Já alguma vez perdeu por completo a noção do espaço e do tempo enquanto redecorava uma divisão? Ou ficou tão concentrado a tocar um instrumento que as preocupações que o incomodavam há um minuto simplesmente desapareceram?
Então, é provável que já tenha sentido «flow».
O que é o flow?
Em psicologia, o termo flow descreve um estado de concentração intensa, no qual a pessoa fica inteiramente absorvida por uma actividade. Situa-se entre o tédio e o stress e, regra geral, surge em tarefas com algum grau de exigência, mas que continuam adequadas às nossas capacidades.
Quando entramos em flow, habitualmente tornamo-nos muito eficazes, sentimos que temos controlo e deixamos de reparar na passagem do tempo.
O flow é, muitas vezes, uma experiência positiva. Mas poderá também beneficiar a saúde mental? É essa a questão que investigadores, incluindo eu, estão actualmente a estudar.
Ideias semelhantes ao flow existem há bastante tempo. Um exemplo é a «polarização da atenção», um estado de foco intensificado proposto pela educadora italiana Maria Montessori no início do século XX. No entanto, a versão científica moderna do flow foi desenvolvida na década de 1970 pelo psicólogo norte-americano nascido na Hungria Mihály Csíkszentmihályi.
O meu trabalho, bem como o de outros investigadores, demonstrou que a frequência e os contextos em que vivemos experiências de flow variam amplamente de pessoa para pessoa e são, em parte, influenciados pela genética.
Por outras palavras, algumas pessoas têm maior propensão para sentir flow do que outras. Isto deve-se parcialmente a diferenças individuais nas predisposições genéticas, mas também a elementos do nosso ambiente. Entre eles podem estar as circunstâncias específicas das actividades que realizamos, as distracções a que estamos sujeitos e os nossos estados mentais.
O flow causa saúde mental?
Tem sido sugerido que a predisposição para o flow pode estar ligada a vários resultados positivos, incluindo melhor saúde mental e cardiovascular. Em geral, estas associações têm sido interpretadas como indícios de que o flow produz esses efeitos protectores.
Os alegados benefícios do flow levaram as primeiras empresas a identificar oportunidades comerciais e a disponibilizar formação destinada a promovê-lo. Contudo, essa iniciativa poderá ser algo prematura.
Até agora, a maior parte da investigação disponível não permite tirar conclusões sobre efeitos causais do flow na saúde mental ou física. Isto acontece porque os estudos se basearam sobretudo em amostras pequenas e em dados comunicados pelos próprios participantes. Além disso, tanto a predisposição para experienciar flow como os problemas de saúde mental são parcialmente hereditários.
As nossas predisposições particulares, em conjunto com o ambiente e as experiências, influenciam o modo como nos saímos na vida, incluindo a probabilidade de sentirmos flow ou de enfrentarmos problemas de saúde mental. Porém, ainda se desconhece em grande medida como os genes e o ambiente interagem exactamente.
Isto significa que os mesmos factores familiares, incluindo predisposições genéticas ou o ambiente da primeira infância, podem afectar simultaneamente a nossa propensão para o flow e a nossa saúde mental. Nesse caso, as associações observadas não seriam directamente causais, mas decorreriam de um terceiro factor que provoca ambos os efeitos, como os genes ou experiências específicas na infância.
A importância do neuroticismo
Outro possível terceiro factor é um conceito designado «neuroticismo». O neuroticismo é um traço de personalidade que caracteriza a nossa tendência para a instabilidade emocional e para a irritação fácil. As pessoas com pontuações elevadas de neuroticismo são mais vulneráveis ao stress e a problemas psicológicos, bem como a doenças cardiovasculares e outras doenças somáticas.
Ao mesmo tempo, é intuitivo pensar que a preocupação, o stress e a instabilidade emocional podem impedir uma pessoa de entrar num estado de flow. Assim, é perfeitamente possível que as nossas predisposições, incluindo o neuroticismo, influenciem tanto a capacidade de experienciar flow como a saúde mental.
Se analisarmos a relação entre flow e saúde mental sem considerar o neuroticismo - como aconteceu na maioria das investigações - observaremos uma associação. Contudo, essa associação poderá, na realidade, ser impulsionada pelo neuroticismo.
Em conjunto, estas questões levantam uma pergunta: poderá o flow proteger realmente contra determinados problemas de saúde?
Esta questão foi recentemente examinada pela minha aluna Emma Gaston, na Universidade de Melbourne, na Austrália, sob a minha co-orientação e a de Laura Wesseldijk, investigadora sénior do meu grupo no Instituto Max Planck de Estética Empírica (MPIEA), em Frankfurt am Main, Alemanha. O nosso artigo foi publicado na revista Translational Psychiatry.
Pela primeira vez, investigámos se o neuroticismo influencia as associações observadas entre o flow e a saúde mental e se factores familiares, como a genética ou o ambiente familiar precoce, podem desempenhar um papel.
Também pela primeira vez, o estudo avaliou a hipótese inversa: se os problemas de saúde mental conduzem a menos flow. Para isso, foram utilizados diagnósticos reais de 9,300 pessoas registadas no registo de doentes sueco.
O que revelou o estudo sobre flow
Verificámos que as pessoas mais predispostas a experienciar flow apresentavam menor risco de determinados diagnósticos, incluindo depressão, ansiedade, esquizofrenia, perturbação bipolar, perturbações relacionadas com o stress e doença cardiovascular. Este resultado está de acordo com a expectativa de que o flow tenha um efeito protector nos resultados de saúde mental e cardiovascular.
No entanto, depois de considerar o neuroticismo e os factores familiares, as experiências de flow permaneceram associadas apenas à depressão major e, possivelmente, à ansiedade, embora as associações se tenham revelado algo mais fracas. Esta conclusão sugere que o flow poderá exercer algum efeito protector sobre estes dois resultados de saúde mental, mas que a relação é mais complexa do que se pensava.
Por outro lado, o desaparecimento da maioria destas associações indica que a predisposição para o flow não causava directamente um risco inferior destas condições. Em vez disso, factores terceiros, como os genes, podem constituir uma explicação mais adequada.
Significa isto que devemos recorrer a formação em flow para reduzir o risco de depressão e ansiedade? Não. Falta investigação que permita determinar se, e de que forma, é sequer possível manipular o flow e quais seriam as consequências disso.
Ainda assim, quando estamos num estado de flow, é provável que passemos menos tempo a ruminar sobre a nossa vida ou a preocupar-nos com o futuro, simplesmente porque estamos ocupados e porque a própria experiência de flow é recompensadora. Por isso, se algo de que gosta o faz perder totalmente a noção do espaço e do tempo, é provável que lhe faça bem - pelo menos naquele momento.
Miriam Mosing, Professora Associada de Genética do Comportamento, Instituto Karolinska
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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