Muitas mulheres governaram o antigo Egito, de uma forma ou de outra, ao longo da sua célebre história - sem esquecer algumas princesas dignas de um filme de ação.
Entre os nomes mais conhecidos estão Hatshepsut, Nefertiti e Cleópatra - na realidade, existiram sete Cleópatras.
Ao recuarmos pelas areias do tempo, a cronologia convencional aponta Sobekneferu como a primeira rainha do Egito, há quase 4.000 anos.
Contudo, a primeira mulher soberana egípcia poderá ter reinado mais de um milénio antes, o que possivelmente faria dela a mais antiga governante registada da História.
Chamava-se Meretneith, um nome que significa «amada de Neith», a deusa da guerra e da maternidade - uma combinação que parece fazer mais, ou menos, sentido quanto mais se pensa nela.
Meretneith e os selos reais do antigo Egito
Uma nova investigação, publicada na revista Estudos Egiptológicos de Praga, expõe indícios antes ocultos - embora estivessem à vista de todos - sobre o estatuto soberano de Meretneith. O estudo também descreve, com um detalhe até agora inexplorado, o seu governo versátil, que poderá ter durado décadas.
A egiptóloga Sue Kelly, da Universidade Carolina de Praga, e a arqueóloga digital Crystal Miller, da Universidade de Bucareste, na Roménia, recorreram a uma técnica personalizada de imagem digital. Isolaram os hieróglifos, inverteram as cores e converteram a imagem num gráfico vetorial de elevado contraste para revelar o nome de Meretneith inscrito em «sereques», ou selos reais.
Estes emblemas eram reservados aos governantes do Egito.
Os sereques decoram um conjunto de 13 tampões de barro - rolhas utilizadas para selar jarros de cerâmica e outros recipientes - descobertos há 80 anos na necrópole de Sacará, repleta de múmias. Curiosamente, Meretneith não foi sepultada nesse local.
«Na nossa opinião, o resultado identifica Meretneith através da principal marca dos governantes deste período», explica Kelly.
«Isto significa que ela foi de facto um rei mulher - e não apenas uma “rainha”, mas o verdadeiro equivalente de um governante masculino, daí “rei” - durante a Primeira Dinastia, além de ser a segunda governante feminina do antigo Egito cujo nome foi registado no emblema real do sereque.»
Um reinado debatido e indícios de poder
Trata-se de uma questão complexa e contestada. Apesar de o seu nome surgir em muitos suportes, incluindo túmulos nas prestigiadas necrópoles reais de Abidos e Sacará, o estatuto de Meretneith permaneceu ambíguo e amplamente debatido.
Ainda assim, várias linhas de evidência sustentam a sua importância. Entre elas está o seu túmulo real em Abidos, uma «sepultura inequivocamente pertencente a um governante», que continha centenas de grandes jarros de vinho e quase 50 sepulturas e câmaras secundárias, destinadas a servidores e cortesãos.
O seu nome parece igualmente ter sido gravado numa estela monumental, do tipo concedido aos governantes. Era uma de um par recuperado do seu túmulo, embora a outra estivesse demasiado danificada para que a inscrição pudesse ser confirmada.
Os investigadores sugerem que, numa trajetória política que poderá ter abrangido pelo menos 30 anos de governo sob diferentes formas, Meretneith começou como corregente ao lado do seu possível pai, Djer, o terceiro rei do Egito. O nome dele também surge nos sereques dos tampões de barro.
Esta conclusão desenvolve uma proposta anterior segundo a qual ela teria servido primeiro como princesa herdeira, ou sucessora aparente.
Mais tarde, Meretneith poderá ter assumido a regência quando o seu filho, Den, ainda era menor.
De forma intrigante, uma impressão de selo ainda misteriosa, encontrada no túmulo de Den, poderá enumerar uma cronologia de governantes ou ancestrais de um culto funerário. O nome de Meretneith surge no fim, acompanhado pelo título de «mãe do rei».
Além disso, «os egípcios reconheceram o seu estatuto político ao inscreverem o seu nome no selo funerário de um governante posterior, Semerkhet», o que sugere que foi respeitada após o seu reinado, explica Kelly.
«Outros textos indicam que detinha autoridade sobre o tesouro e os funcionários, governando como soberana sem um título político.»
A sua versatilidade política terá resultado provavelmente do seu género e da posição que ocupava na família reinante naquele momento. À medida que o contexto político evoluía, adotou vários papéis distintos de governante.
«Sugerimos que Meretneith tinha a vantagem de poder entrar e sair do domínio político conforme as necessidades do contexto político», conclui Kelly, «ao contrário dos governantes masculinos que lhe sucederam, que reinavam, morriam e eram sepultados pelos seus sucessores.»
Esta investigação foi publicada em Estudos Egiptológicos de Praga.
Este artigo foi verificado por Rebecca Dyer e editado por Rebecca Dyer. Embora nos orgulhemos do nosso processo, somos apenas humanos. Se detetar algum erro, informe-nos, por favor.






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