Arqueólogos descobriram um tesouro invulgar que permaneceu soterrado durante quase 2.000 anos sob as cinzas e os detritos lançados pela catastrófica erupção do Vesúvio, em 79 d.C.
As escavações realizadas nos compartimentos de uma antiga casa romana revelaram uma obra de construção conservada em condições perfeitas. Entre os vestígios estão ferramentas, telhas nunca utilizadas, tijolos talhados em tufo - uma rocha de origem vulcânica - e o elemento mais notável: montes de cal destinados à preparação de betão romano antigo.
Uma remodelação doméstica pode parecer um achado pouco extraordinário, mas esta descoberta oferece uma imagem intacta da forma como os romanos antigos erguiam os edifícios onde viviam. Revela igualmente novos dados sobre as técnicas construtivas responsáveis por edifícios que continuam de pé milhares de anos depois.
"A escavação na Região IX, ínsula 10, planeada durante os anos do Grande Projeto de Pompeia, está a produzir, como seria de esperar, resultados importantes para aprofundar o nosso conhecimento da cidade antiga", afirma Massimo Osanna, diretor-geral dos Museus de Itália.
Os trabalhos arqueológicos na Região IX, uma zona em grande parte ainda inexplorada, dão continuidade às escavações anteriores na Região V, uma área adjacente. Surgiram também da necessidade de estabilizar paredes de materiais eruptivos junto aos limites das zonas escavadas, "que se elevam perigosamente sobre as áreas escavadas", diz Osanna.
Historiadores e cientistas sentem-se fascinados pela maneira como as populações da Antiguidade viviam e inovavam, embora grande parte desse conhecimento se tenha perdido ao longo do tempo. Restam ruínas vazias, objetos e fragmentos, ossos e, quando há sorte, registos escritos. Pompeia, contudo, pertence a uma categoria inteiramente diferente.
O que aconteceu aos habitantes de Pompeia foi uma tragédia horrível, mas as cinzas vulcânicas ardentes que cobriram a cidade em 79 d.C. também a preservaram, congelando um único instante para os milénios seguintes. As escavações, minuciosas e ainda em curso, revelam gradualmente os pormenores da vida quotidiana dos seus habitantes.
A obra descoberta numa casa de Pompeia
O estaleiro foi posto a descoberto numa habitação cuja escavação anterior já tinha indicado que pertencia a um padeiro, por possuir um grande forno.
Na casa foram igualmente encontrados uma obra de arte que representa pão achatado e um copo de vinho, bem como manifestos eleitorais que mostram apoio a um político chamado Aulus Rustius Verus. Três vítimas de Pompeia - duas mulheres e um rapaz - foram também encontradas perto do forno.
À medida que avançavam na escavação da habitação, os arqueólogos começaram a identificar indícios de obras. O átrio, parcialmente coberto, continha pilhas de materiais de construção, enquanto as marcas na ombreira da porta que conduzia à sala de receção eram provavelmente anotações destinadas a controlar as contas da obra.
No santuário doméstico, os investigadores encontraram ânforas - recipientes de barro que, segundo acreditam, serviam para misturar o reboco utilizado no acabamento das paredes. As ferramentas de construção localizadas em diversas divisões incluíam fios de prumo - pesos de chumbo suspensos por uma corda, usados para garantir a verticalidade das linhas - e enxadas empregadas para mexer o betão.
Betão romano antigo e a utilização de cal viva
Por fim, a descoberta parece confirmar o método de preparação do betão romano identificado apenas no ano passado. Até então, pensava-se que a cal era misturada com água antes de ser adicionada a uma areia seca conhecida como pozolana, para produzir betão.
Por meio de análises e experiências, os cientistas concluíram que essa não é necessariamente a técnica usada. Em vez disso, a cal seca e a pozolana seca são combinadas com água quente, a temperaturas muito elevadas, criando um betão muito resistente, de presa rápida e capaz de se reparar a si próprio.
Segundo os arqueólogos, os materiais encontrados no recém-descoberto estaleiro confirmam este processo.
"É mais um exemplo de como a pequena cidade de Pompeia nos faz compreender tantas coisas sobre o grande Império Romano, nomeadamente a utilização do cimento", afirma Gabriel Zuchtriegel, diretor do Parque Arqueológico de Pompeia.
"Os dados que estão a surgir parecem indicar a utilização de cal viva na fase de construção das paredes, uma prática já antes colocada como hipótese e capaz de acelerar consideravelmente tanto o tempo necessário para uma nova construção como para a renovação de edifícios danificados, por exemplo, por um sismo."
Os investigadores acrescentam que a redescoberta destas técnicas de construção, perdidas durante tantos anos, poderá também trazer inovações para os engenheiros atuais, quer na reparação de edifícios danificados, quer na reutilização de materiais.






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário