Saltar para o conteúdo

Maricarmen Abascal morre após despejo que simbolizou a crise da habitação em Espanha

Mulher segura caixa com roupa e foto, rodeada por manifestantes com cartazes de casas e placas "for rent".
Neste artigo
  1. Maricarmen Abascal e a crise da habitação em Espanha
  2. Despejo mobilizou protestos e medidas do Governo
  3. Um sonho por cumprir

Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos que se tornou um símbolo da luta contra a crise da habitação em Espanha, morreu esta quarta-feira num hospital de Madrid. Depois de ser despejada, a 23 de setembro, da casa onde viveu durante 70 anos, foi transportada numa cadeira de rodas para a unidade hospitalar, onde viria a falecer.

"Lamentamos informar que, no dia de hoje, faleceu Maricarmen", anunciou o Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid. Num comunicado, a organização que coordena os protestos contra a crise da habitação em Espanha destacou o seu "exemplo de luta" e as reações desencadeadas pelo despejo, que "representam um antes e um depois na História" do país.

Maricarmen Abascal e a crise da habitação em Espanha

Maricarmen morreu no Hospital Gregorio Marañón, na capital espanhola, duas semanas após ter sido expulsa da habitação onde vivia há sete décadas, no bairro de Retiro. As imagens da idosa a ser retirada pelos bombeiros numa maca, enquanto centenas de pessoas se concentravam junto ao edifício para tentar travar a execução da ordem judicial, converteram-se num símbolo da luta contra a crise habitacional em Espanha.

Uma empresa comprara o apartamento seis anos antes por um valor bastante reduzido, precisamente por a idosa ali residir. A receber uma pensão de 1400 euros, Maricarmen nunca deixou de pagar atempadamente a renda, estabelecida num contrato antigo em cerca de 500 euros mensais. Contudo, em 2020, os proprietários avisaram-na de que teria de sair da casa, alegando que não era legalmente proprietária e invocando uma lei do período de Franco. Desde então, foram feitas quatro tentativas de despejo. Foi-lhe ainda apresentada a possibilidade de comprar o apartamento por 247 mil euros, uma quantia muito superior às suas possibilidades. Mais tarde, a renda foi elevada para 1650 euros.

Despejo mobilizou protestos e medidas do Governo

O caso da idosa levou milhares de pessoas a manifestarem-se em várias cidades de Espanha e levou o Governo a aprovar um pacote extraordinário de medidas destinado a responder a situações semelhantes, que viria a ser rejeitado pelo Parlamento. O chumbo foi a gota de água para o Executivo de Pedro Sánchez, que decidiu, na segunda-feira, antecipar as eleições nacionais. No dia seguinte, foi convocada uma greve geral pela habitação e o Governo aprovou uma nova versão das medidas rejeitadas no Congresso dos Deputados.

Um sonho por cumprir

Cerca de uma semana depois do despejo, a luta produziu resultados: Maricarmen aceitou um acordo apresentado pela empresa proprietária do apartamento, que lhe permitiria voltar à casa onde vivia desde 1956. Porém, a idosa morreu no hospital, sem concretizar o que desejava. O jornal "El País" relata que a espanhola sonhava morrer no quarto onde tinha visto os pais morrerem. "Aqui tenho todas as minhas memórias. O meu pai morreu muito jovem, no ano de 1960, com 51 anos. E a minha mãe morreu em 2005, nesta casa. Eu vivi aqui desde o ano de 1956 até hoje", contou ao diário espanhol, antes de se despedir da casa onde vivera toda a vida, rodeada de caixas.

Neste momento

João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário