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Quase 24% dos guardas prisionais já pensou em suicídio

Polícia sentado preocupado numa mesa, enquanto outro policial lhe coloca a mão no ombro num escritório.
Neste artigo
  1. Esgotamento
  2. Três ministros
  3. Promessas não cumpridas geram desconfiança e agravam problema
  4. Organização
  5. Números

Um estudo divulgado este mês conclui que quase 24% dos guardas prisionais já consideraram o suicídio. Um outro inquérito, realizado no final do ano passado junto de utilizadores da Linha de Apoio Psicológico do Corpo da Guarda Prisional, aponta para burnout em mais de 71% destes profissionais. As dificuldades emocionais nas forças de segurança levaram o Governo a anunciar um grupo de análise retrospetiva dos suicídios nestas estruturas, mas a iniciativa continua por concretizar mais de um ano depois.

Num questionário elaborado por investigadores da Universidade do Porto, 23,6% dos 267 guardas prisionais participantes disseram já ter pensado em tirar a própria vida.

"É um número preocupante, porque se tratam de pessoas com acesso a meios coercivos", afirma Rute Pereira, coautora do estudo.

Os resultados do inquérito, apresentados no Simpósio da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, realizado de 9 a 11 de abril, em Castelo Branco, revelam ainda que 50% dos inquiridos têm níveis elevados de burnout. Esta condição afeta negativamente o desempenho profissional e a estabilidade emocional dos guardas prisionais. "O burnout pode e tende a levar a um aumento da agressividade, quer interna, quer externa", salienta Rute Pereira.

Esgotamento

A agente da polícia municipal e investigadora da Universidade do Porto recorda que, como indica a investigação, "a agressividade pode apresentar-se como uma reação ao stress, criando um ciclo vicioso difícil de quebrar até pela sua base biológica, pois em situação de stress tudo é vivenciado como ameaça e, numa ameaça, luta-se como forma de enfrentar". "Acresce que a agressividade e a impulsividade são fatores de risco para a ideação suicida ou até mesmo o suicídio", acrescenta.

Os dados são consistentes com as conclusões do inquérito "Gestão de stress e prevenção do burnout", coordenado por Clara Vila Cova, responsável pela Linha de Apoio Psicológico do Corpo da Guarda Prisional. A partir das respostas de 230 guardas prisionais, recolhidas entre novembro e dezembro do ano passado, a psicóloga criminal identificou níveis elevados e crescentes de vulnerabilidade ao stress numa carreira em que, concluiu, 71,3% dos profissionais estão em burnout e 75% sentem falta de reconhecimento social.

"O esgotamento emocional dos profissionais é uma realidade muito presente em meio prisional, mas, também, muito pouco considerada. Este fenómeno afeta o desempenho profissional, é um fator de risco para a saúde mental e física, para além de diminuir drasticamente a sua capacidade de discernimento e tomada de decisão mais adequada", descreve o estudo.

O mesmo documento defende que o stress e o burnout podem "contribuir para a ocorrência de pensamentos autolesivos, impactando negativamente a vida profissional dos agentes, manifestando-se, por exemplo, em absentismo laboral e, em casos extremos, em suicídio".

Três ministros

O aumento dos suicídios entre membros das forças de segurança levou o Governo, em fevereiro do ano passado, a anunciar a criação de um grupo de análise retrospetiva. Inspirada na equipa com a mesma designação dedicada aos homicídios em contexto de violência doméstica, a medida destinava-se a examinar os casos registados, identificar as suas causas e apresentar soluções.

Quando o anúncio foi feito, Margarida Blasco era ministra da Administração Interna. Quatro meses mais tarde, foi substituída por Maria Lúcia Amaral, que, já em fevereiro deste ano, deu lugar a Luís Neves. Foi a equipa liderada por Neves que confirmou ao JN que o grupo de análise retrospetiva dos suicídios nas forças de segurança ainda não foi constituído.

"A anterior titular da pasta entendeu que deveria ser feita uma análise sobre a estrutura dos grupos de trabalho criados até então, com o objetivo de criar formatos mais eficazes para o apoio à decisão. Essa avaliação está ainda em curso", justifica.

Promessas não cumpridas geram desconfiança e agravam problema

Apesar de o grupo de análise retrospetiva dos suicídios continuar por criar mais de um ano depois, o Governo sublinha que "as forças de segurança têm em vigor os seus planos de prevenção dos suicídios, enquadrados no Plano Nacional de Prevenção de Suicídio" e que existe "um acompanhamento e apoio permanente aos seus profissionais".

A explicação não satisfaz os profissionais nem os especialistas em saúde mental. "É muito preocupante a falta de estratégia do Governo para tratar deste problema. Vivemos num tabu e isso é lamentável", critica Frederico Morais, presidente do Sindicato do Corpo da Guarda Prisional. Para o dirigente, "é preciso admitir que há um problema", exigindo que "o Governo faça o que o sindicato faz: tratar os seus antes que seja tarde demais".

"É mais uma promessa não cumprida e isso gera desconfiança", concorda Rute Pereira. A investigadora reclama um "plano de prevenção de suicídios específico para cada grupo policial", pois, alerta, "os problemas na PSP não são os mesmos da Guarda Prisional". "O fenómeno prevalece sem que sejam implementadas as medidas necessárias e urgentes para o minimizar. E não tendo nós, quer polícias, quer investigadores, qualquer poder decisório, resta-nos continuar a combater o estigma da procura de ajuda psicológica como forma de atenuar os seus efeitos", afirma.

A falta de intervenção governamental, conclui o inquérito "Gestão de stress e prevenção do burnout", tornou a profissão de guarda prisional pouco apelativa, devido a "horários por turnos rotativos, sobrecarga de trabalho, conflitos e agressões durante o serviço".

Por isso, defendem todos, é essencial valorizar a carreira para reforçar o número de guardas prisionais e assegurar mais descanso a quem já exerce funções.

Organização

Conservadorismo
Os guardas que responderam ao inquérito "Gestão de stress e prevenção do burnout" descrevem a Guarda Prisional como uma organização de hierarquia rígida e conservadora. São características que "podem dificultar a compreensão dos fenómenos de vulnerabilidade ao stress e burnout".

Apelo
Ricardo Martins, guarda no estabelecimento prisional de Caxias, suicidou-se em 2023. Nas redes sociais, deixou uma mensagem em que apelava a uma mudança na Guarda Prisional, para a transformar "numa instituição como deve ser".

Números

4 suicídios
Nos últimos quatro anos, o Sindicato do Corpo da Guarda Prisional registou quatro mortes.

39% agressivos
Entre os 267 guardas prisionais inquiridos no estudo da Universidade do Porto, 39% apresentaram sinais de agressividade.

43% exaustos
Quase metade dos guardas prisionais revela sintomas de exaustão.

125 acompanhados
No final de 2025, a Linha de Apoio Psicológico acompanhava 125 guardas prisionais.

3876 guardas prisionais
Segundo dados do Sindicato da Guarda Prisional, Portugal tem quase 4000 guardas prisionais.

Neste momento

João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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