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Cabo Verde recebe os Tubarões Azuis e Vozinha no aeroporto da Praia

Jogadores de futebol de Cabo Verde celebram com bandeiras e música à chegada ao aeroporto de Praia.
Neste artigo
  1. Uma receção histórica aos Tubarões Azuis
  2. A multidão espera Vozinha no aeroporto da Praia
  3. Uma celebração azul até Quebra Canela

Uma receção histórica aos Tubarões Azuis

Os novos embaixadores de Cabo Verde no Mundo foram hoje acolhidos em festa por milhares de pessoas, que se concentraram no aeroporto da Ilha de Santiago para os receber.

Nem os tubarões azuis pareciam preparados para a maré humana que os surpreendeu à chegada ao Aeroporto Internacional da Praia, capital de um país que cresceu como uma onda atlântica. Cabo Verde exibiu a sua força crioula sempre que as mãos seguras de Vozinha impediram a entrada da bola, na estreia da seleção no Mundial de futebol. A equipa regressou vitoriosa dos Estados Unidos, depois de obrigar a Argentina a um duelo intenso até ao derradeiro dos 120 minutos. Às portas da Ilha de Santiago, uma multidão vestida de azul-escuro contava, na manhã deste domingo, os minutos até poder saudar os novos heróis.

São milhares os adeptos que aguardam as estrelas nacionais nas imediações do aeroporto Nelson Mandela. Que o histórico Nobel da Paz perdoe o povo cabo-verdiano que o homenageou, mas a lenda do dia chama-se outra coisa: não foi pela defesa da liberdade ou dos direitos humanos, porque nestes dias Cabo Verde apenas quer falar de defesas. O nome do guarda-redes que se tornou herói aos 40 anos está escrito nas costas das camisolas e ecoa nos gritos vindos de todos os lados.

Há pessoas nos terrenos descampados junto ao aeroporto, empoleiradas nos muros laterais e no alto das encostas de terra atrás do edifício. Outras sobem aos tejadilhos de carros e jipes, ficam de pé nos assentos das motas ou ocupam o monumento a Eugénio Tavares, situado na rotunda do aeroporto. Também esse monumento forma uma ondulação azul, embora muito mais baixa do que a que se ergueu desde cedo em redor: bandeiras, t-shirts, vestidos e chapéus estampados com Cabo Verde.

A multidão espera Vozinha no aeroporto da Praia

"Nunca houve nada assim aqui", escuta-se numa das encostas, de onde se observa com uma perspetiva privilegiada o espetáculo do ano. Cá em baixo, junto às portas do aeroporto, Jéssica Pires, do grupo de samba "Vindos do Mar", concentra as atenções antes de os tubarões azuis surgirem. Veste um fato de banho azul ornamentado com missangas e plumas, usa sapatos de salto alto e uma bandolete em forma de coroa, adequada ao estatuto de rainha da bateria do Carnaval da Praia.

Ao seu lado está meia dúzia de batucadores do grupo de batuque "Pó di Terra". Um deles traz uma bandeira de Cabo Verde às costas e, ao peito, o emblema do F. C. Porto. Azul em dose dupla.

São onze e meia, o calor intensifica-se e a agitação aumenta. Os jogadores, chegados ao aeroporto várias horas antes, estão quase a sair, enquanto a multidão se acumula nas grades à espera de uma fotografia, um cumprimento ou um autógrafo. Pelo corredor central, onde um cordão policial sereno mantém uma passagem livre, aproxima-se uma mulher acompanhada por duas meninas. É Nadine, irmã do antigo leão Jovane Cabral, com as duas sobrinhas, todas a transbordar orgulho pelo percurso do ídolo da família.

"Ahhhhhhh!!!". Por fim, o povo explode em gritos, apitos, vuvuzelas e batucadas. Ali estão eles: os reis sem coroa de um país presidencial, qualificado para o Mundial a partir do Estádio Nacional Tubarões Azuis, a poucos quilómetros dali. "Nos voz, nos forsa, nos orgulho" - lê-se no trio elétrico que atravessa os portões e transporta os jogadores no regresso a casa.

De ambos os lados do camião, os adeptos celebram os magos da bola, mas é na parte traseira que resplandece a maior estrela. De óculos de sol, Vozinha segue atrás, a gravar no telemóvel a receção triunfal, enquanto quem o rodeia prolonga o seu nome. Sem conseguir agradecer individualmente a todos os presentes, fecha a mão sobre o peito e acena, à maneira de um Papa no seu papamóvel.

Uma celebração azul até Quebra Canela

"O povo está orgulhoso e com muita emoção", afirma Bidião - nome de peixe, espírito de tubarão - enquanto desfila com uma bandeira gigantesca, para alegria dos compatriotas. "Somos um país pequeno e fraco de desporto", diz, emocionado com a campanha no Mundial, embora continue a considerar "injusto" o resultado da partida que ditou a eliminação. "O primeiro golo do Messi vem de um fora de jogo", dispara o habitante da Praia, que chegou ao aeroporto quando quase ninguém lá estava. "Fui praticamente o primeiro."

Apesar da receção arrebatadora, que continuaria durante o resto do dia pelas principais artérias da cidade até à Praia de Quebra Canela, o ambiente mantém-se controlado. O policiamento, firme mas tolerante, respeita a emoção popular num momento sem precedentes na História de Cabo Verde. Não há insultos ou confrontos, nem confusões ou irritações. A situação mais marcante acontece quando um cabo-verdiano acrescenta à bandeira do seu país uma outra, mais pequena, do Brasil, provocando de imediato a indignação de uma mulher. "É Cabo Verde, oh!". Tirando isso, nada mais há a assinalar.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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