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Projeto Estou CãoTigo chega a Penacova para combater o isolamento

Mulher idosa sentada num banco com um jovem e um cão, numa praça de aldeia típica ao final do dia.
Neste artigo
  1. Combater o isolamento dos mais velhos
  2. Em Penacova desde outubro de 2025
  3. Animais com passado e futuro a ajudar os humanos
  4. "Investimento estratégico" num concelho que aposta na juventude

O projeto "Estou CãoTigo" chegou a Penacova. Preparados na Escola de Cães-Guia de Mortágua, os cães ajudam a enfrentar o isolamento e promovem um "envelhecimento ativo e saudável".

Sentada no sofá, Palmira de Jesus fixa o olhar na janela. Mesmo em frente, mas distante do seu quotidiano, está o Centro de Dia de Carvalho, que assegura apoio domiciliário e também funciona como lar. "Enquanto puder, fico melhor aqui", afirma. A casa guarda as recordações de um casamento de 57 anos, interrompido no início do ano pela morte do marido, Bernardo Mendes. Guarda igualmente as dores e as alegrias de ter criado três filhos - duas mulheres e um homem - e de ter tomado conta dos seis netos. Estão todos numa fotografia: cinco raparigas e um rapaz, que vive em França com a mãe. Também ela filha de Palmira e exemplar. "Liga-me todos os dias desde que aconteceu."

O sujeito da frase fica por dizer, mas o luto é evidente. Vestida inteiramente de preto, Palmira de Jesus sorri quando Goofy apanha um biscoito lançado pela monitora. "Gosto muito de animais. Já tive muitos, mas agora só as galinhas", conta, enquanto acaricia a cabeça do cão. Ele abana a cauda, mantém a boca aberta para aliviar o calor e mostra os dentes num sorriso animado. "É muito beijoqueiro", refere Rita Nobre, técnica de Intervenções Assistidas, que ao longo destes cinco meses criou com Palmira uma ligação que ultrapassa o apoio no processo de luto.

De 15 em 15 dias, às sextas-feiras, o programa "Estou Cãotigo" visita a casa de Palmira, em Carvalho Velho, na freguesia de Carvalho, concelho de Penacova. "Já tinha dito a uma das minhas netas que hoje vinha aqui o cãozinho outra vez", relata. Sentado no chão, Goofy abana a cauda num entusiasmo constante. Ao pescoço usa um lenço de ganga, simultaneamente decorativo e funcional, onde se lê: "Cão de intervenções assistidas".

Formado na Escola de Cães-Guia para Cegos, um projeto da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV), em Mortágua, "Goofy" faz jus ao nome e integra o conjunto de cães do programa "Estou CãoTigo". Criado em 2022, o projeto pretende combater a solidão, o isolamento social e a degradação física e emocional da população idosa. Para isso, recorre a intervenções estruturadas com cães e realizadas por uma equipa técnica especializada. Chegou a Penacova em outubro de 2025, através de um protocolo com a Câmara Municipal, e decorre igualmente em Mortágua e na Mealhada.

Combater o isolamento dos mais velhos

"Este projeto visa proporcionar envelhecimento ativo e saudável e, neste caso, aqui também o combate ao isolamento", explicou o vereador da Educação e Ação Social de Penacova, Carlos Sousa. "O programa em duas vertentes. Uma individual e outra para instituições, onde se fazem sessões em grupo." A autarquia suporta os custos e garante que "não ter por hábito abandonar projetos", admitindo a renovação da iniciativa quando terminarem os primeiros três anos do "Estou Cãotigo."

O botão de pânico repousa numa pequena mesa de apoio, junto a uma imagem de Nossa Senhora da Piedade, que ampara nos braços Jesus Cristo descido da cruz. Palmira usa um pacemaker e não pode transportar o aparelho junto ao peito, porque as tecnologias não são compatíveis. Se o coração enfrenta limitações, a mente conserva tudo: sabe de cor a vida de cada neto, desde a mais nova, que frequenta o 11.º ano, até ao mais velho, que vive, "com uma francesa" em França. Recorda também a ocupação de cada um dos seis filhos da sua segunda maternidade, criados na aldeia.

"Vivia muita gente aqui", lamenta. Hoje, no movimento da vida moderna entre a casa e o trabalho, restam muito menos pessoas. O "Estou Cãotigo" representa companhia e uma distração que a afasta do luto, apesar de continuar a vestir-se integralmente de negro. "Gostava que viesse mais vezes, mas sei que têm mais pessoas para visitar", diz Palmira.

Em Penacova desde outubro de 2025

A carrinha da Escola de Cães-Guia para Cegos segue pela estrada até Coiço, uma localidade da mesma freguesia de Carvalho. O largo da aldeia está enfeitado, há música no ar, o bar está preparado e a capela de Santo António aguarda a celebração do padroeiro.

Gina Ferreira liga a tomada e as luzes da capela iluminam-se. "Foi o meu pai que fez isto tudo sozinho", afirma com orgulho, referindo-se à réplica da capela de Santo António, inteiramente feita em madeira. Nelson colocou-a sobre um pipo de vinho, numa divisão fresca da casa, a meio caminho entre uma sala comum e uma adega.

"O sino toca e tudo", recorda o autor da peça. Sentado numa cadeira de rodas, Nelson Ferreira entusiasma-se quando o cão chega. "Oh, Kayë, anda cá", chama, emocionado. "Anda cá, anda", insiste.

Está mais familiarizado com o "Herói", o cão preferido da mulher. Atualmente internada nos Hospitais Universitários de Coimbra (HUC), ela foi uma das primeiras pessoas a integrar o "Estou Cãotigo", em outubro de 2025. Nelson juntou-se ao programa desde o Natal. Realizadas quinzenalmente, as sessões "procuram estimular a memória, promover o movimento, potenciar emoções positivas e reforçar o bem-estar emocional, contribuindo para melhorias efetivas na qualidade de vida e saúde mental dos idosos", esclarece a ABAADV.

Kayë usa um colete de ganga com velcro, onde estão fixados vários cartões brancos plastificados. Nelson retira um e lê "biscoito amarelo". A técnica auxilia-o a selecionar um doce da cor indicada, que depois oferece ao cão. O exercício "estimula a leitura e a comunicação", explica Mafalda Vicente, gestora de projetos e presidente da ABAADV. "E os membros superiores", completa Rita Nobre, sublinhando que os exercícios de comando são igualmente relevantes. "Assenta", ordena Nélson, após ler outro cartão. O animal cumpre a instrução.

"Isto é mais um entretém para o meu pai", observa Gina Ferreira, que sai para trabalhar de manhã e só regressa ao final do dia. Sem disponibilidade para o acompanhar, é uma prima, Isabel Alves, quem cuida de Nélson, numa cadeira de rodas depois de ter dedicado 10 anos a tratar da mulher, parcialmente paralisada na sequência de um AVC. "Reage bem ao cão. Gosto de ver", diz a cuidadora. "E é uma coisa que também o distrai", acrescenta. "Até a nós", remata Gina.

Animais com passado e futuro a ajudar os humanos

Kayë tem sete anos e transmite uma serenidade invulgar, se essa expressão puder ser aplicada a um animal. "Já foi cão-guia", recorda Mafalda Vicente. Mais tarde, verificou-se que sofre episódios moderados de epilepsia, tendo sido afastado do programa de apoio a pessoas cegas. "O cão-guia tem de ter um perfil de comportamento e de saúde específico", acrescenta a presidente da direção da ABAADV.

"Os cães-guia. São ensinados a resistir a outros animais. Sejam cães, gatos, aves", explica Mafalda Vicente. Mike, um dos cães de Gina Ferreira, entra na divisão e Kayë quase não reage. Cheira discretamente o velho conhecido, enquanto a dona o incentiva a executar os mesmos truques. O "Senta" e o "Dá a pata" acabam por dar origem a um dueto canino, com ambos a demonstrarem o que sabem fazer.

Goofy apresenta um ligeiro problema na anca, impercetível para quem não conhece o caso, e uma personalidade que corresponde ao seu nome. É uma alegria irrequieta, brincalhão e, em pequeno, gostava de roer pedras - um verdadeiro pateta, como indica a tradução portuguesa do nome inglês. "Quando não é possível fazer aquilo para que eram treinados, ficam na mesma com uma tarefa solidária", afirma Palmira Vicente.

Desde o nascimento, estes cães são preparados para apoiar pessoas cegas. Ainda antes de abrirem completamente os olhos, começam a habituar-se ao contacto humano. Aos três meses, entram no programa em que são avaliadas as capacidades para se tornarem cães-guia. No total, a Escola de Cães-Guia para Cegos de Mortágua forma 16 animais por ano, quatro de cada vez.

"Investimento estratégico" num concelho que aposta na juventude

Para a Câmara de Penacova, o projeto "Estou Cãotigo" constitui "um investimento estratégico". O município destaca também o Clube Sénior, uma iniciativa que promove oficinas em vários locais do concelho. Estão ativos sete polos, frequentados por mais de 300 pessoas, com atividades nas áreas digital, física, criativa, de inglês e de música.

"Funcionam todas em dias distintos, mas multiplicadas nos sete polos, de segunda-feira de manhã até sexta-feira à tarde", explica o vereador da Educação e Ação Social, Carlos Sousa. "Proporcionamos transporte a todos. E aí, de facto, é um grande investimento. Temos, neste momento, dois autocarros e dois motoristas adstritos a tempo inteiro ao Clube Sénior", acrescentou.

Em Penacova, as escolas estão abertas das 7.30 às 19 horas. "Isto implica dois turnos de funcionários, mas é a forma que temos para captar os alunos para o concelho", refere Carlos Sousa. Num concelho onde a maioria esmagadora da população trabalha em Coimbra, a Câmara Municipal percebeu que, sem alternativa, os pais colocariam os filhos a estudar fora. "Temos que dar tempo às pessoas de irem trabalhar e voltar."

O alargamento do horário funciona em duas modalidades: uma através de protocolos com Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) do concelho e outra assegurada pelo município nas zonas onde não existem IPSS. "E isto é um grande investimento", afirma Carlos Sousa. "Entre o que recebemos ao abrigo da transferência de competências e o que que custa, temos um défice anual de meio milhão de euros. Que tem de sair do orçamento da Câmara", acrescentou o vereador da Ação Social e Escolar.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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