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Porque a Época do Antropoceno foi rejeitada pelos geólogos

Homem numa pedreira segura coluna de terra com brinquedos enquanto examina área de escavação ao ar livre.
Neste artigo
  1. A ideia original do Antropoceno
  2. O Antropoceno como época
  3. A Época do Antropoceno morreu; viva o Antropoceno

Quando se fala no «Antropoceno», é habitual imaginar-se o enorme impacto que as sociedades humanas exercem sobre o planeta, desde a rápida redução da biodiversidade ao aumento da temperatura da Terra provocado pela queima de combustíveis fósseis.

Transformações planetárias desta dimensão não começaram todas ao mesmo tempo, num único local ou num momento específico.

Por isso, gerou controvérsia a proposta de um comité internacional de cientistas - o Grupo de Trabalho do Antropoceno - que, após mais de uma década de investigação e debate, sugeriu que o Antropoceno fosse assinalado como uma época na escala do tempo geológico, com início precisamente em 1952. O indicador proposto era a precipitação radioactiva resultante de testes de bombas de hidrogénio.

Em 4 de março de 2024, a comissão responsável pelo reconhecimento das unidades de tempo no nosso período mais recente da história geológica - a Subcomissão de Estratigrafia do Quaternário - recusou a proposta: 12 dos 18 membros votaram contra. Estes cientistas são os maiores especialistas na reconstrução da história da Terra a partir dos indícios preservados nas rochas. Concluíram que a criação de uma Época do Antropoceno - e o fim da Época do Holoceno - não era sustentada pelos critérios utilizados para definir épocas.

Importa esclarecer que esta votação não altera as provas esmagadoras de que as sociedades humanas estão, de facto, a transformar o planeta.

Enquanto ecólogo que estuda as alterações globais, fiz parte do Grupo de Trabalho do Antropoceno desde a sua fundação, em 2009, até 2023. Demiti-me por estar convencido de que a proposta definia o Antropoceno de forma tão restrita que prejudicaria uma compreensão científica e pública mais ampla.

Ao ligar o começo da era humana a um acontecimento tão recente e devastador - a precipitação nuclear radioactiva -, a proposta podia gerar confusão sobre a longa história da transformação humana da Terra, desde as alterações climáticas e a perda de biodiversidade até à poluição por plásticos e à desflorestação tropical.

A ideia original do Antropoceno

Desde que o químico atmosférico e Nobel Paul Crutzen cunhou o termo Antropoceno, em 2000, este tem vindo cada vez mais a definir o nosso tempo como uma era de transformação planetária provocada pelos seres humanos, que inclui alterações climáticas, perda de biodiversidade, poluição por plásticos, megaincêndios e muito mais.

Inicialmente, Crutzen propôs que o Antropoceno tivesse começado na parte final do século XVIII, como resultado da era industrial. Observou também que estabelecer uma data de início mais precisa seria «arbitrário».

Segundo os geólogos, os seres humanos vivem na Época do Holoceno há cerca de 11 700 anos, desde o fim da última era glaciar.

Há milhares de anos que as sociedades humanas começaram a influenciar a biodiversidade e o clima da Terra através da agricultura. Estas mudanças começaram a acelerar há cerca de cinco séculos, com o encontro colonial entre o Velho e o Novo Mundo. E, tal como Crutzen salientou, o clima da Terra começou realmente a mudar com a utilização crescente de combustíveis fósseis durante a Revolução Industrial, iniciada no final do século XVIII.

O Antropoceno como época

A justificação para propor uma Época do Antropoceno com início por volta de 1950 assentava em provas irrefutáveis de que muitas das transformações mais importantes da era humana aumentaram acentuadamente nessa altura, durante a chamada «Grande Aceleração», identificada pelo cientista do clima Will Steffen e outros investigadores.

Radioisótopos como o plutónio, libertados nos testes de bombas de hidrogénio realizados nesse período, deixaram vestígios inequívocos em solos, sedimentos, árvores, corais e outros potenciais registos geológicos em todo o planeta. O pico de plutónio nos sedimentos do Lago Crawford, no Ontário, Canadá - escolhido como o «prego dourado» para determinar o início da Época do Antropoceno - está claramente assinalado no registo sedimentar excepcionalmente nítido do fundo do lago.

A Época do Antropoceno morreu; viva o Antropoceno

Então, porque foi rejeitada a Época do Antropoceno? E o que acontece agora?

A proposta de acrescentar uma Época do Antropoceno à escala do tempo geológico foi rejeitada por várias razões, nenhuma das quais relacionada com o facto de as sociedades humanas estarem a alterar o planeta. Na realidade, sucede precisamente o contrário.

Se houve uma razão principal para os geólogos recusarem esta proposta, foi o facto de a sua data recente e a reduzida profundidade do registo serem demasiado limitadas para abrangerem as evidências mais antigas de mudanças planetárias causadas por seres humanos. Como escreveram o geólogo Bill Ruddiman e outros autores na revista Science, em 2015: «Faz realmente sentido definir o início de uma era dominada pelos humanos milénios depois de a maioria das florestas das regiões aráveis ter sido cortada para a agricultura?»

As discussões sobre uma Época do Antropoceno ainda não terminaram. Contudo, é muito improvável que venha a existir, num futuro próximo, uma declaração oficial que reconheça a Época do Antropoceno.

A ausência de uma definição formal para uma Época do Antropoceno não constituirá um problema para a ciência.

Já existe uma definição científica do Antropoceno amplamente disponível: o Evento do Antropoceno, que, em termos geológicos simples, define essencialmente o Antropoceno como «um acontecimento complexo, transformador e em curso, análogo ao Grande Evento de Oxidação e a outros presentes no registo geológico».

Assim, apesar do voto «não» à Época do Antropoceno, o Antropoceno continuará a ser tão útil como tem sido há mais de 20 anos para estimular debates e investigação sobre a natureza da transformação humana deste planeta.

Este artigo foi actualizado para esclarecer que é improvável que uma nova tentativa de declaração oficial da Época do Antropoceno ocorra em breve.

Erle C. Ellis, Professor de Geografia e Sistemas Ambientais, Universidade de Maryland, Condado de Baltimore

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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João Miguel Ferreira da Costa

João Miguel Ferreira da Costa é técnico de desenvolvimento local e investigador dedicado ao património, à história e à dinamização comunitária de Vila Boa do Bispo. Com experiência em administração autárquica e projectos culturais, interessa-se pela valorização do território, pelas tradições locais e pela participação cívica da população.

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