A forma como um recém-nascido vem ao mundo pode alterar a maneira como o seu sistema imunitário reage mais tarde a medicamentos que salvam vidas.
Um novo estudo realizado na China indica que a via de nascimento - vaginal ou cirúrgica - pode influenciar a eficácia da vacina contra o sarampo. Os investigadores concluíram que as crianças nascidas por cesariana têm uma necessidade maior da segunda dose. Sem este reforço, o risco de falha da vacina é mais elevado.
A análise, conduzida por cientistas da Universidade de Cambridge e da Universidade Fudan, na China, reuniu dados de 1.505 pares de mães e bebés chineses.
Cesariana e resposta à vacina contra o sarampo
Em geral, cerca de 5 por cento das crianças que recebem a primeira dose da vacina contra o sarampo antes de completarem 1 ano não desenvolvem uma resposta de anticorpos. Contudo, entre 2013 e 2018, os bebés nascidos por cesariana na China tiveram uma probabilidade 2,56 vezes superior de sofrer falha da vacina contra o sarampo, em comparação com os que nasceram por via vaginal.
Felizmente, a segunda dose de vacina contra o sarampo compensou essa falha, provocando uma resposta imunitária tardia e «robusta». Ainda assim, é importante conhecer este atraso, uma vez que pode contribuir para a definição de políticas de vacinação eficazes.
Em 2021, milhões de crianças em todo o mundo não receberam o reforço contra o sarampo - um número recorde que colocou a imunidade de grupo de muitos países num perigoso ponto crítico.
«Sabemos que muitas crianças acabam por não receber a segunda dose da vacina contra o sarampo, o que é perigoso para elas enquanto indivíduos e para a população em geral», explica o geneticista Henrik Salje, da Universidade de Cambridge.
«Os bebés nascidos por cesariana são aqueles que queremos realmente acompanhar para garantir que recebem a segunda dose da vacina contra o sarampo, porque é muito mais provável que a primeira dose falhe.»
Imunidade de grupo e infeções após vacinação
O sarampo é uma doença respiratória viral que representa uma ameaça iminente e é uma das doenças mais contagiosas conhecidas. A vacina é o único meio de a controlar, sendo necessária uma taxa de vacinação de, pelo menos, 95 por cento para alcançar a imunidade de grupo numa população.
A China está perto de eliminar o sarampo, mas, em surtos recentes, cerca de um terço das pessoas infetadas pelo vírus já estava vacinado. Estas infeções «de escape» ocorrem quando o sistema imunitário de uma pessoa não responde a uma vacina ou responde de forma demasiado fraca.
É expectável que ocorra uma determinada proporção de infeções de escape, razão pela qual é tão importante vacinar o maior número possível de pessoas. Porém, trata-se de um equilíbrio delicado, que o aumento das cesarianas poderá desestabilizar.
As crianças nascidas por cesariana, em comparação com as que nascem por via vaginal, apresentam uma probabilidade ligeiramente superior de desenvolver algumas perturbações imunitárias. Embora os cientistas ainda não saibam porquê, existem todos os motivos para aprofundar a investigação.
Microbioma dos bebés nascidos por cesariana
Em 2022, um estudo associou as cesarianas a respostas de anticorpos mais baixas após a administração das vacinas meningocócica e pneumocócica. Nessa investigação, os bebés nascidos por via vaginal apresentavam o dobro do nível de anticorpos protetores depois de receberem as vacinas.
Na altura, os cientistas colocaram a hipótese de que os bebés nascidos por cesariana não são «colonizados» pelos mesmos microrganismos importantes provenientes da vagina da mãe, os quais podem estimular um sistema imunitário recém-formado.
O estudo realizado na China não investigou o motivo pelo qual as cesarianas afetavam as respostas às vacinas, mas os autores suspeitam de uma causa semelhante.
«Num parto por cesariana, as crianças não são expostas ao microbioma da mãe da mesma forma que num parto vaginal», explica Salje.
«Pensamos que isso significa que demoram mais tempo a recuperar o atraso no desenvolvimento do microbioma intestinal e, com ele, na capacidade do sistema imunitário para ser preparado pelas vacinas contra doenças, incluindo o sarampo.»
Por enquanto, porém, esta é apenas uma teoria. Embora os bebés nascidos por cesariana apresentem uma composição bacteriana intestinal diferente da dos bebés nascidos por via vaginal, outros estudos sugerem que essas diferenças desaparecem ao fim de cerca de 9 meses.
O sistema imunitário dos recém-nascidos continua a ser, em grande medida, um mistério. Os investigadores nem sequer concordam sobre se um bebé nasce estéril ou se já chega ao mundo com um microbioma vindo do útero. Também não é claro se o microbioma transmitido ao recém-nascido é o vaginal ou o intestinal da mãe, nem qual é a influência da amamentação após o nascimento.
Desde 2000, a taxa de cesarianas duplicou em todo o mundo. Atualmente, esta cirurgia representa cerca de 20 por cento dos nascimentos a nível global e chega a metade de todos os partos em alguns países, como o Brasil.
Para a saúde pública, é crucial compreender de que forma este procedimento comum está a afetar a imunidade da próxima geração.
O estudo foi publicado na Nature Microbiology.






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