uma marca conterrânea da Hyundai e, sobretudo da Kia, com quem partilha o importador em Portugal, a Astara.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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