No Dia Europeu Sem Carros, resolvi fazer exatamente o oposto do que a efeméride propõe e escrever sobre automóveis. Eu sei, quase parece um exercício de risco. Ainda assim, estou preparado para o assumir.
Não pretendo enumerar os benefícios dos transportes públicos, nem defender que se retirem mais carros da estrada. Há uma questão que considero bem mais relevante: estará a Europa a avançar para um continente sem carros… europeus?
Pode soar a exagero, reconheço. Talvez o seja. Porém, basta observar o que se passa à nossa volta para concluir que a dúvida não é assim tão descabida.
A transição elétrica e o acesso ao automóvel
Ao longo de anos, a Europa procurou liderar a transformação do setor automóvel. Estabeleceu objetivos, impôs normas - nisso somos particularmente eficientes - e colocou a eletrificação no centro da estratégia.
Não tenho qualquer objeção a esse caminho. Pelo contrário: até tenho um elétrico estacionado na garagem. O problema é que, quando se define um destino, é preciso assegurar que todos dispõem de condições para o alcançar. E torna-se cada vez mais evidente que os responsáveis europeus ignoraram esse aspeto.
Queremos afastar os carros antigos das estradas, renovar o parque automóvel e acelerar a passagem para veículos 100% elétricos. É legítimo que esse objetivo faça parte do horizonte. Mas há uma realidade que ninguém parece disposto a reconhecer: existem pessoas inteiramente dependentes do automóvel que simplesmente não têm recursos para comprar um elétrico novo.
Fora os clássicos, que despertam emoções, será que alguém conduz um carro com 15 ou 20 anos por gosto? Evidentemente que não. Na vasta maioria das situações, fá-lo porque é o automóvel que consegue manter. Foi o que teve possibilidade de comprar. É aquilo que lhe garante liberdade.
Para muitas dessas pessoas, aliás, não se trata de conforto nem de preferência. É o único meio para chegar ao emprego. Por muito que nos peçam para reduzir o consumo de combustível e utilizar o carro apenas quando indispensável, os transportes públicos são um «luxo» reservado a quem vive nas cidades. Sei que há autocarros para quase todos os destinos, mas gastar 3 horas numa deslocação que de carro demora 45 minutos não constitui uma alternativa. Lamento.
Se tivermos uma folha de Excel diante de nós, retirar da estrada um carro antigo e substituí-lo por um elétrico novo pode parecer uma decisão simples e evidente. Só que o mundo é um pouco mais complexo do que isso. Para quem não dispõe desse dinheiro, essa opção não existe.
A competitividade dos automóveis europeus
Mas os desafios da Europa não terminam aqui. O continente investe demasiado tempo e recursos em legislação e na definição de metas. Enquanto isso, do outro lado do mundo, a China passou os últimos anos a fazer aquilo que realmente conta: investir, produzir, ganhar dimensão e aprender a fabricar carros competitivos. Os resultados são visíveis.
Atualmente, as marcas chinesas conseguem entrar no mercado europeu com elétricos e híbridos a preços que, em muitos casos, as marcas europeias não têm capacidade para igualar. É sobre isto que todos deveríamos estar a discutir.
Não defendo que se feche a porta às marcas chinesas. Isso seria absurdo. A concorrência é necessária e saudável. Mas não podemos agir como se esta diferença de competitividade não existisse.
O futuro da indústria automóvel europeia
Até porque já não falamos apenas de automóveis. Falamos de fábricas, fornecedores, postos de trabalho e pessoas. Milhões de pessoas. Pessoas que dependem de uma das poucas indústrias verdadeiramente globais que a Europa ainda lidera.
Não sei como será o automóvel europeu dentro de 15 anos. Não sei se será inteiramente elétrico, híbrido ou se continuará a existir espaço para o motor de combustão. Mas sei que não quero chegar a 2040 e perceber que reduzimos as emissões dos automóveis europeus à custa de deixarmos de produzir automóveis… europeus.
Seria uma ironia enorme se, no final, os carros continuassem a circular nas estradas, mas já não fossem europeus.






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