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UE pode proibir a fibra de carbono nos automóveis

Carro desportivo preto de fibra de carbono exposto numa galeria moderna.
Neste artigo
  1. Porque poderá a fibra de carbono ser proibida?
  2. Um golpe no coração dos supercarros
  3. Perdas avultadas na economia
  4. Pagani e o momento em que tudo mudou
  5. Para lá dos automóveis

Atualização de 16 de abril: O Parlamento Europeu clarificou esta questão relacionada com a fibra de carbono. Saiba o que está em causa através desta ligação.

A fibra de carbono poderá estar a ponto de deixar de ser vista como um material de excelência na indústria automóvel. A União Europeia pondera alterar a Diretiva Veículos em Fim de Vida (End-of-Life Vehicles Directive), uma revisão que poderá levar à classificação da fibra de carbono como substância perigosa.

Caso a proposta seja aprovada, a utilização deste material em automóveis novos ficará proibida a partir de 2029. Será uma má notícia para os automóveis desportivos e 100% elétricos, que encontraram na fibra de carbono uma aliada para reduzir massa e emissões.

Porque poderá a fibra de carbono ser proibida?

Segundo os reguladores europeus, os perigos ambientais e para a saúde associados à reciclagem e ao descarte da fibra de carbono sustentam esta medida.

No processo de desmantelamento, os filamentos muito finos de fibra de carbono podem libertar-se no ar, causar irritações na pele, atingir as mucosas e até revestir órgãos. Por serem condutores, podem ainda provocar curto-circuitos nos equipamentos de reciclagem, criando um risco adicional para os trabalhadores.

Se a medida avançar, a fibra de carbono será incluída, a par do chumbo, mercúrio, cádmio e crómio hexavalente, na lista de substâncias restringidas da União Europeia. Porém, o percurso legislativo continua a ser longo: antes de ganhar força de lei, a proposta terá de ser apreciada pela Comissão Europeia, pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia.

Um golpe no coração dos supercarros

As consequências para a indústria automóvel estão longe de ser irrelevantes. As marcas de luxo, os construtores de veículos de altas prestações e os fabricantes de automóveis elétricos - para quem a fibra de carbono é uma solução para limitar o peso e elevar a eficiência - poderão ser obrigados a reformular os seus planos.

Muito além de ser apenas leve e resistente, a fibra de carbono passou a representar engenharia de elevado requinte. A sua relevância é evidente em superdesportivos da McLaren, Koenigsegg e Pagani, mas, mais recentemente, também em modelos com objetivos ambientais mais ambiciosos.

Perdas avultadas na economia

O mercado mundial da fibra de carbono, atualmente avaliado em 5,48 mil milhões de dólares, deverá alcançar os 17,08 mil milhões em 2035. Esta trajetória de crescimento poderá ser interrompida ou, no mínimo, fortemente prejudicada pela nova posição de Bruxelas.

Estes números foram divulgados no Relatório de Mercado Global da Fibra de Carbono da Precedence Research, uma empresa internacional de análise de mercado.

A perspetiva é especialmente inquietante para os fabricantes japoneses - em particular a Toray Industries, a Teijin e a Mitsubishi Chemical -, que controlam mais de metade do mercado global (52%).

Pagani e o momento em que tudo mudou

A história da entrada da fibra de carbono nos automóveis de produção dava um filme. Italiano, como seria de esperar.

Durante a década de 80, Horacio Pagani trabalhava como engenheiro na Lamborghini e chefiava o desenvolvimento do Countach Evoluzione. Este protótipo, extremamente leve e construído com painéis de fibra de carbono, antecipava uma nova geração de supercarros. Pesava cerca de 500 kg menos do que o Countach de produção e era simultaneamente mais rápido e eficiente.

Pagani estava convicto de que o futuro das prestações passaria inevitavelmente pelos materiais compósitos. Por isso, pediu à direção da Lamborghini investimento numa autoclave destinada à produção de componentes em fibra de carbono. O pedido foi recusado, com uma justificação simples: se a Ferrari não usa, nós também não precisamos de usar.

O que aconteceu depois confirmou, ironicamente, tudo em que Pagani acreditava. Em 1987, a Ferrari lançou o F40, o primeiro automóvel de produção em série a utilizar de forma extensiva materiais compósitos - painéis de fibra de carbono, kevlar e nomex - e com um peso total inferior a 1100 kg. A Lamborghini reconheceu o engano: Horacio Pagani tinha razão.

Tão seguro estava Horacio Pagani de que a fibra de carbono era o futuro que vendeu tudo o que possuía, recorreu a um empréstimo pessoal e adquiriu a autoclave recusada pela Lamborghini. Assim nasceu a Pagani Composite Research, a incubadora da Pagani Automobile.

Para lá dos automóveis

Apesar de o setor automóvel corresponder a apenas 10% a 20% das aplicações totais de fibra de carbono, uma proibição nesta área poderá desencadear um efeito dominó.

A aviação civil e a indústria eólica - setores em que o material é indispensável para componentes de aeronaves e pás de turbinas - poderão ser os próximos visados pela regulação.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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