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Caixa Ribeira devolve o fado ao centro histórico do Porto

Cantora e guitarrista animam uma esplanada junto ao rio numa cena típica de Porto ao pôr do sol.
Neste artigo
  1. Caixa Ribeira devolve o fado ao centro histórico do Porto
  2. O fado que junta gerações
  3. Um regresso com futuro

O festival distribuiu quatro palcos entre a Alfândega e Miragaia, reunindo nomes consagrados, artistas emergentes e um público que voltou a demonstrar a relação da cidade com este género musical. O presidente da Câmara salientou o papel das pessoas na construção da identidade da Ribeira.

A emoção instalou-se ainda antes da primeira guitarra soar e antes das seis da tarde. Faltavam poucos minutos para começar o concerto de Jorge Fernando e Fábia Rebordão, mas Isabel Pereira já se emocionava. Aos 72 anos, não acreditava que conseguiria estar presente. Os problemas de saúde levaram-na a abandonar a ideia de assistir ao regresso do Caixa Ribeira, mas a filha recusou deixar passar a oportunidade. Contactou a organização, explicou o caso e obteve dois lugares reservados.

Mesmo ao lado, Agostinho Pereira, de 74 anos, sorria. Para o casal, aquele sábado representava muito mais do que uma tarde de música. "Mais do que gostar de fado, aprendi a senti-lo", dizia Isabel. Cantou durante 14 anos num coro, passou pela Casa da Música e pelo Rivoli, e sabe que quem assiste nem sempre percebe a entrega de quem sobe ao palco. Agostinho sente a mesma paixão. Toca guitarra portuguesa e aguardava este reencontro há muito tempo.

Caixa Ribeira devolve o fado ao centro histórico do Porto

Uma década após a última edição, o Caixa Ribeira regressou para transformar o centro histórico do Porto numa ampla casa de fados. Entre a Alfândega e Miragaia, quatro palcos acolheram artistas consagrados, casas de fado da cidade, guitarristas e novos talentos, trazendo de volta um festival que muitos esperavam há dez anos.

O fado que junta gerações

"O Porto também tem o seu fado e tem muito orgulho no seu fado", afirmou ao JN o presidente da Câmara, Pedro Duarte, defendendo que iniciativas desta natureza fortalecem a identidade da cidade. "Viver numa cidade não é viver no meio de carros e edifícios. É viver em comunidade", sublinhou.

Ainda antes de se ouvirem os primeiros acordes, as histórias já se multiplicavam. Olga do Carmo, de 80 anos, nasceu em Miragaia e permanece na casa onde nasceu. "Sou uma grande fã de fado", dizia enquanto aguardava por Lenita Gentil, a intérprete que mais queria escutar. A seu lado estava a prima Alice Vila, de 70 anos, com quem mantém uma relação de "quase irmãs". O regresso do festival foi o motivo para recuperarem um velho hábito: ouvir fado juntas no bairro onde cresceram.

Estela Martins, de 80 anos, e Maria do Céu, de 68, também trocaram Paranhos por uma tarde junto ao Douro. A intenção era clara: ouvir fado. "Desde que seja fado...", diziam, antes de indicarem Camané e Paulo de Carvalho como os artistas que mais desejavam ver.

Mais adiante, três amigas de Matosinhos e Gaia comentavam o cartaz nocturno. Fátima Nogueira assumia o desejo de voltar a escutar Camané, enquanto Maria do Céu Borges apontava Jorge Fernando, Fábia Rebordão e Patrícia Costa entre os seus favoritos. Graça juntou-se à conversa e, no final, a conclusão foi consensual: "Gostamos de todos."

Também houve lugar para presentes inesperados entre os espectadores. Inês Dias, de 28 anos, antecipou a prenda de aniversário da mãe, Isabel, oferecendo-lhe bilhetes para assistir à gravação de "Em Casa d'Amália", programa da RTP que ambas acompanham habitualmente na televisão.

Famílias encontram-se no fado

Nuno Azevedo levou os filhos João Maria, de 11 anos, e José Maria, de oito anos. Enquanto o mais novo repartia a atenção entre o palco, as bancas de comida e as selfies, o pai explicava que o fado integra a educação musical da família. "Eles não vivem dos TikToks nem dos funks brasileiros", dizia, entre sorrisos. O mais velho está a aprender violino e o mais novo prepara-se para estudar piano.

Um regresso com futuro

Durante a tarde, o festival ocupou quatro espaços distintos. Fábia Rebordão, Jorge Fernando e Camané actuaram no Palco Caixa, ao passo que o Salão Nobre da Alfândega recebeu as casas de fado da cidade. Em Miragaia, a guitarra portuguesa esteve em destaque, com músicos locais a subir ao Palco Rádio Amália.

Pedro Duarte realçou igualmente a necessidade de manter a dimensão humana da Ribeira e de Miragaia, num momento em que o centro histórico enfrenta novos desafios. "Aquilo que faz a identidade desta zona, antes de tudo o resto, são as pessoas", afirmou.

No final da noite, Luís Montez, da promotora Música no Coração, fazia uma avaliação positiva. "Tivemos um dia maravilhoso, a casa está cheia e as pessoas estão felizes. Tudo indica que vamos repetir para o ano", garantiu.

Para o responsável, a participação do público confirma que a Invicta continua ligado ao fado e que existe margem para este tipo de iniciativas crescer. "O público do Porto gosta de fado", afirmou, defendendo que, numa era marcada pela Inteligência Artificial, os géneros musicais de forte componente humana "vão ter cada vez mais futuro".

Dez anos depois, o Caixa Ribeira voltou a abrir portas. Entre moradores, famílias, amigos e visitantes, o fado voltou a afirmar-se como encontro, memória e elemento da identidade do Porto.

Neste momento

João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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