Um pequeno recipiente de pedra em forma de tubo, encontrado no Irão, poderá ter guardado em tempos um pigmento vermelho vivo semelhante a batom.
A análise dos vestígios no interior do recipiente revelou ingredientes surpreendentemente próximos dos que são hoje usados em pigmentos para os lábios. Para os cientistas, trata-se provavelmente do mais antigo exemplo conhecido de pintura labial utilizada por seres humanos.
Este batom antigo parece testemunhar uma cultura suficientemente avançada para dominar os conhecimentos de metalurgia e química necessários ao desenvolvimento de inovações deste tipo.
“Este cosmético vermelho-escuro”, escreve uma equipa de arqueólogos liderada por Nasir Eskandari, da Universidade de Teerão, “é compatível com uma preparação para colorir os lábios - provavelmente a mais antiga até agora documentada por análise - e amplia o leque de práticas cosméticas no Calcolítico-Idade do Bronze.”
Cosméticos antigos e o pigmento para os lábios
A decoração cosmética tem, na realidade, uma história bastante longa, e existem provas disso. O eyeliner kohl, por exemplo, é usado há milhares de anos, enquanto outros produtos, como sombras e bases, foram identificados no antigo Egito, no Próximo Oriente e em partes da Ásia. Há inclusive análises que permitem conhecer as fórmulas destes cosméticos antigos.
Sobre o pigmento labial, porém, sabe-se consideravelmente menos. Não é conhecido o local nem o momento em que a sua utilização começou, nem a forma como era preparado. Por isso, este minúsculo artefacto tem implicações relevantes.
“A reduzida atenção dedicada a esta indústria da antiga Idade do Bronze deve-se, creio eu, ao facto de ter sido considerada uma ‘questão de mulheres’ secundária”, declarou à Smithsonian Magazine o arqueólogo Massimo Vidale, da Universidade de Pádua, em Itália.
“Pelo contrário, tratava-se de uma expressão dispendiosa de luxo, que desempenhava um papel crucial na configuração das interações sociais nas hierarquias das primeiras cidades.”
O recipiente de clorite encontrado no Irão
Trata-se de um pequeno frasco, cuidadosamente esculpido numa pedra esverdeada chamada clorite. Foi recuperado no sudeste do Irão, em 2001, depois de o rio Halil ter transbordado e inundado vários cemitérios do Calcolítico. Milhares de artefactos perderam-se devido a pilhagens, mas o tubo foi recuperado e levado para o Museu de Arqueologia de Jiroft, onde permanece em segurança desde então.
Embora o material e o estilo correspondam a outros artefactos de clorite associados à antiga cultura de Marḫaši, os investigadores repararam que as suas dimensões e forma eram invulgares. Decidiram, por isso, analisá-lo em profundidade para tentar determinar a sua função.
No seu interior encontraram uma pequena quantidade de pó fino, solto e de tonalidade púrpura-escura. O material foi submetido a várias técnicas analíticas, incluindo microscopia eletrónica de varrimento, difração de raios X em pó, cromatografia líquida de alta eficiência com espetrometria de massa e datação por radiocarbono.
Embora não seja possível excluir a contaminação pelo solo, os resultados indicam que esta terá sido mínima. A amostra foi datada do início do 2.º milénio a.C., há cerca de 4.000 anos. Já a composição do conteúdo revelou-se particularmente interessante.
A composição do mais antigo batom conhecido
O ingrediente predominante era hematite. Na sua forma mineral, a hematite é frequentemente preta; quando moída, porém, pode transformar-se num pó vermelho intenso e brilhante. Foram ainda identificados quartzo, clinocloro, braunite, manganite e galena, um componente comum no kohl antigo.
Além disso, os investigadores detetaram ceras e óleos vegetais, semelhantes aos presentes no batom moderno. A proporção de minerais à base de chumbo revelou-se mínima.
Segundo os investigadores, estes dados apontam para uma pintura labial, uma hipótese reforçada pelo tamanho e pela forma do tubo de pedra. Como observam, o recipiente podia ser facilmente segurado numa mão, enquanto a outra usava um aplicador. É lamentável que o artefacto não tenha sido encontrado no respetivo contexto funerário, o que permitiria associá-lo a um indivíduo ou grupo social específico.
Ainda assim, este cosmético pode revelar muito sobre as pessoas que o produziram há tantos milénios.
“Esta descoberta demonstra que os artesãos iranianos de há 5.000-4.000 anos já tinham desenvolvido conhecimentos muito avançados sobre compostos metálicos, naturais e sintéticos, capazes de produzir não só eyeliner kohl preto e base facial branca de chumbo, mas muito mais”, afirma Vidale.
“Agora, a isto soma-se a pintura labial recentemente descoberta. Os vestígios mínimos de minerais de chumbo sugerem que esses artesãos compreendiam os perigos da ingestão direta de chumbo. Também apontam para a possibilidade de os cosméticos serem usados em contextos sociais formais e cerimoniais, como um componente importante da manifestação pública do papel dominante de uma camada de elite da população.”
A investigação foi publicada na revista Scientific Reports.






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