Em 2005, António José Seguro era deputado. Adalberto Campos Fernandes exercia medicina, lecionava na universidade, era especialista em saúde pública e preparava-se para assumir a presidência do Conselho de Administração do Hospital de Santa Maria. Ambos integravam, com um grupo alargado de figuras da política e da saúde - entre as quais Maria de Belém Roseira, Miguel Relvas, Maria José Nogueira Pinto, o professor e médico António Vaz Carneiro e o atual especialista em comunicação política Luís Paixão Martins - uma espécie de conselho estratégico da farmacêutica multinacional Merck Sharp & Dohme, hoje MSD.
As sessões de “reflexão” sobre o futuro do setor, realizadas três ou quatro vezes por ano, decorriam na Pousada da Guia, em Cascais. Eram conduzidas por Almeida Bastos, diretor-geral da farmacêutica, e por Ana Paula Martins, então diretora de relações internacionais.
Adalberto Campos Fernandes no Pacto para a Saúde
Mais de duas décadas passadas, Ana Paula Martins é ministra da Saúde, António José Seguro ocupa a Presidência da República e Adalberto Campos Fernandes acaba de ser nomeado consultor especial do Presidente da República para coordenar um Pacto para a Saúde. Nos últimos meses, sabe o Expresso, Campos Fernandes foi também uma espécie de conselheiro informal e ocasional da ministra Ana Paula Martins.
Há quem identifique riscos logo à partida neste Pacto. Desde logo, o de chegar ao fim do período de trabalho para o qual foi incumbido sem “dar em nada”. E existe ainda o risco de a iniciativa ser entendida como uma disputa político-ideológica, em vez de uma discussão pragmática centrada na garantia de acesso generalizado aos cuidados de saúde, qualquer que seja a solução adotada.
“Ele é um tecnocrata e a questão da Saúde é técnico-científica, não é ideológica”, afirma ao Expresso Fernando Leal da Costa, ex-ministro e antigo secretário de Estado da Saúde dos governos de Passos Coelho. Colega de curso de Campos Fernandes - tal como Maria do Carmo Fonseca, hoje conselheira de Estado -, Leal da Costa destaca ainda uma qualidade que lhe é reconhecida de forma generalizada: “É um ótimo comunicador”. “É preciso é que o queiram ouvir”.
“Se fosse escolhido pelo governo, eu aplaudia a escolha, é a pessoa mais bem preparada”
Miguel Relvas
Ex-ministro social-democrata
Miguel Relvas, antigo ministro social-democrata, concorda quanto aos riscos de um Pacto com chancela presidencial. Partilha com Adalberto Campos Fernandes o espaço de comentário na CNN, onde este continuará, embora com reservas relativamente aos temas da Saúde. “Se fosse escolhido pelo Governo, eu aplaudia a escolha, é a pessoa mais bem preparada”, diz Relvas ao Expresso, criticando duramente aquilo que considera uma tentativa de “governamentalização da presidência”.
Respeitado no setor, Campos Fernandes é apontado pelos seus críticos como alguém cuja capacidade de oratória poderá superar a firmeza na ação. “O problema da saúde é que é preciso coragem para tomar medidas, cortar a direito, ir contra interesses”, sustenta Relvas. Porém, a nomeação feita pelo Presidente da República não teve como objetivo agir, mas escutar e construir consensos de base.
Um homem do centro
Sem cartão de militante, embora sempre próximo da ala “moderada” do PS, há quem brinque que “está no PS por engano”. Para Óscar Gaspar, presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada e amigo próximo de Seguro, trata-se de “um homem do centro”.
Pedro Passos Coelho, Fernando Leal da Costa, Maria de Belém Roseira e Luís Filipe Pereira - ex-ministro da Saúde de Durão Barroso - estiveram entre os presentes no almoço do International Club of Portugal em que Adalberto foi orador convidado. Passos Coelho foi um dos primeiros a desejar-lhe “sucesso” na missão que Seguro lhe confiara pouco antes.
“Foi ministro no pior momento possível, com o BE com peso na governação”
Óscar Gaspar
Presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada e vice-presidente da União Europeia da Hospitalização Privada
Licenciado em Medicina, Campos Fernandes acabaria por não seguir uma carreira na vertente clínica e hospitalar. Especializou-se em saúde pública, doutorou-se em Administração da Saúde e construiu um percurso com forte componente académica. É membro do conselho consultivo da SEDES, liderada por Álvaro Beleza, amigo político próximo de Seguro. Passou ainda pela Médis e pelos SAMS, presidiu ao conselho de Administração do Hospital de Santa Maria e, mais tarde, ao hospital público-privado de Cascais.
Demissão à chuva
Chegou ao cargo de ministro em 2015, no “pior momento possível para ele”, reconhece Óscar Gaspar. Esse contexto correspondia à formação da “geringonça” e à deslocação da governação para a esquerda. Ministro até outubro de 2018, Campos Fernandes iniciou a revisão da Lei de Bases da Saúde, em vigor desde 1990, e criou para esse fim uma comissão liderada por Maria de Belém.
Dessa comissão resultou um anteprojeto de lei descrito como “moderado”, concebido para reunir um amplo consenso entre PS e PSD e sem restringir as opções políticas, que poderiam inclinar-se mais à esquerda ou à direita. O projeto, contudo, acabaria arquivado. A saída do ministro da Saúde, em outubro de 2018, durante a mais ampla remodelação promovida por António Costa, surpreendeu muitos: dois meses antes, em agosto, o primeiro-ministro afirmara numa entrevista ao Expresso que o ministro não sairia - “Podem tirar o cavalinho da chuva”. O cavalinho acabou por se molhar, ficando para a história um “irritante”.
Segundo apurou o Expresso, a decisão de Costa terá tido origem no compromisso que Adalberto Campos Fernandes levou o primeiro-ministro a assumir: garantir médico de família a todos os portugueses. A promessa foi sendo adiada e, num conflito aberto com o ministro, Costa pediu dados à Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e indicou a saída ao seu ‘cavalinho à chuva’.
Nessa altura, Marta Temido estava na ACSS e viria a ascender ao cargo de ministra. Foi já com Marta Temido que a nova Lei de Bases da Saúde seria aprovada, desta vez através de negociações à esquerda, com BE e PCP, impondo limitações à existência de Parcerias Público-Privadas na Saúde. Campos Fernandes criticou publicamente essa opção, censurando a excessiva “centralidade” que o Bloco de Esquerda assumira no processo.
Mais recentemente, quando o primeiro-ministro Luís Montenegro admitiu recuperar o anteprojeto de Maria de Belém como base de trabalho para a revisão em curso da Lei de Bases, Adalberto voltou a defender um “entendimento estratégico” entre PS e PSD na Saúde. “Considerem a saúde uma questão de regime, e não uma questão de combate sectorial”, afirmou em maio de 2025. Um aviso que se mantém atual.






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