O PORTUGUÊS SUAVE... E AZARADO
Um rapaz de 26 anos, nascido no Hospital de Faro e residente em Portugal desde sempre - os mesmos 26 anos que conta - não consegue obter a nacionalidade portuguesa. A culpa é da burocracia. Os proprietários do pequeno restaurante onde trabalha garantem que sempre o conheceram ali, enquanto ele mal sabe alguma coisa sobre Cabo Verde, país cuja nacionalidade lhe é atribuída. Nasceu em Portugal, onde vive e trabalha, paga impostos, faz descontos e até possui carta de condução emitida no país. Ainda assim, por imposição legal, foi registado em 1999 como cabo-verdiano. É mais um português de 2.ª.
UM PLANO E PERAS
Não será certamente por ausência de planos que desaparecemos. Creio que há planos para tudo e, desde a semana passada, existe mais um: aquele que faltava para recuperar, reorganizar, restabelecer, reforçar, redefinir e fazer o que mais se entender perante a destruição, as falhas e a incompetência causadas por catástrofes naturais, alterações ambientais, incêndios, tempestades e rajadas de vento. Segundo os críticos, trata-se de um plano reaquecido, remendado e retirado do Orçamento do Estado. Essas Cassandras não entendem que o essencial é haver plano, e não saber de onde veio, se pode ser executado ou se chegará a ser cumprido. Há quem aposte que não será concretizado, mas eu não concordo: basta olhar para o NAL (Novo Aeroporto de Lisboa), cujo estudo começou em 1969 (há 57 anos) e que já está pronto... (talvez não tenha sido o melhor exemplo).
O PAÍS NÃO VAI ACABAR...
Parece-me uma das frases mais felizes do nosso primeiro-ministro. Dizia respeito à possibilidade de não existir qualquer reforma laboral, uma vez que nem o PS (e a UGT), nem o Chega parecem disponíveis para aprovar a proposta do Governo. Eu iria ainda mais longe: se o país ficar sem Governo, será que acaba? Há casos encorajadores na Bélgica e em Itália; nesses países, pelo contrário, houve progresso porque não carregavam a burocracia às costas. Sabemos já que não há drama se o Governo nada fizer, mas a minha teoria vai mais fundo: para não fazer coisa nenhuma, não é preciso ninguém; nem sequer um Governo. Vale a pena reflectir nisso. Sem viseiras ou preconceitos. Na quinta-feira, podem debater o tema na Concertação; quem sabe se até a CGTP concordará.
... MAS REFORMA-SE
O Dr. André Ventura interpretou mal o significado de uma reforma e exigiu a redução da idade da reforma. Isto é, achei que pretendia encurtar o tempo de execução de uma reforma, de uns 30 a 50 anos para uns 20 a 40 anos. Porém, enganei-me: quer mesmo reduzir a idade de reforma de cada cidadão. Parece-me exequível, em especial se, como defende o Dr. Ventura, deixarem de entrar imigrantes para trabalhar e descontar para a Segurança Social. Essa, sim, seria uma grande reforma e, ao contrário dos tímidos progressos do primeiro-ministro Montenegro e da cautela do secretário-geral Carneiro, assim o país acabará de facto... transformado num gigantesco lar de 3.ª Idade sem recursos.
OS DISCURSOS DO REI CARLOS III
Dos dois discursos que o Rei Carlos III da Grã-Bretanha nos ofereceu durante a visita aos EUA, apreciei especialmente a subtileza com que celebrou a destruição da Casa Branca. O Rei recordou que os ingleses já tinham dado o seu contributo, em 1814, para a remodelação da residência do Presidente americano, tão estimada por Trump, com aquele enorme salão de baile. A data é distante, é certo, mas foi precisamente a 24 de agosto desse ano que os ingleses, sob o comando de Robert Ross, incendiaram não apenas a Mansão Presidencial - como então era chamada -, mas também o Capitólio e outros edifícios da administração norte-americana. Aconteceu na Batalha de Washington, durante a guerra de 1812, consequência da guerra de independência das colónias inglesas da América do Norte, iniciada em 1775 e que levaria à proclamação do novo país em 1776. Estaria o Rei a sugerir algo? Ah, o velho humor britânico. Registe-se ainda a ligação à NATO e às relações transatlânticas - embora essas sejam políticas do Governo de Sua Majestade, que, como é sabido, habitualmente redige os discursos dos reis.
MAIS TAXAS
É evidente que Trump não apreciou os comentários do chanceler alemão sobre a guerra - ou a alegada guerra, já que os EUA declararam que, neste momento, ela não existe, sem que isso impeça o seu regresso amanhã ou depois. Também não gostou da ausência de elogios ao seu másculo bloqueio do Estreito de Ormuz, que terminará caso o próprio estreito seja aberto, nem das críticas à falta de apoio à Ucrânia. Perante isto, ocorreu-lhe uma represália original: taxar novamente os automóveis europeus. Valha-me Deus! Não tenho idade nem paciência para tamanha coisa. O melhor que a Europa poderia fazer seria ocupar a Mansão Presidencial com um batalhão dos seus melhores psicanalistas e apurar, de uma vez por todas, se aquilo é estupidez, maldade, ganância, cupidez ou falta de colo. Algo desse género...






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário